Athos Bulcão renova carreira multifacetada

Athos Bulcão, um dos indicados para o Prêmio Multicultural Estadão deste ano, ficou conhecido por sua vasta produção em parceria com arquitetos como Oscar Niemeyer e João Filgueiras Lima, o Lelé. Mas os grandes - às vezes monumentais - painéis de azulejos com desenhos geométricos em cores primárias e secundárias, espalhados principalmente por edifícios públicos de Brasília, não lembram em nada as obras que ele mostrou em abril na Galeria Referência, na capital do País.A não ser pelo "luxo da cor", como o artista descreve o uso de sua paleta, os pequenos desenhos figurativos, feitos com caneta hidrográfica ou lápis de cor, parecem ter sido realizados por um autor diferente daquele responsável pela criação de fachadas e relevos matemáticos nos edifícios da cidade. Mas ele afirma que, apenas após a retrospectiva realizada em 1998, na Pinacoteca do Estado, em São Paulo, é que passou a ser visto como um artista plural, e não apenas um colaborador da arquitetura moderna de Niemeyer e Lelé.Athos Bulcão é, aos, 84 anos, o que era aos 40: um artista desvinculado de qualquer linha de trabalho específica. Ainda que seja normalmente associado à tradição construtivista por conta dos trabalhos com os arquitetos, ele ressalta que nunca trabalhou em grupos nem seguiu correntes, "por uma questão de temperamento". "Nunca fui de procurar as pessoas; por isso me considero um homem de sorte", diz o pintor, que largou a faculdade de medicina para estagiar com Cândido Portinari. "Também foi uma sorte meu encontro com Niemeyer, que, entre muitas coisas, me ensinou a correr riscos."Sincronia - Os dois conheceram-se em 1944, quando o então futuro autor do projeto de Brasília preparava a planta de um teatro em Belo Horizonte, que não chegou a ser construído. Em 1958, seduzido pela luz do planalto central, o ex-aspirante a ator mudou-se para Brasília e até hoje vive e trabalha no lugar. Bulcão continua produzindo em função da arquitetura, principalmente com Lelé. Diz que se sente um "artista de plantão" do arquiteto, outro indicado nesta edição do prêmio."Nossa relação de trabalho é sincrônica a ponto de resolvermos muitos trabalhos em um único telefonema", conta o autor dos relevos do Teatro Nacional, filmados por Gláuber Rocha em A Idade da Terra. Bulcão passa hoje boa parte do tempo em seu apartamento na Asa Sul da capital, onde guarda exemplares da sua produção mais recente: singelos retratos de carnaval feitos com caneta hidrográfica ou lápis de cor - obras que dificilmente podem ser associadas ao autor dos geometrismos que colorem as piscinas, os auditórios e as salas de convivência dos Hospitais do Aparelho Locomotor Sarah Kubitschek, projetados por Lelé.Bulcão define essas cenas de rua como um retorno a sua infância no Rio. Os desenhos são carnavais míticos, compostos por personagens que parecem ter fugido de sonhos de artistas cubistas e não de crianças. Essas criações, o também cenógrafo reuniu sob o título de O Olhar da Odalisca. "Trata-se de uma referência ao voyeurismo da obra de arte, ao momento em que a obra passa a olhar o espectador, como queria Paul Klee", explica.Dono de humor refinado, que esconde sob uma timidez discreta, o artista muitas vezes transfere essa personalidade para seus trabalhos. Fez isso, por exemplo, em uma série de pinturas que chamou de máscaras. Bulcão criou imagens que lembram rostos de perfil, todos com o mesmo formato fetal, e as variações ficam a cargo das cores, texturas e dos simbolismos que remetem às noções de vida, morte ou transcendência, como as estrelas de cinco pontas ou as referências ao sangue.Massinha - Mas também, e aí está a ironia, seus fetos são apresentados em caixas de vidro que lembram amostras de laboratório, uma abordagem que se tornou mais comum pelas artes plásticas depois da clonagem se tornar assunto. "Pensei nesses trabalhos, que para mim são fetos que nunca nascem, quando estive no Museu do Homem, em Paris", conta, afirmando que se inspirou em pedaços de utensílios assírios de escavações arqueológicas. "Outra idéia que essa visita rendeu foi a produção de uma mostra de peças que lembrassem falsificações, para falar da questão do estatuto artístico, mas até hoje não consegui realizar esse projeto".Outra retomada de Bulcão é a fotomontagem, uma prática do início de sua carreira - época em que a técnica era novidade por aqui. "Nesse momento da vida, um homem sente vontade de retomar outros tempos", brinca o também escultor de objetos que lembram bichos feitos de massinha. As pequenas esculturas, assim como as montagens fotográficas atuais (feitas de retratos de cristais da região), estão guardadas na casa do artista, como corre o risco de ocorrer com a maior parte dos desenho de O Olhar da Odalisca, que o artista não quer expor, por não achar legítimo colocar à venda trabalhos feitos com caneta hidrográfica e que, por isso, correm o risco de perder a cor um dia.

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