Atento observador

Graciliano Ramos transformou em ficção problemas nordestinos sem se esquecer da força da presença do homem

UBIRATAN BRASIL, O Estado de S.Paulo

27 de abril de 2013 | 02h09

O poeta João Cabral de Melo Neto não acreditava em inspiração - para ele, a obra-prima era fruto do extenuante trabalho com a palavra. Milton Hatoum acredita que Graciliano Ramos se enquadra muito bem nesse rigor cabralino. "Em sua obra, Graciliano ficcionalizou os problemas sem diminuir as deficiências observadas", comenta o colunista do Caderno 2. "Ele soube transformar experiências em linguagem - esse é o maior desafio da literatura, ou seja, transformar o artifício da palavra em verdades humanas."

Basta folhear Vidas Secas, último romance escrito por Graciliano (os demais foram contos e memórias) e sua única experiência com foco narrativo na terceira pessoa. Criado a partir de um conto, Baleia, o livro consumiu seis meses de árduo trabalho e, segundo o próprio autor, pretendia apresentar a dilacerante consciência da condição humana rarefeita na caatinga. "O que me interessa é o homem daquela região aspérrima", disse, em uma rara entrevista. "Julgo que é a primeira vez que esse sertanejo aparece em literatura (...) porque os escritores regionalistas comumente não conhecem o sertão, não são familiares do ambiente que descrevem."

A publicação de Vidas Secas, em 1938, assombrou a crítica e reforçou a importância de Graciliano Ramos, cuja presença na literatura brasileira já estava definitivamente marcada desde 1934, com o lançamento de São Bernardo. "Comedido, enxuto, implacável consigo mesmo, direto na forma, Graciliano era um ousado de porte e viria, pelo talento e pela contundência, revelar ao País, com força irrespondível e nunca demagógica, a consciência da miséria e atirar de frente, às chamadas elites, a notícia funda da existência de brasileiros de 'vidas secas'", testemunhou o também escritor João Antônio.

Além de exímio observador (seus relatórios quando prefeito de Palmeira dos Índios tornaram-se notórios pela ironia e precisão na descrição das mazelas locais), Graciliano sentiu na própria pele o efeito das injustiças sociais. Ele foi preso em Maceió na grande repressão que se seguiu ao movimento comunista de 1935. Detido, viajou para o Rio, num porão de navio, ao lado de outros suspeitos.

Ficou na prisão, numa primeira fase de detenção ainda amena, até ser transferido para a Ilha Grande, onde sobreviveu em condições sub-humanas, sem acusação formalizada ou prisão decretada. Seu calvário durou exatos dez meses e dez dias, até ser libertado, por determinação do mesmo governo que o havia detido ilegalmente. A experiência inspirou Memórias do Cárcere, publicado postumamente em 1953.

"É seu único livro não ficcional, embora o estilo esteja sempre presente", nota Hatoum. "É incrível como Graciliano consegue descrever bem qualquer personagens em apenas três ou quatro linhas. Ali, ele diz verdades sem autoindulgência. Aliás, sempre admirei sua autocrítica - dizia, por exemplo, não ter apreço por Caetés e Angústia. Graciliano tentava se diminuir até chegar ao mesmo status de seus personagens miseráveis."

Hatoum pretende fazer uma palestra breve, fiel ao homenageado cuja prosa era seca, descarnada, sem um único grama de gordura. A emoção, em Graciliano, vem justamente desse despojamento radical na forma, acompanhado da densidade de conteúdo. É o que se verá na Flip com Milton Hatoum.

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