Ateliê de artista brasileiro pega fogo em Kassel

O artista brasileiro José de Quadros, há mais de 15 anos radicado na Alemanha, teve seu ateliê incendiado e, segundo ele, tratou-se de um incêndio criminoso. Diversas obras foram destruídas. O pintor paulista vive na cidade de Kassel, onde ocorre uma das mais importantes mostras de arte contemporânea do mundo, a Documenta. Dentre os trabalhos perdidos, estavam os que José de Quadros vinha preparando para exibir em São Paulo, numa exposição agendada para o próximo ano na Estação Pinacoteca e para um projeto coordenado pelo curador Agnaldo Farias para o Instituto Tomie Ohtake. A seguir, a íntegra da carta que o artista escreveu relatando o ocorrido. Kassel - incêndio criminoso no ateliê José De QuadrosA todos amigos, colegas e interessados, Nos últimos três anos tenho trabalhado no meu projeto "Das Kasseler ateliê" ("O ateliê de Kassel"), que, diante das atuais circunstâncias, devo conclui-lo num contexto completamente diferente do que fora inicialmente planejado. Desde segunda feira, dia 22.05.06 o (meu) ateliê em Kassel simplesmente não existe mais. Foi destruído.Às 6.30 horas da manhã daquele dia, fui acordado com o telefone; era o pessoal do exército, lá do Magazinhof (uma dependência onde fica o almoxarifado da Bundeswehr/exército nacional) avisando-me que o ateliê estava em chamas, e em seguida já me adiantaram que se tratava de um incêndio criminoso. Para minha própria surpresa, com a maior calma do mundo, dirigi-me até o local, lá chegando vejo meu "tão querido" prédio do ateliê (faz mais de 10 anos que tenho este espaço), todo cercado de caminhões de bombeiros que lutavam contras as chamas, que já consumiam as salas da frente do segundo andar; o local onde eu mais trabalhava, e, por ironia, onde estava depositado uma quantidade imensa de trabalhos, principalmente de grandes formatos e todos os novos trabalhos. Infelizmente produzo muito e numa velocidade que eu mesmo me espanto.Composto e calmo, ainda consegui atender todas as questões dos bombeiros e, em seguida, do comissário de polícia. Por volta de meio dia, quando as chamas já tinham sido apagadas, com uma comissão de policiais, entramos no prédio. Os bombeiros nos permitiram só uma rápida olhada, mais do que isso também seria impossível, pois o cheiro e os gases eram insuportáveis, ainda com o perigo de desabamento do chão das salas frontais. Mais do que o fogo, as cenas de violência e destruição que vi, eram muito mais chocantes. As salas (o ateliê é imenso, composto de inúmeras salas, motivo pelo qual eu podia produzir tanto!) que não foram tomadas pelo fogo, estavam totalmente destruídas por vandalismo. Aparelhos de som (novos!) todos pisoteados, aparelhos de projeção destruídos a chutes e pontapés. Enfim, o mesmo espetáculo de terror em cada sala. Nas salas maiores da frente, as quais foram tomadas pelo incêndio, constatou-se que, antes que ateassem fogo no primeiro andar, roubaram (a polícia deduz que trata-se de um grupo, provavelmente jovens) meu equipamento de som de alta qualidade (marcas Denon, Yamaha, Pioneer, Canton etc) e também não achamos vestígios das telas pequenas que ali estavam, não sei exatamente quantas, mais algo entre 40 a 70 trabalhos que estavam em processo, a maioria de 40 x 50 ou medidas similares. Isso foi roubado, pois mesmo das telas queimadas, encontramos vestígios que era fácil reconhecer do que se tratava. A policia deduz que eles passaram horas dentro das dependências, e antes de saírem atearam fogo no primeiro andar. (Embora o jornal local HNA na edição de hoje informa como se fossem duas ações separadas e independentes...)Esses trabalhos pequenos estavam sendo pintados para uma exposição que terei no começo de outubro no sul da Alemanha, em Markdorf, às margens do Lago de Constança. Outros estavam destinados a uma exposição que também terei igualmente em outubro, no Instituto von Matius-Staden, em São Paulo. Felizmente, o corpo de bombeiros conseguiu salvar uma grande quantidade