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Assim de ladinho

A faxineira deixa os móveis e objetos meio enviesados? Não é só na sua casa que acontece

Humberto Werneck, O Estado de S. Paulo

24 de setembro de 2019 | 03h00

Não, não foi ela quem teve a ideia de arrumar meus livros pelo critério cor & tamanho, criando assim um harmonioso caos do qual levei tempo para sair, conforme contei na semana passada. Também não é a mesma que me pedia para comprar detergente ou sabão em pó quando fosse ao “espermercado”. Nem a outra que, depois de me contar que o marido, além de desempregado, andava agora pelos cantos, na maior tristeza, marcou posição, enfática: “Eu sou contra a depressão!”. E muito menos se trata daquela que, insatisfeita com o desempenho libidinal do novo namorado, em permanente modo avião, queixou-se de que ele não fazia “volume”, diferentemente do anterior, que só de vê-la “ficava todo enfeitado”.

Para começar, a doce e eficiente criatura que tenho em casa duas vezes por semana, já faz anos, não pertence ao gênero declaratório das supracitadas. E muito menos, benza Deus, ao gênero canoro de uma antiga faxineira do vizinho de baixo, incapaz de abrir torneira ou gás sem abrir também a goela e fazer jorrar, com voz esganiçada, alguma cantoria religiosa, dessas de levar à exasperação, não sei se o Senhor nas Alturas, mas certamente este senhor aqui em cima. 

Uma das benditas marcas da empregada (desculpe a crueza do rótulo, mas ainda não consegui aderir ao “secretária do lar”, equivalente doméstico do “colaborador” das empresas modernas), eu dizia, da empregada que tenho a imerecida sorte de abrigar sob o meu teto é justamente um silêncio de monja, de monja das antigas, do tempo da missa em latim, sem espevitação de noviça rebelde. 

Entre o bom-dia e o boa-tarde, mal ouço a sua voz. Na verdade, por pouco também quase não a vejo, fiapo de gente a deslizar de lá para cá um corpinho esguio e esquálido que, quando de perfil, sugere o mapa do Chile.

Desta cadeira do escritório, olhos fincados no retângulo luminoso de que sou escravo, às vezes custo a perceber que ela, discreta e silenciosa, estacionou sob o marco da porta, à espera de um segundo em que eu suspenda o trabalho e volte os olhos na sua direção, para só então, sorridente e tartamuda, comunicar que em algum dos vasos da área de serviço, ou do peitoril da janela da sala, temos uma iminência de flor. Em três ocasiões, como já contei, a novidade era mais do que uma flor: era um pequeno abacaxi, abacaxi doméstico, felizmente sem sentido figurado, que semanas adiante haveríamos de saborear, ela e eu, não sem antes, ainda íntegro, ser documentado em foto, de modo a fazer prova junto a amigos e parentes que a inveja torna incrédulos.

Eu até gostaria que ela fosse, de vez quando, contadeira de causos, como algumas tive em casa, loquacidade que, como se vê, pode render matéria-prima para cronistas à míngua de assunto. Mas nosso papo não progride. Em parte, porque esta senhora nada boba, ao contrário, bem matreira, cuja idade nunca tive coragem de perguntar, jamais discorda de algo que lhe diga o dono da casa, por absurdo que seja. Trata-se, nesse particular, de uma caricatura extremada da tal conciliação mineira. Amostra de diálogo mil vezes repetido quando vou à área de serviço para conferir o céu:

– Estou achando que vai chover.

– Ah, vai mesmo, agorinha!

– Se bem que daqui a pouco o tempo pode abrir.

– Ah, com certeza abre! – concorda ela, e encerra a conversa: – Vem um vento dos bão e abana essas nuve...

Fosse ela aqui a escrever, não eu, e o personagem da crônica, não menos burlesco, seria um senhor incapaz de sair para a rua sem voltar em seguida, não raro mais de uma vez, qual patético ioiô humano, para buscar alguma coisa que na primeira tentativa esqueceu de levar.

*

Custei a compreender como estilo de decoração aquilo que no começo me parecia decorrer de acidente ou descuido: depois de sua passagem, haverá sempre algum móvel ou objeto posto em posição enviesada. Não se trata de algo casual; pertence à mesma natureza do impulso que leva um camarada meu, o Jônatas, a dispor tudo lado a lado, arrumadinho, simétrico, naquilo que nós, seus amigos, batizamos de Universo Paralelo. Dizem que não pega no sono se os chinelos, ao lado da cama, não estiverem obedecendo ao mais rigoroso paralelismo, prontos para caminhar rumo ao infinito sem jamais se tocarem. 

Outro dia soube que o arranjo enviesado de minha faxineira está longe de ser exclusividade sua. Contei numa roda e pipocaram depoimentos idênticos – o que me animou a sugerir que se dê nome ao estilo em questão: menesguei. 

A palavra, cuja origem desconheço, ainda não está nos dicionários convencionais, mas já comparece na internet, para designar modo ou jeito de quebrar alinhamento ou simetria: de lado, de ladinho, de banda, de soslaio, de viés, de esguelha, de través. Vale também para manhas de gente que, não querendo dar bandeira, trata de olhar de menesguei alguma pessoa ou cena. 

Mas já chega de conversa. Hora de sair – de sair assim de ladinho, em homenagem à minha faxineira, agora também personagem, mesmo que seja para voltar em seguida, como costuma acontecer, atrás de alguma coisa que esqueci de levar.

*

Em tempo: um cochilo, na semana passada, me fez atribuir à finada editora Cosac Naify, e não ao Instituto Moreira Salles, o livro Versos de Circunstância, reunião, em fac-símiles, das dedicatórias versificadas que Carlos Drummond de Andrade, metódico a mais não poder, registrou em seus cadernos ao longo de décadas. O mesmo IMS ao qual devemos ainda, entre outras joias, uma edição também fac-similar de Alguma Poesia, o livro de estreia de CDA, e Uma Pedra no Meio do Caminho, em que ele reuniu louvores e bordoadas suscitados pelo mais polêmico de seus poemas.

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