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Asas

Se o inseto do Kafka pudesse sair voando a história teria outro sentido. Ou mais um sentido, além de todos os outros

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S.Paulo

17 de novembro de 2019 | 01h30

Uma antiga controvérsia literária: em que tipo de inseto Kafka tinha, afinal, transformado Gregor Samsa, em A Metamorfose? Na história do Kafka, um dia Gregor Samsa acorda de um sono inquietante e se vê transformado num monstruoso... O que, exatamente? Convencionou-se que o desafortunado Gregor acordara transformado numa grande barata. Vladimir Nabokov concluiu que o inseto era um grande besouro, e estranhou que Kafka ignorasse que os besouros têm asas. Se o inseto do Kafka pudesse sair voando a história teria outro sentido. Ou mais um sentido, além de todos os outros. Nabokov dedica sua interpretação às pessoas que têm asas, mas não sabem. 

Entre as muitas interpretações de A Metamorfose a que Nabokov rejeita com mais desdém é a freudiana, segundo a qual a origem da história é a relação difícil do Kafka com seu pai, e seu sentimento de culpa. Freud era uma das principais antipatias de Nabokov. E elas não eram poucas. 

Metamorfoses atrás de interpretações, freudianas ou não, existem desde antes de Ovídio, na mitologia e na literatura. Num livro sobre o tema - chamado Fantastic Metamorphoses, Other Worlds - Marina Warner descreve, por exemplo, a transformação sofrida pela palavra e o conceito de “zumbi” através dos anos. Segundo Warner, “Zombie” apareceu em inglês pela primeira vez numa História do Brasil em três volumes escrita por Robert Southey e publicada na Inglaterra entre 1810 e 1819. Southey relata a revolta de escravos e índios contra os colonizadores, liderados por “Zombi”, que identificam com um Deus angolano, e que acaba barbaramente sacrificado no fim da revolta. 

Depois da derrota do “Zombi” descrito por Southey, que inspirou protestos e poemas na Europa, ganhou corpo a versão oficial de que “Zumbi” era o nome do Diabo na língua dos africanos, o primeiro passo para transformar o mártir não em herói venerável mas em assombração. De líder libertário de pessoas que preferiram morrer a ser escravos o nome foi lentamente se metamorfizando até significar um corpo vazio, sem emoção ou discernimento, a carcaça do que fora um dia. O zumbi de agora é o zumbi de então, vencido e eviscerado.

Numa palestra sobre A Metamorfose Nabokov não propõe nenhuma interpretação, pelo menos nenhuma com uma inegável marca pessoal. Nota certas reincidências no texto – como o número três (as três portas do quarto de Gregor, os três membros da família mais três empregados, os três hospedes com suas barbas) –, mas recomenda que não se dê muita importância à coincidência, que é mais técnica do que simbólica. A fantasia de Kafka tinha sua lógica, e o que pode ser mais lógico do que o velho trio, tese, antítese e síntese? Acima de tudo se deveria evitar qualquer mito proposto por seguidores do “feiticeiro de Viena”, que era como Nabokov chamava Freud. Para Nabokov, interpretações além da realidade do texto eram desnecessárias. Afinal, nós todos já tivemos a sensação de acordar, estranhamente, como Gregor Samsa. “Acordar como um inseto não é muito diferente do que acordar como Napoleão ou George Washington” diz Nabokov. E conta: “Um dia conheci um homem que acordou como o Imperador do Brasil”. Infelizmente, Nabokov morreu antes de poder desenvolver o personagem, que já estava pronto, com asas e tudo. 

 

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