Astor ressuscita os bons pratos que saíram de moda

O novo Astor Cozinha Boêmia é, antes de mais nada, um bar animado, gostoso, badalado, com um chope excelente, petiscos saborosos e bem feitos e alguns pratos mais do que atraentes, que já foram moda, mas acabaram esquecidos, sabe-se lá por que, pela maioria dos restaurantes, como estrogonofe, camarão à grega, espaguete à parisiense e outros.Os donos são mesmo do ramo, colecionam sucessos numa série de botecos como Pirajá e Original e nas pizzarias Bráz e acertaram de novo no Astor, que fica numa gostosa pracinha da Vila Madalena. São dois salões, um no térreo e outro no porão, que não é claustrofóbico porque tem janelas dando para a rua de trás.No térreo, chama atenção um belíssmo e grande balcão de madeira e mármore que um dos donos achou num antiquário nos Estados Unidos, onde fica a imponente chopeira de metal, sempre transbordando de gelo. Uma visão inspiradora. São perto de 40 mesas de madeira, cadeiras também de madeira, típicas dos bares de outras eras, colunas com ladrilhos quadriculados em branco e preto e chão de ladrilho. Paredes com madeira escura, com velhos espelhos, fotografias e pôsteres, alguns dos quais lembrando aqueles usados para divulgar espetáculos e shows nos muros da cidade.Quem desce para o salão de baixo passa pela câmara frigorífica, onde ficam os barris de chope, que dali segue para as chopeiras por uma canalização especial para evitar os trancos das deslocações.O salão de baixo não tem o mesmo charme, só é ocupado quando o outro está lotado. Nele, mais 23 mesas, outro balcão com chopeira e uma adega climatizada para vinhos à vista (outro ponto positivo). Um pouco de barulho demais nos dois salões. As filas são comuns e o Astor já é um dos bares mais badalados de São Paulo, freqüentado por gente bonita, sem exageros na juventude.Pratos diversos - O chope é uma das maiores atrações da casa. Os cuidados no transporte, armazenamento e nas chopeiras se refletem num chope delicioso, servido em copos meio cônicos, muito bem gelados e com uma espessa e consistente camada de espuma. Colarinho largo, como se deve, que vai marcando o copo à medida em que vai baixando o nível. Só isso já pagaria a visita. Ainda no setor etílico, uma carta de vinhos longa, variada, mas não tão inspiradora. Vinhos de uma só importadora, um fator limitante. Muitos vinhos, mas nem sempre os melhores dos respectivos produtores. A seu favor, o bom número de vinhos servidos em taças. Mas só a preocupação em montar uma boa carta já é um fato positivo.O cardápio é dos mais ecléticos, vai dos frios e queijos aos pratos mais elaborados, com gosto de saudade e também clássicos que ainda continuam na moda. Nele, uma combinação de frios e queijos (cada um escolhe seis, R$ 19,50); seis porções de pastéis (entre R$ 8,40 os de carne, queijo e carne seca e R$ 9,60 o de camarão com chuchu), nove porções, bolinhos, empadinhas e coxinhas (entre R$ 3 as empadinhas de camarão, à moda e de galinha e R$ 10,50 os camarões no espeto e a porção de 12 unidades do bolinho de bacalhau); 12 sanduíches (entre R$ 8 o croque de mortadela, com queijo gratinado e ovo e R$ 15 o hambúrguer Astor); duas tortas (R$ 12); três omeletes e ovos mexidos em várias combinações (entre R$ 3,50 os movos mexidos e R$ 10 o omelete suflê e outras variações); seis saladas (entre R$ 6 a salada da casa e R$ 18 o mais do que tradicional coquetel de camarão); cinco espaguetes (entre R$ 12,50 o à parisiense e R$ 19,50 o com camarão e alho); seis pratos classificados como "os mais boêmios" (entre R$ 8 a sopa de cebola gratinada e R$ 23 o bacalhau à moda); dois filés (R$ 26 o Astor e R$ 25 o filé chateaubriand); oito filés clássicos (entre R$ 16 o filé com fritas e R$ 24 o cordon bleu), dois grelhados Astor (frango e peixe R$ 12) e as sobremesas. Ufa!Os petiscos para acompanhar os chopes estavam quase todos ótimos, como o delicioso bolinho de bacalhau, com gosto do peixe, sequinho, um dos melhores da cidade. Também deliciosos os camarões empanados fritos em espetinhos, com um pouco de queijo entre eles. Uma versão reduzida do célebre camarão à grega. Também saborosos, caprichados e sequinhos, os pastéis de queijo (R$ 8,40). Mais corriqueiras as coxinhas, feitas com carne de frango picada (R$ 6 a porção). Fracas as rãs à dorê, com o empanado espesso demais encobrindo o paladar delicado dessa carne (R$ 9,50).Os pratos foram interpretados pela competente Ana Soares, do bufê Mesa III Gastronomia, que fornece massas e dá assessorias a outras casas. Eles são executados pelo jovem chefe Alexandre Sabóia de Ávila, que tem bom nível cultural, já passou por boas casas, como Tartari, e demonstra competência. Altos e baixos nos pratos principais. Os altos: o delicioso filé cordon bleu (R$ 24) e o estrogonofe (R$ 16). O cordon bleu vem empanado com um recheio de presunto e queijo, que estava derretendo. O estrogonofe de filé, tão injustamente esquecido, talvez banalizado pelas festas de casamento, agradou muito. Molho gostoso, sem excesso de catchup e filé macio, corretamente refogado, sem aquele gosto de carne cozida, como nas versões menos elaboradas. Bom o cabrito assado servido sobre um leito de risoto de açafrão (R$ 22). Cabrito mesmo e não cordeiro disfarçado cortado em pedaços, que estavam meio secos. Pouco gosto de açafrão no risoto.Razoável o bacalhau à moda (R$ 23). Bacalhau desfiado coberto por uma camada de purê com queijo pecorino. Pouco bacalhau. Fraco o filé Oswaldo Aranha (R$ 21), bem longe do original que, como mostra Caloca Fernades em seu magnífico livro Viagem Gastronômica Através do Brasil, deve vir com alho frito, arroz e farofa de farinha de mandioca. Segundo o maître Silva, diante das reclamações, o filé passou a seguir a receita original.Astor Cozinha Boêmia - Rua Delfina, 163, Vila Madalena, tel.: 3815-1364. De seg. a qui., das 18h às 3h; sex. e sáb., das 12h às 4h; dom., das 12h às 19h.

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