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Ativos e passivos

Para o homem latino tradicional, só existe homossexual passivo, o ativo é apenas um heterossexual que prefere homem

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S.Paulo

06 Setembro 2018 | 02h00

Para o homem latino tradicional, só existe homossexual passivo, o ativo é apenas um heterossexual que prefere homem. Essa mentalidade talvez explique a curiosa existência no Brasil, até pouco tempo, de corruptos sem corruptores. O então senador Pedro Simon tentou durante anos formar uma CPI para investigar o escândalo das empreiteiras. Desistiu porque ela demorou tanto que ninguém se lembrava mais qual era o escândalo e quais eram as empreiteiras. Políticos subornados por empresas era coisa tão corriqueira no capitalismo de compadres brasileiro que as primeiras reações às ações da operação Lava Jato foram de choque, como a dessacralização de um tabu. O que todo o mundo sabia em Brasília de repente estava nas manchetes e na boca do povo. Tremendo desrespeito a uma tradição.

Outra manifestação da doutrina homossexual-é-só-quem-dá é a guerra ao narcotráfico, que ainda não chegou ao grande mistério, ou o grande paradoxo brasileiro: um mercado de tóxicos que só tem fornecedor. Um mercado que só dá. Ninguém consome tóxicos no Brasil, e nem por isso o mercado deixa de crescer. Isso explica o fato de as notícias do lado fornecedor serem tantas e tão espetaculares. Morros em que a polícia não entra dominados por traficantes, regiões inteiras aterrorizadas por czares intocáveis da droga. É tudo para compensar o grande silêncio sobre a outra parte do mercado, a parte não espetacular, a parte que não existe.

Não se quer criminalizar o uso da droga ao ponto em que chegaram os Estados Unidos, onde o endurecimento da repressão também é uma estratégia de controle político. Algo como um em cada quatro jovens negros americanos está na cadeia pelo uso de drogas – ou seja, está onde o governo pode vê-lo, em vez de na guerra urbana. Também é um bom negócio: dizem que a segunda indústria da Califórnia, depois da de informática, é a de construção de cadeias. Mas lá rico também vai preso. Seria interessante ter, de vez em quando, uma visão do mercado consumidor brasileiro, do lado comprador, dos ricos. Não dos que estão nos morros, mas dos que mandam baixar. Só por curiosidade. 

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