Assayas narra a vida depois da utopia

Diretor francês fala sobre Depois de Maio, produção que tenta mostrar como era ser jovem após os episódios de 1968

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

25 de abril de 2013 | 02h08

Nos filmes de Olivier Assayas, a música sempre foi importante, espécie de personagem que ajudava a contar a história. Não é diferente em Depois de Maio. O novo longa do diretor prossegue com uma discussão sobre o engajamento político, que já estava em Carlos. Mas, enquanto esse abordava o terrorismo e a destruição da utopia, em Après Mai, Assayas, enfocando a própria juventude, fala de idealismo. Ele tinha 13 anos no mítico Maio de 68. Seu filme se passa em 1971, inspirado num texto que ele próprio publicou em 2005, sobre o que era ser jovem depois daquele maio que não acaba nunca. Assayas queria uma canção de Syd Barrett na trilha, outra de Nick Drake. "Era o que eu ouvia na época, músicas formadoras para mim", ele conta numa entrevista por telefone, de Paris.

"Não sei se Depois de Maio encerra um ciclo, porque nada me garante que, no futuro, não vá voltar a esse período. Mas, por enquanto, sim." Em Carlos, sobre o mítico terrorista, ele abordou a militância no quadro de um mundo em transformação. "Seria pessimista de minha parte olhar para uma época que foi tão importante, na minha vida inclusive, como o 'fim' de alguma coisa. Foi por isso que quis fazer Depois de Maio. É um filme mais pessoal, com elementos autobiográficos. Gilles, até certo ponto, sou eu, mas a verdade é que me projeto em todos os personagens. Só assim conseguiria falar do idealismo e do entusiasmo que estavam no ar."

Assayas reconhece que houve uma evolução na sua mise-en-scène, desde Carlos. "A duração dos planos, a movimentação da câmera, tudo é produto de uma maturidade maior como diretor. Voltar-me para meu rito de passagem me permitiu amadurecer também como autor. Carlos contava uma história que não era a minha, uma história que já havia entrado para a mitologia, com eventos excepcionais. E eu contava essa história no corpo do meu ator, Edgar Ramirez, que começava o filme de um jeito e terminava de outro, expressando a degradação dos ideais do personagem. Em Depois de Maio, a história é mais intimista, os detalhes contam mais e eu diria que os detalhes são tudo. Foi um filme difícil de realizar. Precisei de colaborações decisivas, como as do fotógrafo Eric Gautier e do montador Luc Barnier."

A música mais uma vez também ajudou. "Nunca encarei Depois de Maio como autobiográfico, mas me baseei em lembranças, porque só assim conseguiria recriar o período. Com as canções que tanto ouvia na época, os diálogos vieram com facilidade. Às vezes, uma palavra me trazia a frase inteira." De todos os seus filmes, ele diz que este é aquele em que houve menos improvisação. "Como trabalhava com atores inexperientes, não tinham diapasão para improvisar em cenas complexas." E o que se pode esperar de Assayas depois de dois filmes sobre política e militância? "Meu próximo filme será diferente. Volto à cena contemporânea. E vai ser um filme de atores. Juliette Binoche estará nele."

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