Atingindo o estado de graça

Destaque na mostra carioca, Bruno Dumont fala de O Pecado de Hadewijch

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

10 de outubro de 2010 | 00h00

Bruno Dumont encontra-se com o repórter no saguão do hotel em Copacabana. Do local em que está sentado, através da cortina de vidro, avista-se a praia. O interesse do diretor de O Pecado de Hadewijch pelo Brasil vem de longe. Ainda jovem, formado em filosofia, ele quis fazer sua tese de mestrado. Escolheu como tema Lévi-Strauss. O nome evoca imediatamente Tristes Trópicos, e Brasil,

"O Brasil está no imaginário dos franceses como o Éden. Esperamos encontrar aqui o paraíso, ainda mais neste momento em que a economia brasileira vai bem e o presidente Lula é um mito internacional. O problema é que o paraíso nunca corresponde às nossas expectativas." Ele olha para a praia e diz - "Isto aqui é maravilhoso. O próprio milagre econômico de Lula pode ser real, mas a miséria também é. Sabia que devia esperar desigualdades sociais, mas nunca imaginei que o contraste fosse tão grande. Não tenho circulado muito, mas a toda hora sou confrontado com a miséria."

Dumont veio ao Brasil para uma visita relâmpago, como homenageado do Festival do Rio. Durante três dias deu entrevistas, encontrou-se com o público, ministrou uma master class e regressou à França. "Estou em pleno processo de montagem do meu novo filme." Hors Satan radicaliza indagações que já estão em Hadewijch. A rigor, não deveria nem ter vindo, mas não resistiu. "É sempre interessante descobrir como o público recebe os filmes. O brasileiro é diferente do europeu, mas em toda parte ouvi perguntas pertinentes. Uma espectadora me abraçou dizendo apenas obrigado. É uma coisa que me deixa feliz. Meu cinema trabalha com a emoção."

Com a emoção, sim, mas por outro lado é um cinema muito exigente e reflexivo. "Ainda bem que você não está usando a palavra complicado. Os críticos dizem que faço filmes complicados, mas são eles que criam a complicação. É a função deles. A filosofia recorre a estruturas rigorosas e sofisticadas para comunicar a complexidade do pensamento. O cinema, comparativamente, me permite ser profundo usando formas mais simples de expressão."

O cineasta recorda-se de outra conversa com o repórter em janeiro, em Paris. O tema já era Hadewijch, baseado em textos de uma mística flamenga do século 13. Dumont confessa que anda muito interessado pelo tema do misticismo. Acha que tem tudo a ver com o cinema. "O filme, como a grande experiência mística, torna o estado de graça possível", filosofa. "Quando lecionava filosofia, gostava de exibir filmes para meus alunos. Projetei várias vezes Nuit et Brouillard (Noite e Neblina), de Alain Resnais, e a maioria não conseguia seguir o filme. Era muito chato, achavam. Mas o filme não é chato. A linguagem de Resnais, que acho sublime, é que não está ao alcance dessa geração. Isso não transforma esses jovens em incultos nem insensíveis. São outras cabeças, com outras aptidões, apenas isso."

O repórter manifesta-se surpreso. Afinal, o diretor não é do tipo que vá ao cinema com frequência. Quando o comparam a Robert Bresson, ele desconversa. "Naturalmente tive meus mestres. (Roberto) Rossellini, (Luiz) Buñuel. Mas isso ficou lá atrás. De que adiantaria ao meu projeto ficar atrelado ao dos outros?" O último filme que viu foi de Jean Epstein, em março. Sobre seu método, esclarece. Ele não escreve roteiros, mas romances detalhados. Às vezes são necessárias três ou quatro páginas para descrever a luz no rosto do personagem. "A base da reflexão é literária", resume. Esse romance é mostrado aos técnicos, nunca aos atores. "Com eles, improviso." Julie Sokolovski, atriz de Hadewijch, não era profissional. Emmanuel Schotté e Sévérine Caneele também não eram e foram premiados em Cannes, por A Humanidade. É uma regra de Bresson, que ele gosta de seguir. "O ator, quanto mais puro, ou seja, menos técnico, mais autêntico."

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