Atenção para a emergente classe c

Governo federal lança hoje projeto para criar 600 novas salas em 4 anos

Rafael Moraes Moura, BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

23 de junho de 2010 | 00h00

Manoel Rangel. Para o diretor presidente da Ancine, "muitos perderam o hábito de ir ao cinema nos últimos 20, 30 anos"        

 

A emergente classe C é a bola da vez. Esse universo de brasileiros com renda domiciliar entre R$ 1.115 e R$ 4.808 ganha e consome mais, movimenta a economia, compra máquinas de lavar, fogões, geladeiras, sonha com a casa própria e, nos intervalos de tudo isso, assiste a filmes. De olho nesse filão, o governo federal lança hoje o programa Cinema Perto de Você, que pretende abrir salas de exibição para preencher "vácuos" do circuito brasileiro. A iniciativa visa a incentivar o setor privado a erguer cinemas em periferias de grandes centros urbanos e em municípios sem essa opção cultural, por meio de linhas de financiamento no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e de isenção tributária na manutenção e construção dos empreendimentos. É o "Cine Classe C", que surge com uma meta ambiciosa: 600 novas salas em um intervalo de quatro anos.

Caso vingue, o programa fará o parque exibidor brasileiro saltar dos atuais 2.200 para 2.800 cinemas, número ainda inferior aos patamares da década de 1970, quando chegou-se a 3.276 em funcionamento no País. "O Estado não vai abrir cinemas nem distribuir filmes, vai fazer políticas para o surgimento desses locais, que serão financiados se o projeto estiver dentro do escopo do programa, além de serem geridos com completa autonomia", diz o diretor presidente da Agência Nacional do Cinema (Ancine), Manoel Rangel. "O mercado já recebeu positivamente (a ideia). Estão criadas as condições para que as metas sejam estabelecidas. São ambiciosas, mas realizáveis."

As cifras divulgadas pela Ancine preveem R$ 500 milhões para contratos de empréstimo e investimento, via Fundo Setorial do Audiovisual e Programa de Apoio à Cadeia Produtiva do Audiovisual (Procult), do BNDES. Também serão suspensos os tributos federais sobre máquinas, aparelhos, equipamentos e materiais de construção; a venda de ingressos e a publicidade serão isentas de PIS e Cofins por até cinco anos. A renúncia fiscal chegará a R$ 168 milhões.

"Muitas pessoas perderam o hábito de frequentar cinema nos últimos 20, 30 anos, ou até mesmo nunca foram a um", comenta Rangel. "Essa nova classe média tem sido o motor do crescimento da economia e criou uma oportunidade excepcional para o mercado exibidor brasileiro, que é pequeno, quando comparado a México e Argentina."

Segundo dados da Screen Digest e da Filme B, o Brasil é apenas o 60.º colocado na relação de habitantes por sala: são 86.316 pessoas para cada cinema no País, ante 7.872 da média nos Estados Unidos. O parque exibidor nacional, destaca Rangel, volta-se para grandes centros urbanos, deixando de lado as médias cidades. As distorções se repetem dentro das próprias metrópoles, com regiões mais ricas concentrando os empreendimentos.

O foco principal do Cinema Perto de Você são os 89 municípios com mais de 100 mil habitantes e sem nenhuma sala de exibição, como Ananindeua (PA) e Belford Roxo (RJ). Nas grandes cidades, o programa mira as zonas periféricas mais povoadas. Com a iniciativa do governo, o preço médio de uma sala de cinema deve cair de R$ 900 mil para R$ 700 mil, estima Rangel.

Investimento. Na opinião do diretor superintendente do Grupo Severiano Ribeiro, Luiz Gonzaga de Luca, os riscos dos investimentos ficam agora reduzidos. "Se vou gastar a mesma coisa para construir um cinema em Queimados (na baixada fluminense do Rio) ou na Tijuca (bairro da zona norte), vou construir na Tijuca, porque ali a densidade populacional é maior, o transporte e a segurança são melhores, fatores que me permitem ser mais bem-sucedido", comenta. "O novo programa cria condições de o empresário pensar: "Olha, eu vou pra Queimados, porque vou ter um financiamento melhor do BNDES e uma série de condições que minimizam os riscos.""

Para Luca, o novo programa vai contribuir para o surgimento de empresários regionais, em função das dificuldades de os grandes grupos irem a municípios com 100 mil habitantes. "Essas cidades precisam de um empresário local que faça um tête-à-tête com a população. É você colocar cartaz na rua, falar na emissora de rádio local, é um outro tipo de negócio, de quem segura o ingresso." O retorno do investimento, estima ele, só vem depois de seis ou sete anos.

Produção nacional. A cineasta Laís Bodanzky, que organiza um projeto de cinema itinerante pelo País, acredita que há, sim, um mercado para ser explorado. "Uma vez que você oferece (cinema), as pessoas vão buscar", afirma. Como o público da chamada classe C aprecia o cinema brasileiro, pode-se abrir aí uma oportunidade para a produção nacional. "O Menino da Porteira não teve um desempenho que chamou atenção nos shoppings, mas é sucesso no cinema itinerante. O público das periferias tem um gosto diferenciado, gosta de se ver nas telas e, como consequência, pode haver uma ventilação do cinema brasileiro."

O diretor-presidente da Ancine concorda. "Existe uma demanda natural desse público por um cinema falado em português. Com mais salas, mais filmes brasileiros serão vistos", acredita Rangel.

Para ele, o setor deve estar focado em um crescimento contínuo, ainda que os números de cinema da década de 1970 pareçam distantes de se repetirem. Explica Rangel: "A maneira como a sociedade está organizada hoje é muito diferente da de 1975. Em 1975, ou você assistia a filmes na televisão ou na sala de cinema. Hoje, tem sala de cinema, TV, TV por assinatura, DVD, Blue Ray, internet, as formas estão multiplicadas." E os desafios, idem.

 

 

POR DENTRO DO "CINEMA PERTO DE VOCÊ"

 

O que o governo pretende

 

link Criar 600 novas salas de cinema até 2014

link Baixar a média nacional de 86,3 mil habitantes por sala para 60 mil habitantes por sala (o que significaria uma queda porcentual de 30%)

link Não deixar sem cinema nenhum município com mais de 100 mil habitantes

link Aumentar em 30% a venda de ingressos

 

Como funcionaria

 

link Serão disponibilizados R$ 500 milhões para projetos: R$ 300 mi do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA) e R$ 200 mi do Programa de Apoio à Cadeia Produtiva do Audiovisual (Procult)

link Suspensão de tributos sobre máquinas, aparelhos, equipamentos e materiais de construção para novos complexos

link Venda de ingressos e veiculação de publicidade isentas de PIS e Cofins por até 5 anos

 

 

É POUCO ESPAÇO PARA MUITA GENTE

O número de salas de cinema no País cresceu em meados da década de 1970, chegando em 1975 ao seu pico: 3.276. Mas, com a urbanização acelerada, a concentração de mercado e a falta de investimento, esse número começou a cair, numa trajetória descendente que em 1995 registrou só 1.033 salas em atividade. A expansão do setor foi retomada nos anos 2000 com o avanço dos shoppings, mas o atual número (2.200) ainda é inferior ao patamar de 35 anos atrás.

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