Assunto tabu agita os nacionalistas

Em Dias de Glória (Indigènes), Rachid Bouchareb já havia tocado no vespeiro, lembrando o sacrifício dos argelinos que deram a vida combatendo os nazistas no Exército francês, e isso apesar de serem considerados cidadãos de segunda categoria. As acusações foram ainda mais graves em Fora da Lei. O deputado de direita Lionnel Luca virou porta-voz da indignação de grupos nacionalistas que protestaram contra a reconstituição do massacre de Sétif, na Argélia francesa, em 1945. Luca queria saber como um filmes desses conseguiu dinheiro de instituições governamentais para ser feito. Acusou Bouchareb de ser antifrancês. O diretor retruca que a direita não consegue abrir mão de seus antigos privilégios coloniais.

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

31 de dezembro de 2010 | 00h00

Para o espectador brasileiro, toda essa polêmica pode parecer estranha ao filme, mas ela é o filme. A menos que se trate de uma reconstituição romanesca - como a de Indochina, de Régis Wargnier, com Catherine Deneuve, que venceu o Oscar de melhor filme estrangeiro -, qualquer abordagem da herança colonial é sempre polêmica e os fatos ainda são recentes na França. Atingem o espaço de uma ou duas gerações. Existem feridas não cicatrizadas, que reabrem velhos ressentimentos.

Num dossiê publicado na edição de outubro de Cahiers du Cinéma - a capa é dedicada a Claude Chabrol, que havia morrido no mês anterior -, o historiador Benjamin Stora e o jornalista Renaud de Rochebrune (autor de La Guerra d"Algérie vue par les Algériens) reclamam da ausência de perspectiva histórica de Bouchareb em Fora da Lei. Os personagens, incluído Abdelkader, interpretado por Sami Bouajila - o intelectual que vira ideólogo da resistência argelina -, não falam verdadeiramente de política, não propõem nenhum debate. O único programa político é a violência, que o diretor torna "heroica", como em qualquer filme de ação.

Passaram-se quase 50 anos - meio século - desde a independência da Argélia. Em 1962, foi acertado o Armistício de Evian, com o reconhecimento da independência argelina pela França, em troca de garantias aos franceses que habitavam o país no norte da África (e que integra o chamado "Magreb"). O cinema tem contado algumas vezes essa história. O filme mais conhecido - e rigoroso - sobre o assunto é A Batalha de Argel, de Gillo Pontecorvo. Foi proibido pelos militares no Brasil e, curiosamente, reabilitado pelo Departamento de Estado (dos EUA), que o usou como manual de combate à guerrilha, após o 11 de Setembro.

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