Assim não estava escrito

 A última palavra em picaretagem literária tem sotaque britânico. A penúltima também. Antes fosse apenas um livro; é uma coleção. Com o rótulo de Clandestine Classics e a chancela da editora Total-E-Bound, reúne cinco best-sellers atemporais, escritos no século 19 por Jane Austen, Charlotte Brontë, Conan Doyle, Jules Verne, e parcialmente reescritos neste milênio por ficcionistas de aluguel com o precípuo objetivo de excitar a libido dos leitores.

Sérgio Augusto,

28 Julho 2012 | 07h48

Foi-se o tempo em que clássicos da literatura eram condensados e expungidos de passagens e alusões libidinosas para melhor se adequarem ao público infantojuvenil. A ordem agora é inverter esse processo, erotizando o que originalmente primava pelo recato; algo próximo do que gibis clandestinos de décadas passadas fizeram com as cândidas histórias de Mickey e outros personagens de Walt Disney.

Não faz muito tempo, infestaram a ficção de Jane Austen de apócrifos vampiros e zumbis. Os mortos-vivos continuam em alta no cemitério da prosa, mas parece ter chegado a vez da “febre do orgasmo” que contamina o mercado editorial desde a publicação do primeiro volume da trilogia Cinquenta Tons de Cinza, recém-traduzido aqui pela editora Intrínseca.

A virose, a rigor, iniciou sua contaminação 15 anos atrás, com o meretrício yuppie de Sex and the City, de Candace Bushnell, cujo sucesso junto ao mulherio falsamente emancipado a televisão expandiu, fazendo com que o pornochique virasse epidemia. E pandemia depois da publicação de Cinquenta Tons de Cinza. A saga sadomasoquista de Anastasia Steele e Christian Grey já vendeu 31 milhões de exemplares mundo afora. A “saganagem” perpetrada pela londrina E.L. James, a penúltima palavra em picaretagem literária, nasceu no formato digital, sob assumida influência de Stephenie Meyer. Pior DNA, impossível.

Com sua coleção de clássicos apimentados, a Total-E-Bound pretende desmistificar “as galantarias e a timidez dos velhos tempos”, revelando o que a pudicícia, autêntica ou imposta aos autores, apenas sugeriu ou precisou omitir por completo. Como terá sido a lua de mel de Elizabeth e Darcy em Orgulho e Preconceito, nos mais íntimos detalhes?

Num velho artigo para a revista The Atlantic, Martin Amis se fez essa pergunta, lamentando que Austen não tivesse condições ou interesse de explicitar o sexo que inevitavelmente rolou na principal alcova de Pemberley. De qualquer modo, duvido que ele tenha se dado o trabalho de conferir suas próprias conjecturas com as recentemente imaginadas por Mitzi Szereto em outra ficção oportunista, Pride and Prejudice: Hidden Lusts (Orgulho e Preconceito: Tesões Ocultos).

Sequelas e prequelas de obras canônicas, tudo bem. Refiro-me a romances que tentam imaginar o que teria acontecido com determinados personagens antes ou depois das narrativas que os consagraram. Há quase meio século, Jean Rhys publicou uma elogiada prequela de Jane Eyre, intitulada Wide Sargasso Sea, tendo como protagonista a primeira mulher de Mr. Rochester, que no romance de Charlotte Brontë se chamava Bertha Mason e no de Rhys ressurgia como Antoinette Cosway.

A recriação erotizada de Jane Eyre, acrescida, no título, da expressão “laid bare” (nua e crua), é titilação pura, um consolo impresso para esquentar a bacurinha. Uma tal de Eve Sinclair divide a autoria com Brontë. Todos os clássicos clandestinos da Total-E-Bound identificam na capa os autores originais e seus profanadores. Jane Austen ganhou duas “parceiras”: Amy Amstrong em Orgulho e Preconceito, e Desirée Holt em A Abadia de Northanger. Não ouso transcrever aqui o que de mais notável oferece a lasciva (e sobretudo fuleira) prosa das duas senhoras, desvelada em conta-gotas no site da editora, que é, pelo visto, uma ginecocracia, pois também pertencem ao sexo feminino os coautores de Estudo em Vermelho (Sarah Masters) e Vinte Mil Léguas Submarinas (Marie Sexton).

 

Coautores gays fariam mais sentido, já que tanto na versão masters do romance de Conan Doyle como na versão sexton da aventura de Verne, o homossexualismo come (sorry) solto. Dr. Watson apaixona-se por Sherlock Holmes e “tem suas necessidades sexuais atendidas de uma forma que só em sonho imaginara”. Ned Land, aquele arpoador que na versão de Vinte Mil Léguas Submarinas para o cinema era interpretado por Kirk Douglas, reaparece no Nautilus todo “sexy e temperamental”, dando em cima do professor Aronnax.

Com tantas editoras nacionais comprometidas com a prostituição literária, pus-me a imaginar o que alguns de nossos clássicos poderiam sofrer caso a moda de romances erotizados aqui viesse bater. E se na gruta de A Moreninha, o casto caso de amor urdido por Joaquim Manuel de Macedo, Carolina e Augusto tivessem levado seu ardor às últimas consequências? Atualizado à gigolagem em voga, Dom Casmurro não teria como manter de pé a machadiana dúvida sobre a fidelidade de Capitu, que, aliás, teria seu nome alçado ao título, com um adendo do tipo Oblíqua e Dissimulada.

Encher de sexo as páginas de Lucíola, de José de Alencar, qualquer escriba minimamente competente o faria; sua heroína, afinal, era uma prostituta de ar inocente em processo de regeneração. Não se pode dizer o mesmo dos romances de Graciliano Ramos, exceto, talvez, Angústia, assombrado o tempo todo pelos devaneios e desejos lúbricos de Luís por Marina. Sorte do velho Graça não ter caído ainda em domínio público, do contrário até um cão no cio providenciariam para a Baleia de Vidas Secas.

Por ser outro legalmente impermeável a profanações, Guimarães Rosa não corre o risco de ter Riobaldo sodomizando Diadorim ou por ele sendo sodomizado, num dos capítulos iniciais de Grande Tesão: Veredas.

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