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Ataques em cadeia em Paris têm relação com 'Céus'

Na peça de Wadji Mouawad, a tragédia se dá no coração de três histórias de amor interrompidas

Felipe de Carolis, ESPECIAL PARA O ESTADO

26 de novembro de 2015 | 19h55

RIO DE JANEIRO - Aquele assunto parecia tão distante. Eu não tinha patrocínio, nem crédito como produtor. O público brasileiro jamais seria arrebatado por uma história datada e lembrada apenas pelos telejornais, me diziam. A guerra do Líbano acabara em 1990, mas o anúncio de uma nova guerra (que não terminou até hoje) se dava naquele instante.

Na sexta-feira, 13 de novembro, escrevi a Sergio Mota, professor de Literatura da PUC-Rio: “Aconteceu exatamente a mesma coisa comigo em Incêndios quando mataram Wissan al-Hassan, chefe da Inteligência civil libanesa em outubro de 2012, um ano antes de a peça estrear”.

Eu traçava um paralelo entre duas coincidências muito significativas a respeito dos textos que escolhi produzir e trazer à cena no Brasil: Incêndios e Céus. Desta vez, eu me referia aos ataques na França naquele dia. Os atentados terroristas e como se forma, etimológica e psicologicamente, um terrorista são a minha pesquisa atual (dos últimos dois anos) por conta de Céus, de Wajdi Mouawad, próxima peça que vou montar, do mesmo autor de Incêndios, e que hoje pré-produzo com muita tenacidade.

É mais uma triste, embora importantíssima coincidência. Desde o início dos conflitos entre o regime de Bashar al-Assad, ditador da Síria, e seus opositores, muitos especialistas alertaram que um dos planos do governo sírio para tentar se manter no poder era desestabilizar o Líbano. A morte de Wissan al-Hassan deu indicações de que esse plano poderia estar em curso.

Lembro de Barbara Heliodora expondo suas previsões e acreditando que o público não seria capturado por Incêndios, porque a peça tratava de duas realidades muito distantes do brasileiro: a da guerra e a do Líbano. Mas a peça tornou-se um fenômeno, arrebatando todos os corações palpitantes. Em Incêndios, falamos de relações e condições humanas que levam os personagens a atitudes atrozes. O espectador quer ver o humano e compreendê-lo.

Hoje, ainda ouço as mesmas contracorrentes teimosas. Minha maior dificuldade nas reuniões de patrocínio e produção são evidenciar e expandir o tênue horizonte atual em que o ser humano vive. Continuo tendo dificuldades em provar quão urgente e atual é contar a história de Céus. Pessoas muito jovens se interligam por uma causa terrorista, cujas sementes foram plantadas – no caso dos recentes atentados – na França, exatamente onde se dá a história de Céus.

Um dos senhores do consulado francês que me auxilia na pesquisa para a peça deixou de responder meus e-mails desde a sexta, 13. Talvez alguém de sua família tenha sido atingido, ou ele esteja apenas recluso. Os ataques em cadeia, relacionados a posicionamentos mapeados, estão absolutamente ligados à exata estrutura de Céus.

Não darei spoilers, mas, na peça, árabes e franceses se uniram, revelando uma energia revigorada pelo sentimento de vingança: vingar a geração de pais, avós e até bisavós. E não são causas exclusivamente  religiosas.

Eles se uniram por coragem, embora o medo da juventude pareça colocá-los em xeque. A tragédia se dá no coração de três histórias de amor interrompidas, em Céus. Três famílias.

Como um artista de 25 anos se cala diante disto? Como uma geração globalizada, atenta a tudo, que nada “vê de longe”, pode permanecer apenas lamentando?

Objetivamente, travo uma batalha de convencimento com agentes culturais ainda retrógrados de que meu assunto está relacionado aos sentimentos mais profundos dos seres humanos e toco nos assuntos mais atuais e próximos ao mundo inteiro.

Assunto este que consegue ignorar oceanos e unir continentes. Faço essas tentativas com veemência, há anos, mas infelizmente parece que a maioria dos tais incentivadores é devota de São Tomé: só acredita vendo.

* É ATOR E PRODUTOR

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