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Asneirol eleitoral

URSAL, a confederação de repúblicas socialistas delirada pelo cabo-pastor Daciolo

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

18 de agosto de 2018 | 02h00

Porque vivemos na era da fake news, a história agora só se repete como falsa. 

Vejam o caso da URSAL, a tal União das Repúblicas Socialistas da América Latina tirada não da cartola, mas do quepe do cabo Daciolo, dublê de pastor evangélico e candidato a presidente da República. Em princípio, a União existe apenas na cabeça do “second banana” de Bolsonaro – e, por certo com outro nome, nas mais paranoicas cacholas da direita. 

Mas já existiu, com praticamente as mesmas letras, na cabeça da socióloga mineira Maria Lúcia Victor, que há dias se apresentou ao distinto público como inventora do acrônimo, já lá se vão quase 17 anos. Ela o introduziu, via internet, num artigo em que ironizava um encontro do Foro de São Paulo. Em Havana. Donde a inferência: os socialistas tomaram (ou irão tomar) conta do continente.

Sem as mesmas vantagens proporcionadas ao pastor – o palanque eleitoral da TV Bandeirantes e o potencial multiplicador das mídias sociais – a zombaria da socióloga levou cinco anos para ter alguma repercussão. Ela própria revelou que, num texto do pensador Olavo de Carvalho para o Diário do Comércio, o fake virou fato, levantando a suspeita de que o autor de O Mínimo Que Você Precisa Saber Para Não Ser um Idiota não leu o seu manual com a devida atenção.

URSAL, esclareço aos leitores que não frequentam as redes sociais, foi a mais intensa e animada meme do fim da semana passado. O Tiririca do partido Patriota (ah! se eles conhecessem o célebre aforismo de Samuel Johnson sobre patriotismo talvez tivessem dado outro nome à agremiação) atirou um inopinado bumerangue contra as esquerdas, e elas se deleitaram postando imaginosas e debochadas fantasias sobre a confederação de repúblicas socialistas delirada pelo cabo-pastor. 

Criaram-lhe bandeira, dístico, unidade monetária, hino, passaporte, seleção de futebol; arrumaram-lhe um financiador (o magnata e filantropo húngaro-americano George Soros) e um presidente (o uruguaio José Mujica); gabaram-lhe as dádivas da natureza (teria neve, deserto, Amazônia, montanhas, praias sem fim) e os notáveis feitos contabilizáveis como reais (seis prêmios Nobel de Literatura, nove títulos na Copa do Mundo, 13 na Fórmula 1, vários outros em vôlei e basquete) – atrativos suficientes para realimentar a utopia de um continente unificado e igualitário. Nem Bolívar sonhou tão alto.

Com essa avacalhação o candidato não contava. Mas o saldo final lhe resultou positivo. Sua impagável facúndia apocalíptica roubou a cena, transformou seus concorrentes em insossos figurantes, inclusive o candidato ideologicamente mais próximo dele, Jair Bolsonaro. Tão próximos os vejo, que me pergunto se não seria mais negócio para o cabo Daciolo trocar Deus (de Quem parece arvorar-se vice) pelo ex-capitão, numa chapa genuinamente messiânica. 

Ocorre que o candidato do PSL já tem um militar como companheiro de chapa. E que não é um ex-cabo qualquer, mas um ex-general cuja visão caturra do Brasil e sua gente só perdeu em repercussão e gozação na internet para a confederação socialista inventada pelo candidato do Patriota.

Para o general Mourão da vez (o primeiro foi aquele que em 1964 deslanchou o golpe militar antes do combinado e autoproclamou-se “uma vaca fardada”), nós, brasileiros, herdamos dos índios a indolência e, dos negros, a malemolência e a malandragem, traços que precisaríamos apagar por meio de uma reforma moral. 

Por pouco, nas redes sociais, não chamaram Mourão 0.2 de “asno fardado”. Comentaristas políticos da mídia impressa se perguntaram de onde o general havia tirado aquela concepção reducionista (e racista) de nossa formação sociocultural. Elio Gaspari lembrou a figura do Conde Gobineau, embaixador francês no Brasil durante o Segundo Império, para quem a miscigenação de brancos com índios e negros provocaria o colapso de nossa sociedade na primeira metade do século 20. Gobineau chutou pela linha de fundo. A bola de Gaspari bateu na trave. 

A visão que o general tem do País e sua gente é uma antologia do que alguns de nossos “explicadores de Brasil” mais datados do passado expuseram em livros desde, pelo menos, Silvio Romero, no final do século 19. Segundo Romero, somos frutos do “consórcio” da população latina, “bestamente atrasada e infecunda”, com “selvagens africanos, estupidamente indolentes e talhados para escravos”.

Nos anos 1930, com o fascismo se assanhando na Europa, Nina Rodrigues, Arthur Ramos e Oliveira Vianna se incumbiram de centrar a artilharia nos negros. 

Em sua história dos africanos no Brasil, Rodrigues terminava por elogiar quem destruiu Palmares, pois assim destruíram “de uma vez a maior das ameaças à civilização do futuro povo brasileiro, nesse novo Haiti, refratário ao progresso e inacessível à civilização, que Palmares vitoriosa teria plantado no coração do Brasil”. Seu alerta foi publicado em 1932, ou seja, dez anos antes de Caetano Veloso vir ao mundo para um dia revelar, de perspectiva adversa, que o Haiti, afinal de contas, é e não é aqui. 

Retardatário nas ciências sociais, Oliveira Vianna, um afrodescendente de alma branca, que babava de admiração pela altivez e o fausto das elites brancas paulistas e pernambucanas, foi outro a suspirar pelo branqueamento progressivo da população. “Satisfazia os pruridos da nobreza rural de parte da população brasileira”, sintetizou Dante Moreira Leite em O Caráter Nacional Brasileiro, cuja leitura pode nos levar, sem delongas nem esforço, a todas as fontes de onde o general tirou aqueles superados clichês a nosso respeito.

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