de obras de grandes formatos, parte delas que estavam destinadas a uma exposição na Estação Pinacoteca no próximo ano, bem como algumas outras que fazem parte dum projeto que tenho com Agnaldo Farias, que deverá acontecer no Instituto Tomie Ohtake. O "tríptico calango" (330 x 150 cm) que participará da mostra "the sound of the image" da Copa da Cultura, um evento da Haus Kulturen der Welt/Casa das Culturas do Mundo, em Berlin, com curadoria do Felipe Taborda, também foi salvo das flamas como por um "milagre". Todas estas telas estão danificadas, chamuscadas de fogo, impregnadas de fuligem, e, conseqüentemente danificadas pela água. Trabalhos que estavam embalados, o plástico bolha derreteu. O que o fogo não queimou, a água dos Bombeiros danificou.... Perdi uma quantidade enorme de material de trabalho, avaliado pelo menos em 10.000 Euros, e, o que se perdeu em trabalhos, trata-se duma soma inestimável. Muita coisa perdeu-se para sempre. Tudo por causa de um ataque covarde de um bando de desocupados. Anos de trabalho em vão. Muitos desses trabalhos nem sequer foram expostos. Quero salientar que tudo isto não estava assegurado, não recebo nenhuma indenização. Um crime contra a pessoa do artista, seu trabalho e propriedade.Durante todo o dia 22.05.06, na dita segunda-feira, até as 16h00 horas estive envolvido com policiais, entre eles, a comissão de policia criminal, polícia de investigação etc e tal. Os primeiros policiais que me procuram, na hora que lá cheguei, foram muito gentis, e até procuram expressar palavras de solidariedade.Durante o dia todo estiveram os administradores e responsáveis dos bens do exército, que imediatamente me deram um espaço "provisório" pra alojar o que sobrou ou foi salvo do incêndio. Esse espaço é propriamente dito dentro dos aposentos/almoxarifado que o próprio exército usa. Relativamente seguro, embora que o ateliê também fosse relativamente seguro e que todas portas estivessem trancadas... elas foram todas arrombadas com violência tal que foram arrancados pedaços dos batentes. Depois das 16h00 horas o prédio foi liberado. Um amigo colocou uma "Van" à minha disposição para retirar as coisas do prédio, e, com um grupo de voluntários, amigos, artistas e estudantes (que nem conheço) da escola de artes, transportamos tudo para o "novo" espaço que a bundeswehr/exército colocou à minha disposição. Por volta de 10h00 horas da noite, o essencial tinha sido retirado do prédio incendiado.Muita coisa foi jogada no lixo, muitas coisas que eu tinha intenção em "apropriar-me" ou "transformar" em arte, ou usar em futuros trabalhos, foi jogada no lixo. Meus planos de trabalho para os dois próximos anos, estavam em cima de uma mesa e desaparecem nas chamas.... Tenho recebido constantemente telefonemas, mensagens e visitas de solidariedade, até de gente que nem conheço. Isso é o que conta e que dá forças pra sobreviver a essa brutalidade gratuita. À respeito de quem tenha gerado toda essa tragédia, não faço a menor idéia, mas descarto a possibilidade de que um grupo de extrema direita/neonazistas/skinheads esteja envolvido nessa ação. Também não consigo imaginar que a ação tenha sido dirigida exclusivamente contra minha pessoa. Procuro manter-me firme e calmo, mas tenho que admitir que no fundo estou traumatizado com tudo isso e sem condições de escrever algo melhor ou sensato.Esse é o triste fim do "ateliê de Kassel" que durante 10 anos muita alegria me deu. Com ele, extingue-se um lugar onde se fez, pensou e produziu-se arte, talvez uma pequena contribuição minha à arte. Trabalhos que foram produzidos com intenção de trazer luz, bem-estar e esclarecimento ao espectador, ao próximo.Agradeço profundamente a todos que me apoiaram durante essa jornada, e principalmente nesse momento tão difícil pra mim. Desculpem-me se escrevi tanto e com tantos detalhes, mas já não tenho mais forças pra responder todas essas questões à cada 5 minutos.Com carinho do José De Quadros

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.