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Aspas lapidares

A julgar por suas últimas palavras, só Francisco de Assis não morreu a contragosto

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

06 de junho de 2017 | 02h00

O que você diria na hora da morte?, pergunta Philippe Nassif, escritor francês a quem minha abrangente ignorância acaba de ser apresentada, na forma de um pequeno e divertido livro, Últimas Palavras, lançado agora no Brasil pela editora Gutemberg. 

Confesso que não tenho ainda uma resposta para a indagação que nos faz Nassif, “um apaixonado pela filosofia”, autor também de Bem-vindo a um Mundo Inútil. O que diria eu no apagar de minhas já tão poucas luzes? Nesta altura da vida, inclino-me por uma avaliação da experiência de ter estado aqui desde o ano de 1945: “Então era isso, gente?!”.

Discreto, Philippe não revela o que pretende dizer antes de exalar o derradeiro suspiro. Talvez já tenha um papelucho pronto na gaveta do criado-mudo. No livro, limita-se a dar voz a 76 personalidades, quase todas francesas, com aspas recolhidas à beira de seus leitos mortuários. 

Ele não pretende que seu livro seja, no assunto, a última palavra. A primeira, com certeza, não é: eu mesmo, não especialmente interessado no tema, já lambisquei numa coletânea semelhante à dele, Mortes Imaginárias, de Michel Schneider. Muitas frases comparecem nos dois livros, fruto de garimpagem em vala duplamente comum. 

Em matéria de últimas palavras, há um pouco de tudo na seleta de Philippe Nassif. Como era de esperar, não faltam declarações que, de tão “literárias”, provavelmente foram concebidas e buriladas por outrem. Reluto em acreditar que nas chamadas vascas da agonia o pintor Jean-Baptiste Greuze tenha arrebanhado forças para proferir esta frase: “Se um dia você tiver a estranha ideia de pintar a morte, imagine uma mãe cruel que faz seus filhos dormirem para se livrar deles”. Mais verossímil me parece ser Victor Hugo, tão caudaloso em Os Miseráveis quanto sintético na hora de bater as botas: “Separação” - e mais não disse.

Compreensivelmente, quase ninguém gostou de estar morrendo. A exceção, no livro de Philippe Nassif, fica sendo São Francisco de Assis, capaz de estender um tapetinho vermelho para aquela que Manuel Bandeira chamou de Indesejada das Gentes: “Seja bem-vinda, morte, minha irmã...”. Ao santo talvez se some Winston Churchill, embora nada jubiloso: “Estou tão entediado com tudo isso...”, resmungou ele, excepcionalmente sem charuto na boca. No outro extremo, o mais inconformado pode ser o escritor Augusto de Villiers de l’Isle-Adam, que, vendo-se diante do inapelável, saiu batendo a porta: “Pois bem, hei de me lembrar deste maldito planeta!”.

 

André Breton, o papa do surrealismo, também morreu esperneando: “Péssima maneira de sair de cena”, protestou. Já descrente de médicos de carne e osso, Honoré de Balzac recorreu a um personagem de sua Comédia Humana: “Só Bianchon pode me salvar!”. A vida, porém, não imitou a arte. O poeta Rainer Maria Rilke foi mais radical, dispensou até mesmo os profissionais que tentavam mantê-lo vivo. “Quero morrer a minha morte”, decidiu, “não a morte dos médicos”. O revolucionário russo Mikhail Bakunin, nem isso: “Não preciso de nada”, declarou. “Terminei minha tarefa.”

Não se pode dizer que o escritor russo Anton Tchekov acabou inteiramente mal. Sentindo o fim próximo, esvaziou uma taça e, antes de fechar os olhos, observou: “Fazia muito tempo que eu não bebia champanhe”. Já o escritor francês François Coppée, ao deixar a vida, deixou também a frustração de uma frase para sempre inconclusa: “Só há três coisas na vida: a amizade, o amor e...”. Seu confrade Alfred Jarry foi outro que legou um enigma: “Estou procurando... procurando... procurando...”, sussurrou, sem dar mostras de que tivesse achado. Sua última vontade, formulada pouco antes, não poderia ser mais adequada ao criador do Pai Ubu: pediu que lhe trouxessem um palito.

Se Goethe morreu clamando por “luz, mais luz!”, Gui de Maupassant se foi protestando: “Trevas, oh!, trevas!”. O pintor Toulouse-Lautrec, no último suspiro, pôs para fora o que tantos levam tempo para formular no divã do psicanalista: “Mamãe, você, só você...”. Gênio da matemática, Évariste Galois fez frase segundos antes de apagar: “Não chore”, disse ele ao irmão, “preciso de toda a minha coragem para morrer aos 20 anos”. O dramaturgo Edmond Rostand, aos 50, também achou que ainda não era tempo de ser recolhido pela longa mão de Deus. “É um pouco cedo”, reclamou. 

Seu colega americano Eugene O’Neill não se conformou com a locação de sua morte: “Eu sabia! Eu sabia!”, bradou. “Nascido num quarto de hotel, e, maldito seja, morto num quarto de hotel!” Oscar Wilde também morreu em hotel, reclamando da decoração do quarto: “Ou é esse papel de parede que está desaparecendo, ou sou eu!”.

Em matéria de declarações pré-lapidares, meu favorito talvez seja Eugène Labiche, mestre do teatro cômico durante o Segundo Império francês, famoso pelas tiradas sarcásticas com que salpicava não apenas suas comédias. Ao lado da cama, o filho André, viúvo recente, choramingava: “Pai, já que você vai ver a Madeleine, diga a ela que ainda a amo!”. Ao que o velho retrucou: “Você não podia dar o recado você mesmo?”. 

 

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