EFE/Tim Somerset/Yoan Valat/Guillaum
EFE/Tim Somerset/Yoan Valat/Guillaum

Atentado deixa comunidade francesa de quadrinhos arrasada

Mortos no atentado à publicação 'Charlie Hebdo', Wolinski, Cabu, Charb e Tignous eram humanistas fervorosos e artistas libertários

Jotabê Medeiros, O Estado de S. Paulo

07 Janeiro 2015 | 14h20

A bande dessinée francesa está de luto. Quatro cartunistas de grande destaque estavam entre as vítimas dos extremistas que atacaram a sede da publicação Charlie Hebdo em Paris: Wolinski, Cabu, Charb e Tignous.

Todos estilistas rigorosos, consagrados, humanistas fervorosos e artistas libertários. A barbárie impactou grandemente no mundo dos quadrinhos que, de atônita, ficou tomada de uma profunda tristeza. O maior festival de quadrinhos da França, o Ângouleme Festival, informou que estava produzindo uma nota de pesar sobre o “horrível drama” que a comunidade vive (o festival será realizado no próximo dia 29).

Georges Wolinski, aos 80 anos, era um mito dos quadrinhos. Influenciou dos nossos Henfil e Millôr até o insuspeito Mort Walker, o criador do Recruta Zero, passando por outros europeus como Magnus (codinome do italiano Roberto Raviola). Esteve no Brasil em 2007, quando foi jurado de um festival de cinema no Amazonas. Ali, falou ao repórter e crítico do Estado, Luiz Zanin.

Outro veterano, Cabu, faria 77 anos no próximo dia 13. Nascido em 1938 em Châlons-sur-Marne, Jean Cabut, o Cabu, era muito querido entre seus colegas e tinha integrado a redações da mítica Pilote, onde foi precursor dos chamados quadrinhos-reportagens. Ali criaria um dos anti-heróis mais conhecidos da BD francesa: Mon Beauf.

Cabu desenhou para Ici Paris, Jazz Hot, Rock & Folk, Le Journal du dimanche, France-Soir, Paris-Presse, Le Figaro, Le Nouvel Observateur, Le Monde, Ciné Revue, Pariscope, Politique hebdo, La Grosse Bertha. E também, é óbvio, Le Canard enchaîné, onde se tornou um dos pilares a partir de 1982.

Stéphane Charbonnier, que usava o nome artístico de Charb, tinha 43 anos e, além de cartunista, era também diretor da revista Charlie Hebdo.

Colaborador de publicações como L’Echo des savanes, Télérama, Fluide glacial e L’Humanité, ele não aceitava pressões de nenhuma natureza e não aliviava no caráter satírico da revista. Em 2011, após um incêndio criminoso na sede da publicação, provavelmente provocado após a polêmica publicação das caricaturas de Maomé, ele disse ao Le Monde que não tinha nenhuma intenção de degolar alguém com uma caneta – em alusão aos métodos dos extremistas muçulmanos.

Charb foi publicado no Brasil pela Boitempo recentemente. A obra, Marx, manual de instruções, contém 60 charges do artista e texto de Daniel Bensaid (morto no dia 12 de janeiro de 2010), de quem o cartunista era amigo. "Acreditamos que essas possam ser as únicas charges de Charb publicadas no Brasil", informou a editora. Era autor dos personagens Maurice e Patapon, um cachorro e um gato anticapitalistas, em quadrinhos homônimos, cuja compilação foi publicada em quatro tomos, de 2005 a 2009, pela editora Hoëbeke. É autor de vários livros, incluindo Le Petit Livre rouge de Sarko (2009), Sarko, le kit de survie (2010) e La salle des profs (2012), pela editora 12 bis.

Já Bernard Velhac, o Tignous, tinha 58 anos e desenhara para diversas publicações importantes, como Fluide Glacial, l’Express, VSD, Télérama e L’humanité!. Ele estreou nos quadrinhos com Pandas dans la brume, a partir de um comunicado da Associação de Proteção dos Animais que estimava não haver mais do que 1,6 mil ursos pandas no mundo.

O Festival Internacional de Quadrinhos de Angoulême divulgou nota oficial sobre as mortes dos quatro cartunistas da Charlie Hebdo. Um trecho diz: "o desenho, ao longo do tempo, tem sido para o homem o meio de se exprimir, de dizer, partilhar, revelar, protestar, dialogar, questionar, significar, reunir. Em uma palavra, portar as ideias. Os quadrinhos vieram enriquecer esse modo de expressão original - que precedeu a escritura. Muitas vezes pelo humor, muitas vezes pela solenidade. E parece que a troca de ideias, para todos os homens de progresso e boa vontade, continua sendo o melhor meio de viver junto e de avançar". (Atualizado às 17h02).

Brasil. No País, entidades também se manifestaram em relação aos atentados.

Em nome do Conselho do Salão Internacional de Humor de Piracicaba, o professor da Universidade Mackenzie Adolpho Queiroz reforçou, em uma nota de repúdio, que "o humor gráfico tem como traço principal, historicamente no mundo todo, a sua não subserviência contra quaisquer tipos de ditaduras, sejam políticas, militares ou religiosas".

A Associação dos Cartunistas do Brasil também emitiu um comunicado em que afirma que "mais uma vez, estamos presenciando a barbárie na história humana com o atentado de fundamentalistas islâmicos à revista de sátiras Charlie Hebdo".

"Por mais que um veículo de mídia – neste caso, de desenhistas – esteja desrespeitando esses preceitos religiosos, não se justifica essa violência", afirma a nota, "que é prejudicial aos próprios povos do Islã, já que o termo 'islã' está ligado à palavra árabe salam, que significa paz – o que indica o caráter pacífico e tolerante da fé islâmica". / COLABOROU GUILHERME SOBOTA

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