Benoit Tessier/Reuters
Benoit Tessier/Reuters

Asterix e Obelix entre os eternos

Com novos autores, heróis ganham livro após quatro anos de ausência

Andrei Netto / PARIS, O Estado de S. Paulo

25 de outubro de 2013 | 18h52

“Estamos no ano 50 A.C. Toda a Gália foi ocupada pelos romanos… Toda? Não!”

A partir desta semana, o prólogo que já foi publicado em 34 diferentes livros ganha mais uma edição. Asterix, o herói gaulês das histórias em quadrinhos, retorna às livrarias de todo o mundo em um novo título, Asterix entre os Pictos, no qual a turma de aldeões irredutíveis ajuda os antepassados dos escoceses a resistir contra seus eternos rivais. De antemão, a história traz pelo menos uma grande novidade: será a primeira sem que nem Uderzo, nem Goscinny, os criadores dos personagens, estejam no comando do projeto.

O lançamento do livro vinha sendo badalado na França há quase um mês, e isso por bons motivos. Um total de dois milhões de exemplares foram impressos até aqui só na França e a expectativa da editora, Albert René, empresa do grupo Lagardère, é de que a nova aventura de Asterix bata o recorde do blockbuster anterior, O Dia em Que o Céu Caiu, publicado em 2005, e que vendeu nada menos de 3,2 milhões de exemplares em 27 países e em 13 línguas.

Em 2009, quando dos 50 anos do personagem, O Aniversário de Asterix e Obelix – O Livro de Ouro teve receptividade bem menos calorosa. Críticos especializados na trajetória da tribo de gauleses há muito criticam a densidade histórica e a qualidade do humor dos livros do herói – mais precisamente desde 1977, quando morreu René Goscinny, escritor, roteirista e humorista e um dos criadores dos personagens. Desde então, a obra vinha a cargo de Albert Uderzo, o desenhista que deu vida aos gauleses ao lado de Goscinny.

Agora Uderzo, hoje com 86 anos, cede seu posto a dois novos protagonistas. Até por essa razão, o livro bem poderia se chamar Asterix entre os Eternos. A partir de agora, a turma será responsabilidade do roteirista Yves Ferri e do desenhista Didier Conrad, profissionais selecionados em uma disputa aberta pela Albert René, e que assumem a criação de futuras edições – uma estratégia que garantirá a sobrevida dos personagens bem além de seus dois idealizadores.

Em sua aventura entre os Pictos, Asterix, Obelix, Ideafix e todos os principais líderes da tribo de gauleses rumam para a região onde hoje se situa a Escócia. Lá, eles se encontram com os pictos, os “homens pintados” que também aterrorizaram tropas enviadas por Roma. Eles formavam uma confederação de tribos britônicas que viveram no norte e no leste da Ilha de Bretanha até a invasão romana, no século 10.

Como de praxe nas viagens da turma, todo o cuidado foi tomado para que, além de bom humor, os quadrinhos também trouxessem uma base histórica, misturada, claro à pitada de ironia – e autoironia – que marca os livros.

Coube a Uderzo acompanhar a passagem de poder para Ferri e Conrad, de forma a garantir a fidelidade aos originais. Para mostrar como a transição foi feita em sintonia entre criador e herdeiros, a Albert René chegou a divulgar um vídeo de uma sessão de trabalho entre os três – uma rara oportunidade de ver Uderzo, que muito pouco fala em entrevistas. Na gravação, ele explica, por exemplo, as diferenças e semelhanças entre Asterix e Obelix, particularidades que precisam ser respeitadas.

Sobre assumir o posto, Ferri se mostrou tranquilo. Após ser sondado pelos editores, um telefonema selou seu destino: prolongar a vida dos personagens que já marcaram pelo menos três gerações. “Foi muito misterioso. Recebi o convite de escrever essa aventura à condição de nada divulgar. Senti desde o início que eles não estavam brincando”, disse, revelando seu método: “Para a escrita, acabei por encontrar a poção mágica: comecei pelo fim”.

Em suas entrevistas, Conrad, um quadrinista com 30 anos de experiência, parte desse tempo nos Estados Unidos – incluindo colaborações com o estúdio de cinema DreamWorks –, vem prestando tributo à turma que assume daqui para a frente.

“Asterix foi uma forte influência para mim. Sempre adorei esse estilo, muito humorístico e dentro da tradição Disney”, explica, admitindo que nunca tinha desenhado os personagens antes. Sobre o estilo, diz o artista, a incorporação continua a se aperfeiçoar à medida que avança nos trabalhos. “Faço de tudo para que os desenhos sejam originais, e não cópias, mas de forma a verificar ao fim que eles estejam de acordo com o espírito da série”, conta, explicando por que aceitou o desafio: “Asterix é um mito”.

 

BNF faz exposição sobre origens dos heróis gauleses

Coincidência ou não, a França vive um novo momento de interesse pelas histórias dos aldeões resistentes. A Biblioteca Nacional da França (BNF) apresentará até 19 de janeiro uma exposição sobre Asterix e, claro, sobre Goscinny e Uderzo. No percurso, há relíquias como os originais dos dois primeiros títulos.

 

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