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Assincronia

Um passe do Didi não era apenas um passe do Didi. Um passe do Didi era um presente, um lançamento do Didi era um ovo Fabergé

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S. Paulo

20 de junho de 2019 | 02h00

Nelson Rodrigues chamava Didi de Príncipe Etíope. Didi dominava o meio-campo como se fosse sua herdade, olhos postos no horizonte. Um passe do Didi não era apenas um passe do Didi. Um passe do Didi era um presente, um lançamento do Didi era um ovo Fabergé.

Quando batia uma falta, Didi olhava fundo nos olhos do goleiro e anunciava que o gol seria no ângulo superior direito, e outonal. Significava que a bola entraria no ângulo superior direito, como anunciado, e cairia como uma folha seca de outono.

Descontada a hipérbole natural do Nelson Rodrigues, o Didi era mesmo um artista da bola. Me dou conta de que estou mergulhando num abismo de ignorância e tentando levar comigo esta triste irmandade, a dos que não estavam lá. A dos que nunca viram uma folha seca do Didi. A dos que ouviram falar, mas não acreditaram nos dribles do Garrincha.

A primeira visão do Maracanã lotado, jogo noturno. E o Pelé, no tempo em que qualquer estádio do País lotava para ver o fenômeno jogar.

Não é saudosismo, não. É que vi o jogo contra a Venezuela escrevendo esta coluna ao mesmo tempo que tive uma crise de assincronia, se é que existe a palavra. Saudades do Nelson Rodrigues.

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