Imagem Humberto Werneck
Colunista
Humberto Werneck
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Assunto cabeludo

Fidel invocava o povo para não raspar a barba. Já o conde, não sabia onde botar a dele

Humberto Werneck, O Estado de S. Paulo

19 de fevereiro de 2019 | 02h00

Certos assuntos não param de crescer, tornando-se necessário passar-lhes a navalha – o que cronista promete fazer, não sem antes cofiar umas historinhas só literalmente cabeludas.

Em nome do povo

A implicância de Rubem Braga com a barba de Fidel Castro, assunto aqui na semana passada, é anterior ao dia em que o conheceu pessoalmente, em Havana, no final de março de 1960. Pouco mais de duas semanas após a entrada triunfal dos guerrilheiros na capital de Cuba, em 8 de janeiro de 1959, o escritor capixaba publicou uma crônica intitulada, exatamente, “A barba”, deliciosa mas ainda hoje inédita em livro. 

Contou o Braga que dias antes, no Rio, tinha estado numa festa de despedida de exilados da ditadura de Fulgencio Batista, agora de malas feitas para retornar à pátria. Questionado se queria alguma coisa de Cuba, o cronista se saiu com esta: 

– Peçam ao Fidel para tirar a barba. 

Era pedir demais, concluiu ele pouco depois, quando, na televisão, viu o comandante, provocado por um repórter, explicar por que não rasparia seu revolto adereço facial, como teria prometido em caso de vitória. “El pueblo no lo quiere”, justificou. 

“Vejam como é o povo”, filosofou o Braga, e lembrou que também o nosso “já teve muitos heróis barbados” – entre os quais muito “gaúcho e falso gaúcho”, conforme ele mesmo constatara no desfile da vitória da Revolução de 1930, na avenida Rio Branco, farto em barbas e em lenços rubros no pescoço. 

“Talvez por causa de suas barbas”, arriscou o cronista, “o bacharel Castro me dá uma impressão de tenentista”. Pensava naqueles jovens oficiais que agitaram a cena brasileira a partir de 1922, entre eles Luís Carlos Prestes, que “percorrera o Brasil com barbas em sua fase romântica”. A diferença estava no fato de que “nossos tenentes falavam muito em fuzilar, mas eram bons moços, e poupavam os adversários derrotados” – ao contrário do que se passava em Cuba desde o triunfo da Revolução. 

“Eu não simpatizo com a pena de morte, e menos ainda com julgamentos tão sumários”, posicionou-se o Braga, acrescentando que nem por isso tinha “ganas de protestar”, como faziam tantos, contra os fuzilamentos em Cuba, uma vez que “homens a serviço de Batista mataram ou torturaram muita gente durante longos anos”. Para o cronista, escaldado por perseguições no Estado Novo, “azar deles se a coisa virou e não foram espertos como o chefe para voar alhures”. Isto posto, botou na crônica este ponto final: 

– Mas Fidel bem podia tirar aquela barba. 

*

Bigode, monogode, zerogode

Certa manhã de sábado, que na família ficaria inesquecível, o pai chamou ao banheiro o filho de 3 anos, para que assistisse à remoção de seu bigode. Melhor que o menino visse a operação, pensava, para depois não estranhar o novo visual do chefe da família.

Olhos no espelho sobre a pia, o curumim, boquiaberto, viu a navalha abater uma das bandas da pilosa faixa negra, ligeiramente circunflexa, que até então lhe parecia existir desde sempre do rosto de seu herói, taturana cosquinhenta a pinicar suas bochechas, em prazeroso desconforto, sempre que ele o afogava em beijos. 

Raspado o segmento direito, o pai voltou-se para o filho e, crente que estava agradando, fez um gracejo obviamente incompreensível: em vez de bigode, teria agora um monogode. Em seguida, mandou para o ralo da pia também banda esquerda – e aí o menino, já ressabiado, entrou em desespero:

– Põe ele de novo, papai, põe ele! – pôs-se a pedir, inconsolável, e saiu em disparada quando aquele familiar agora estranho quis lhe dar um beijo.

Com o filho em prantos no colo, a mãe chegou à porta do banheiro – e foi a sua vez de se pasmar, pois nunca tinha visto o cônjuge sem bigode. Resumiria mais tarde a sensação que teve ao receber o primeiro selinho da versão escanhoada do companheiro de tantos anos:

– Foi como se eu estivesse traindo o meu marido com ele mesmo.

*

Uma questão dental...

Também a faxineira se espantou ao ver o patrão sem a gorda bigodeira que se debruçava, feito para-choque, sobre o lábio superior e um pouco mais. 

– Alguma coisa diferente? – provocou ele, dobrando o jornal.

A moça, radiante, após breve hesitação:

– Já sei! Botou dente!

*

... e uma transcendental 

Além de um título de conde, o cônsul italiano portava barbas, e não quaisquer: brancas, fartas, encachoeiradas rumo aos contrafortes da pança hipopotâmica, dessas que requerem retrovisor quando se queira conferir o panorama de trás os montes. 

Impunham respeito, as barbaças do senhor cônsul, não havendo quem ousasse comentário sobre elas. De corpo presente, é claro, pois pelas costas fervilhava o falatório. 

Num tempo anterior aos identificadores de chamadas, houve uma noite em que o telefone acordou o conde. Em tom polido, alguém queria saber onde é que ele, ao se deitar, acomodava as barbas, se por cima ou por baixo do lençol.

O conde despejou uma cascata de impropérios no mais rude italiano, bateu raivosamente o telefone e reacomodou na cama o volumoso corpo consular. E não mais pregou o olho, pois atravessou a madrugada a cobrir e a descobrir as barbas, sem chegar a uma conclusão. A seu lado, a condessa não teve sossego, instada a cada 2 minutos a elucidar, na qualidade de testemunha ocular, a transcendental questão:

– É por cima ou por baixo?

Há quem diga que morreu, anos depois, sem que a dúvida estivesse resolvida, e que a viúva, na hora de enfeitar o corpo, hesitou por um momento antes de ordenar que sufocassem com flores as barbas do falecido. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.