Marcos de Paula/ Estadão
Marcos de Paula/ Estadão

Ato de controlar a vida alheia é tema de livro

O livro começa com uma convocação para que todos os cidadãos de uma cidade examinem seu caráter e suas ações. Nesse prólogo, o personagem do Apregoador anuncia que todos serão visitados em casa e ali mesmo sofrerão as penas impostas por uma espécie de Inquisição pós-moderna, em que se destacam as figuras desse Apregoador e do Olheirento. Ambos vivem no alto de um prédio, ao relento, como personagens beckettianos, espreitando os moradores da cidade a mando de um inquisidor. É uma cena familiar nos dias que correm, especialmente se o suspeito for a presidente da República, mas o fato é que A Cidade, Inquisidor e os Ordinários, novo romance do mineiro Carlos de Brito e Mello, foi concebido bem antes de os jornais noticiarem que Dilma estava sob a mira de espiões do governo norte-americano.

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

09 Setembro 2013 | 13h08

Por uma dessas inexplicáveis coincidências, o livro é lançado justamente quando documentos revelam que a Agência de Segurança Nacional (NSA) dos EUA teriam monitorado conversas de Dilma Rousseff com ministros e assessores. Mas Carlos de Britto e Mello, que tem nome de diplomata mas é psicanalista e romancista, não tem vocação para Edward Snowden, ex-agente da NSA que denunciou o megaesquema de vigilância da agência. O negócio de Brito e Mello é ficção, embora o anonimato dos personagens de seu novo livro possa servir a uma poderosa metáfora sobre o Big Brother orwelliano, que espiona a vida de todos os cidadãos para controlar o mundo como se fosse seu quintal.

Brito e Mello é autor de um livro de contos, O Cadáver Ri de Seus Despojos (Scriputm, 2007), e do elogiado romance A Passagem Tensa dos Corpos. Em ambos, a morte ocupa o posto central. No último, o protagonista é um cadáver que, preso a uma cadeira da sala de jantar de uma família burguesa, testemunha, em sua incorporeidade, os preparativos de casamento da filha, buscando inutilmente uma linguagem que lhe permita existir. O filho, nesse ambiente lúgubre, passa os dias trancado no quarto.

Houve quem identificasse no livro certo parentesco estilístico com o universo oclusivo de outro mineiro, Lúcio Cardoso. Haverá quem veja em A Cidade, o Inquisidor e os Ordinários traços do pernambucano Osman Lins, talvez uma alegoria da arte do romance, como Avalovara, que pretendia abarcar o universo por meio da linguagem. O certo é que, embora admire os dois autores, Brito e Mello segue o próprio caminho em sua polifonia sobre um inquisidor que mobiliza toda uma cidade em torno de denúncias sobre o comportamento de seus habitantes. Pressionados, a defesa deles passa a ser a acusação do próximo, num círculo infernal que torna todos os cidadãos culpados.

Natural de Belo Horizonte, o escritor de 39 anos viajou por muitas cidades do interior de Minas com costumes esquisitos, como Visconde do Rio Branco, onde ouviu, para seu espanto, um alto-falante anunciar os óbitos dos moradores - e que lhe serviu de inspiração para A Passagem Tensa dos Corpos. O novo romance não tem um modelo real, mas, como se sabe, Minas Gerais foi uma das regiões que mais recebeu cristãos novos no século 18 - e alguns marranos encontram a morte por meio de denúncias de vizinhos. No romance, o inquisidor vai atrás de infratores - não os hereges do passado, mas os bodes expiatórios do presente. "Esse parece ser um estado permanente aqui, considerando a recente polêmica provocada pela chegada dos médicos cubanos, xingados por seus pares brasileiros", observa o autor.

A nossa é uma sociedade conspiratória, conclui Brito e Mello, que levou três anos para construir a narrativa fracionada de A Cidade, O Inquisidor e os Ordinários. “Todos enfrentamos a pequena conspiração ordinária de vizinhos invejosos e colegas de trabalho que tentam puxar nosso tapete, exercitando o tempo todo essa sabotagem um do outro, de uma maneira miúda.” Embora exista um narrador principal, o escritor garantiu a outras vozes do romance o poder de entrar clandestinamente no barco da narração, construindo o romance sobre uma plataforma polifônica – o que lhe dá um caráter quase teatral. A evocação de Beckett é imediata. “É um autor da paixão e admito que ele aparece com força.” Quanto a Osman Lins, ele não tinha a intenção de se aproximar de sua vizinhança simbolista, apesar do respeito que tem por sua obra.

A narração polifônica, observa Brito e Mello, não foi um recurso puramente formal. “Ela suscita a dúvida – a verdade, afinal, estaria onde?”, pergunta, classificando seu romance como uma aventura cubista em que o fragmento é uma maneira de se chegar à totalidade. “Essa maneira esburacada talvez seja, afinal, o melhor modo de se falar de moral e lei.”

A CIDADE, O INQUISIDOR E OS ORDINÁRIOS 

Autor: Carlos de Brito e Mello

Editora: Companhia das Letras (472 págs., R$ 49,50).

Versão e-book: R$ 34,50

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literatura ficção

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