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Atenção passageiro, esta é a última chamada

Por que não instituir aeroportos silenciosos, no máximo com uma música de Tom Jobim suave?

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

25 Outubro 2017 | 03h00

Vivo parte da minha vida em aeroportos. Tenho vontade de fazer amigo secreto com comissárias e pilotos. Já pensei em deixar escova de dentes na sala vip de Congonhas. Não é algo que você deva invejar, querida leitora e estimado leitor. Aeroporto é necessário, porém é uma obrigação como a colonoscopia. 

Já escrevi e falei sobre as idiossincrasias de aeroportos. Vejo pessoas entusiasmadas com a viagem, rindo alto e com ansiedade pelo destino. Misturo cobiça com muxoxo. Trabalhar é bom e eu amo o que faço, porém serei uma pessoa mais feliz quando o teletransporte de Star Trek fizer desaparecer a necessidade de aviões. Um botão e pimba! Você surge do outro lado do planeta. Viverei para vê-lo? Alguém no futuro terá piedade do século no qual as pessoas se apertavam em aviões por horas em rituais patéticos de malas e raios X? Espero que sim. 

Há coisas que ainda não podemos fazer. Teletransporte é uma delas. Outra é inculcar estratégia e visão em todos os passageiros. Desço no portão 1 de Congonhas. Significa que saio do finger e, à direita, existe uma parede, sólida e ampla, impenetrável. À esquerda, muitas placas indicando o desembarque e pezinhos no chão traçando uma trilha à maneira de mapa do tesouro. Não houvesse indicadores gráficos, haveria uma barreira intransponível: uma parede. A esquerda não é um conselho, é a única possibilidade física. Bem, muitas pessoas saem comigo da aeronave e ficam em dúvida. Qual poderia ser a dúvida, pelo amor de Newton? Você pode atravessar paredes como um mutante x-man? Não? Você é apenas um mísero mortal e o concreto pode detê-lo? Então só pode ser para a esquerda. Não é tão fácil, minha querida leitora e meu estimado leitor. Muitas pessoas, muitas mesmo, ficam bastante tempo olhando entre a opção parede e opção desembarque. O que se passa na cabeça dessas pessoas? Não sei. Talvez nunca possa ser mudado. São cérebros tão intransponíveis como as paredes que contemplam. Deixemos de lado os imutáveis. 

Queria lançar uma campanha sobre aquilo que pode ser mudado. Estive em muitos aeroportos silenciosos do planeta. São espaços nos quais todas as informações estão nos painéis. Não existem avisos sonoros a não ser excepcionalíssimos. Acho profundamente civilizado.

Nossos aeroportos são muito poluídos por decibéis. Há três ou quatro (ou mais) avisos de “última chamada”. Por definição, se é uma última chamada, deve ser a última mesmo e, por lógica, só uma, a última. Os avisos são abundantes e, quase sempre, repetidos em um determinado tipo de inglês que nada serve a quem tem essa língua como materna. 

Há placas indicando a posição de cada um nas filas. Depois, há avisos antes do embarque. Finalmente, uma funcionária chega às filas e repete, em voz alta, o aviso das placas e do microfone. Depois, o aviso sonoro soa novamente. Qual o problema? Em comunicação, excesso de avisos equivale a nenhum aviso. Multiplicar informações diminui sua eficácia. Reagimos com surdez seletiva. Isso é uma regra intransponível.

Alguém pode, com razão, pensar naquele simpático passageiro que está lá no gate 1, ainda em dúvida sobre atravessar a parede. Para ele é que os avisos são feitos. Podem dizer com toda razão: “Leandro, você viaja todos os dias, mais de uma vez, há muitos anos. Você não precisa e não quer avisos barulhentos, mas eles são importantes a pessoas que possuem menos familiaridade com espaços aeroportuários”. Creio, por observação, que os avisos estão atrapalhando exatamente aquele simpático aspirante a x-man da parede. Ele é que fica perdido como uma pessoa diante de um grosso manual de instruções. Os avisos são ineficazes, barulhentos, excessivos e atrapalham muito quem sabe e não orientam quem não sabe. Por que não instituir aeroportos silenciosos, no máximo com um Concerto de Brandemburgo de Bach ou uma música de Tom Jobim suave? Que paraíso! Que sonho dourado para ir ao céu após ter tido uma prévia da bem-aventurança musical tranquila...

O silêncio foca e permite que as pessoas se concentrem. O barulho perturba e tira a concentração. Simpáticos funcionários poderiam estar em pontos nevrálgicos e, em voz suave e baixa, ajudariam as pessoas que necessitassem de mais orientações. Outros aeroportos de maior fluxo fazem isso e parece funcionar. Ou melhor, sendo sincero, nunca funciona de jeito nenhum, porque o ser que está lá, ao lado da parede, continua lá e lá ficará, não importa quantos avisos, placas e desenhos possamos fazer. O silêncio, ao menos, favoreceria os que sabem que não podem atravessar paredes. Com o silêncio, em última instância, eu teria o benefício de não querer bater a minha cabeça na parede, desesperado com tanta gente perdida e tanta gente berrando em português e em outra língua alienígena que esta é a “última chamada” para os humanos que não podem atravessar paredes. Boa semana e bons voos para todos nós.

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