Até tu, Maria João?

Já conversei com amigos, entre um bar e outro dos sábados à noite, sobre este fato bastante curioso: o intelectual brasileiro, quando interrogado sobre suas preferências literárias, vai logo citando Machado, Kafka, Proust, sem esquecer, naturalmente, Joyce. Nas artes plásticas, Klee, Segall, Beuys. No cinema, Godard, Glauber... E na música? Caetano e Chico Buarque.

Gilberto Mendes e Erudita, O Estado de S.Paulo

21 de agosto de 2010 | 00h00

Verdade que são respostas de escritores, pintores, cineastas. Para eles, essa música de estranhos e suspeitíssimos compositores chamados eruditos, e ainda por cima vivos, andando por aí, simplesmente não existe. Especialmente a brasileira.

Surpreendeu-me agora a excelente pianista portuguesa Maria João Pires, na revista Mbaraka, declarar seu extremado amor a Beethoven, Mahler, Bach, Schubert e... Caetano e Maria Bethânia.

Como diria Júlio César, até tu, Maria João? Até na área da própria música a história vai se repetir? De fato, vejam agora mesmo o que inaugurou solenemente a tão badalada Flip, em Paraty. Um show de Edu Lobo. Compositor popular que muito admiro e respeito, porém, todavia, contudo... Ele mesmo declarou que leu pouca coisa, não é um conhecedor da obra de Gilberto Freyre, o homenageado do ano. Um evento mundialmente conhecido como esse, aberto por um ex-presidente do País, o glamouroso sociólogo Fernando Henrique Cardoso, merecia uma cerimônia mais condizente com suas características de refinadíssimo encontro da alta cultura literária.

Mas tudo bem, o mundo não vai acabar por causa disso. É esquisito, no entanto, que aconteça. Ainda na Flip do ano passado, lembro-me da presença do americano Alex Ross, excelente crítico musical da revista cultural americana The New Yorker. Ele veio falar sobre a "serious classical music" de nosso tempo, a uma plateia que provavelmente nunca ouviu falar em tal coisa.

Palavras ao vento! Pode ter sido muito engraçado, mas talvez chocante para o conferencista, que lançava seu excelente livro O Resto É Ruído. Não deve ter contatado compositores brasileiros, porque jamais são convidados para reuniões dessa natureza. Ilustres desconhecidos!

Mas voltemos à Maria João Pires. Mil perdões pela liberdade que tomei em citar seu celebrado nome. Mas não foi em vão. Na verdade, você é uma das minhas pianistas mais queridas. E até que eu me sinto meio implicante, irreverente com certos intérpretes consagrados.

Por exemplo, a despeito de Martha Argerich ser uma fenomenal pianista (e que bela mulher, aquela beleza argentina, meio índia), me surpreende como toca superficialmente os Prelúdios de Chopin, especialmente o n.º 6, no qual não dá aquele expressivo acento que Egon Petri imprime, no compasso 22, ao acorde Ré-Fá-Lá do terceiro tempo. Polini dá esse acento, mas ele estudou com Petri. E toca tão bem Chopin como Boulez.

O cultuado Glenn Gold destrói toda a majestosa beleza rítmica que tem 7 notas no tempo de 4, na Introduzione Alla Toccata da Partita n.º 5 de Bach, fazendo um rallentando ridículo em cada uma das empolgantes quiálteras. Mas Gould é perfeito nas Sonatas de Hindemith.

Natural que Maria João Pires ainda não tenha tido tempo de conhecer, por exemplo, as Cartas Celestes do grande Almeida Prado. Como também não deve conhecer, da sua própria terra, Jorge Peixinho ou Emanuel Nunes, este um protegido do exigentíssimo Boulez. Trata-se de uma música para poucos - só para os raros, diria o Lobo da Estepe. Fora dos circuitos da música de concerto tradicional. Terrível e misteriosa, como toda beleza original, inaudita.

Maria João me empolga com sua interpretação do Carnaval em Viena, de Schumann, um compositor que tece fios desiguais, tramando uma textura de contratempos entre as vozes, à la Bach. Ela destrincha com impressionante nitidez todo esse apaixonante emaranhado harmônico-contrapontual. Me arrepia o arrebatamento com que toca o Intermezzo Mit Groesster energie desse carnaval vienense, cujo tema inicial - afinidades eletivas - é o mesmo do famoso tango que Rita Hayworth canta no filme Gilda, a inesquecível mulher.

GILBERTO MENDES É COMPOSITOR, CRIADOR DO FESTIVAL MÚSICA E AUTOR, ENTRE OUTROS DE UMA ODISSEIA MUSICAL (EDUSP)

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