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Atleta intelectual

Talvez ainda esteja para nascer um editor como Robert Silvers, da 'NY Review of Books'

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

01 Abril 2017 | 02h00

Forest Lawn, Hollywood, 1947. Funeral de Ernst Lubitsch, o supremo mestre da comédia sofisticada. Numa roda de cineastas, William Wyler vira-se para Billy Wilder, discípulo número um do cineasta prestes a ser enterrado, e lamenta: “Pois é, perdemos o nosso Lubitsch”. Wilder: “Pior do que isso, perdemos os próximos filmes dele”. 

Sempre me lembro desse episódio quando um grande criador ainda na ativa nos deixa na orfandade. Não deu outra no último dia 20: ao saber da morte de Robert Silvers, fundador e editor da New York Review of Books, pensei de imediato na falta que ele fará à sua revista – ou “paper” (jornal), como preferia qualificá-la. Certo, não ficaremos sem a Review, como ficamos sem os filmes de Lubitsch, mas ainda que seu sucessor (Daniel Mendelsohn? Mark Danner? Michael Shae? Louis Menand? Darryl Pinckney? Façam suas apostas) mantenha o elevado padrão de qualidade imposto por Silvers desde o primeiro número, impresso em janeiro de 1963, sua ausência por muito tempo será sentida.

Ninguém, como sabemos, é insubstituível. Mas talvez ainda esteja para nascer um editor com o seu preparo intelectual, o seu nível de exigência, a sua energia, a sua dedicação, a sua meticulosidade – e o seu exitoso currículo. Foi como se uma montanha que nos habituáramos a ver todos os dias tivesse sumido repentinamente, metaforizou Orville Schell o desaparecimento do velho companheiro. “Para os amigos, uma perda irreparável; para o nosso cada vez mais ameaçado mundo intelectual, uma perda incalculável”, lamentou Robert Gottlieb, o segundo Bob mais respeitado da esfera editorial nova-iorquina, para uma série de depoimentos sobre Silvers, diariamente reabastecida no blog da Review. 

Virou lugar-comum considerá-lo “il miglior fabbro” da categoria, o editor dos sonhos de todos nós: o mais sagaz, erudito, articulado, íntegro e politicamente corajoso de sua geração. “Um atleta intelectual”, segundo Helen Epstein, filha de Jason e Barbara Epstein, cofundadores da Review. Sua dedicação total à revista e o capricho e alegria com que editava cada texto, madrugada a dentro, ponderando cada palavra, sempre em busca de clareza e da melhor forma de expressar uma ideia, não raro consultando o autor do texto nas horas e locais mais imprevisíveis sobre a propriedade ou não de uma vírgula, renderam-lhe outro merecido epíteto: “o Sísifo feliz”. Como arrumava brechas para frequentar jantares, ir à ópera, uma de suas paixões, e ao Festival de Salzburgo, nem os colaboradores mais próximos conseguiam explicar.

À parte todas essas virtudes (o que inclui a relação telepática que parecia ter com os seus colaboradores e assistentes), era de uma generosidade sem limites. Ao descobrir, em meados dos anos 1970, que Susan Sontag, diagnosticada com câncer no seio, não possuía seguro-saúde, formou e liderou um comitê para arrecadar fundos para o tratamento da doença. 

Quando veio ao Brasil, no início dos anos 1970, em plena ditadura militar, Silvers fez pouso na casa do empresário Fernando Gasparian, um dos salões literários mais concorridos do Rio na época. Gasparian, criador da editora Paz e Terra, da Argumento (primeiro revista, depois livraria) e do semanário Opinião, conhecia o visitante de longa data e acabaria se tornando uma espécie de representante da Review no Brasil. Silvers era alto, afabilíssimo, falante e bem-humorado. Fumava cigarrilhas Net Sherman e adorava animais. “Marvelous!” parecia ser sua exclamação predileta. 

Tinha uma curiosidade e uma cultura assombrosas, um riso folgazão, uma memória prodigiosa. Deu detalhes sobre seu método de escolha dos temas e livros a serem comentados na revista e seu rigoroso e exaustivo modo de editar. Seu anedotário do petit monde intelectual americano e europeu tinha estoque para animar várias noitadas seguidas. 

Veio acompanhado da ensaísta e escritora Elizabeth Hardwick, fraternal amiga e misto de musa e madrinha da Review. Foi inspirado por um ensaio dela, publicado na revista Harper’s, espinafrando a mediocridade dos suplementos literários da imprensa americana, que o quarteto Jason e Barbara Epstein, Hardwick e o poeta Robert Lowell, beneficiado por uma prolongada greve dos jornais de Nova York, esboçou a revista, na manhã seguinte entregue ao savoir faire de Silvers, que sem pestanejar trocou a Harper’s pela mais venturosa aventura de quantas a imprensa cultural logrou produzir no século passado. 

Já cinquentona, Hardwick (Lizzie, para seus pares e íntimos) era bonita, tinha um quase imperceptível sotaque sulista (do Kentucky) e revelou uma entusiástica curiosidade pelos contrastes de Pindorama e seu conturbado clima político. Pena que só lhe tenham traduzido entre nós Sleepless Nights, romance com toques autobiográficos, editado pela Paz e Terra em 1990, com o título de Noites em Claro

Tudo que aqui observou e ouviu ela destilou num ensaio, Triste Brasil, que a Review publicou em junho de 1974 e a revista Serrote traduziria quatro décadas depois (saiu no número 16). Os milicos, ça va sans dire, não gostaram. Mas certamente não foi por isso que a prometida segunda parte do ensaio nunca foi publicada, nem sequer, talvez, escrita. 

Atrás de outras lembranças do encontro, consultei Marcus Gasparian, filho de Fernando, que desde a morte do pai, em 2006, cuida da Argumento e da Paz e Terra. Muito criança na época, Marcus não deu bola para os ilustres visitantes e só desgrudou de seus brinquedos para atender a um pedido da mãe, Dalva: “Marquinhos, faça umas gracinhas pra alegrar Elizabeth, que ela está muito triste porque se separou do marido”. Hardwick fora casada com Lowell de 1949 a 1972. Grande poeta, quase destruiu a vida dela com suas constantes crises de depressão. Mesmo traída e condenada por ele, aturou suas recaídas até o fim. Ou seja, até 1977, quando um enfarte fulminou o poeta dentro de um táxi, a caminho do apartamento dela. Hardwick ainda viveria mais 30 anos. Santa mulher.

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