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Atitude mental

O esforço é feito para conquistar um resultado e não para desistir da conquista

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

27 de fevereiro de 2017 | 02h00

Na sexta-feira, a Casa Branca barrou jornalistas do New York Times, da CNN e da BBC, entre outros, de um briefing. Era, como de hábito, outra manobra diversionista num dia em que o chefe de gabinete da presidência enfrentava perguntas espinhosas sobre mais um vazamento na capital: a pressão altamente imprópria que a Casa Branca teria exercido sobre o FBI para vazar informações favoráveis sobre a relação da campanha Trump com a Rússia. Como esperado, o resto do dia foi consumido por protestos contra a restrição à liberdade de imprensa e não pelo fato potencialmente grave de uma interferência do Executivo sobre a investigação do FBI.

Ao comentar o incidente, uma repórter política de Washington não conteve a frustração: seu irmão, um jovem universitário, telefonou perguntando se ela tinha sido barrada do briefing porque divulgava “fake news”. Ou seja, o rapaz repetiu sem qualquer senso crítico o epíteto martelado diariamente pelo novo presidente quando lê algo que lhe desagrada.

O episódio me fez lembrar uma conversa recente sobre hierarquia e conformismo que tive com a autora de um livro que acaba de ser lançado no Brasil, Mindset: a nova psicologia do sucesso (Companhia das Letras). A autora é Carol Dweck, uma espécie de guru da psicologia social e Mindset, um bestseller com mais de 1.5 milhão de cópias vendidas, saiu em português na versão atualizada por Dweck. A tese do livro é sobre a importância da “atitude mental”, não só para aprender e criar, como para superar dificuldades. O livro define dois tipos de mindset, o fixo e o de crescimento. A pessoa de mindset fixo vê suas qualidades como imutáveis e investe sua energia em provar a ideia que tem de si mesma. A pessoa com o mindset de crescimento tem confiança na capacidade de mudar através do esforço, admite a individualidade e aceita erros como parte do caminho.

Dweck me atendeu em casa, perto do campus da Universidade de Stanford, na Califórnia, onde é professora do Departamento de Psicologia, uma semana depois da posse presidencial. Entre as pesquisas que evoluíram depois da primeira publicação de Mindset, está a de um ex-aluno de Dweck, sobre o vínculo entre o mindset fixo e a submissão acrítica a hierarquias. A autora me conta que o adolescente nesta categoria tende a ver papéis sociais como imutáveis – o bully será o bully e a vítima continuará sendo intimidada. Como estamos testemunhando uma disparada de incidentes de intimidação nos EUA – contra judeus, muçulmanos, negros – as reflexões de Carol Dweck adquirem nova relevância. 

A psicóloga comentou também o peso do mindset fixo sobre a exclusão de mulheres e certas minorias de carreiras em ciência. Citou um estudo fascinante que acaba de ser publicado na revista Science e mostra como, quando uma disciplina é vista sob estereótipos como “gênio” ou “brilho”, ela tende a afastar meninas desde cedo, porque a sociedade atribui o predomínio destas qualidades a homens.

Carol Dweck diz que um dos principais enganos gerados pela sua pesquisa é confundir esforço com crescimento. Pais e educadores, diz ela, não fazem favor algum quando elogiam demais, no estilo, “ao menos você tentou.” O esforço é feito para conquistar um resultado e não para desistir da conquista. Ela menciona outro estudo recente que mostrou a importância do mindset de crescimento sobre a primeira infância. Crianças de até 3 anos que foram estimuladas por adultos a enfrentar e tolerar desafios exibiram desempenho acadêmico melhor já no segundo ano do ensino fundamental.

Os americanos ouvem Donald Trump pintar o país repetidamente como uma Gotham City depravada e sem lei à espera do Batman redentor. Não é difícil adivinhar qual o mindset que Carol Dweck haveria de diagnosticar no presidente.

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