Ashkenazy, noite inspirada no Municipal

Possuem mais pontos comuns do que geralmente se pensa as duas sinfonias do concerto de abertura da temporada 2012 do Mozarteum, com a Orquestra Sinfônica Alemã, regida por Vladimir Ashkenazy, anteontem, no Teatro Municipal. Embora separadas por um século e meio de distância, a Pastoral de Beethoven e a Sinfonia n.º 10 de Shostakovich são campeãs em alusões a subtextos e motivações extramusicais. Foram e ainda são objeto de muita discussão entre os especialistas.

O Estado de S.Paulo

16 de maio de 2012 | 03h09

A primeira, de 1808, nos leva para um passeio no campo, com direito a tempestades, bonanças e danças camponesas - mas Beethoven fez questão de esclarecer que não estava retratando musicalmente a natureza como fazem as Quatro Estações de Vivaldi, e sim os sentimentos que temos quando a contemplamos. Ele não queria imitar os sons da natureza - logo Beethoven, o compositor que conquistou a autonomia da criação musical.

A excelente orquestra alemã e o célebre pianista regente russo ligaram o piloto automático na Pastoral. Mas - e aí está o diferencial de uma sinfônica madura - isso não significou que a performance foi medíocre. Afinal, os músicos da Sinfônica Alemã cresceram tocando Beethoven. E são tão talentosos que mesmo letárgicos fizeram boa, apesar de convencional, leitura da sinfonia.

O grande momento do concerto, entretanto, ficou reservado para a segunda parte. A décima sinfonia de Dmitri Shostakovich deu uma chacoalhada no palco e na plateia do Teatro Municipal: modificou sobretudo o tônus no pódio e nas estantes. A vibração de Ashkenazy, até então supercomedido, contaminou os músicos. Seus gestos ficaram mais largos, a empatia com os instrumentistas cresceu a olhos vistos.

Composta em 1953, logo após a morte de Stalin, a décima, como toda a obra de Shostakovich, é recheada de explicações extramusicais. Algumas razoáveis, outras mirabolantes. O violentíssimo Scherzo de 5 minutos, por exemplo, seria um retrato do ditador recém-morto, conforme o relato de Solomon Volkov, autor do controvertido livro Testemunho, de 1979; o final ambíguo representaria um misto de alegria pelo fim do estalinismo e angústia pelo que poderia vir em seguida (sabe-se que o mote de Shostakovich era "o que está ruim sempre pode piorar"), raciocínio que faz sentido; e, incrustada no Allegretto, há até a declaração de amor a sua ex-aluna Elmira no Allegretto. Ele chega a criptografar musicalmente seu nome e o dela.

Mas, afinal e acima das especulações extramusicais, tanto a Pastoral quanto a décima de Shostakovich se impõem musicalmente como obras-primas. A primeira, que apontou o caminho para o romantismo musical do século 19; e a segunda, uma das mais instigantes entre suas 15 sinfonias, apesar de certo abuso na repetição de uníssonos nas cordas. Ashkenazy, inspiradíssimo, e seus músicos empenhados construíram uma interpretação idiomática emocionante. Definitivamente, não teria sido necessário o ridículo extra com a Aquarela do Brasil.

Crítica: João Marcos Coelho

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