As viagens de Camilo Pessanha

E se o poeta entender que a viagem à distante Ásia não tem como interesse maior a exploração geográfica de outro canto do planeta ou o conhecimento dos muitos povos exóticos? E se ela se lhe apresentar antes como estrada real para o exílio na península de Macau e condição sine qua non para a exploração sentimental e amorosa do potencial de vida cortado rente à raiz pela foice da Lusitânia natal? E se a língua chinesa, aprendida pelo poeta e por ele adotada no cotidiano, lhe servir para neutralizar o poder imposto pela dicção poética lusitana, inspirada na tradição greco-latina?

SILVIANO SANTIAGO, O Estado de S.Paulo

19 de fevereiro de 2011 | 00h00

A viagem a Macau será, então, porto de desembarque. No espaço do exílio, o poeta estica o elástico da coerência íntima e secreta, experimenta a liberdade absoluta e inventa a própria e original dicção poética. Longe da pátria, o poeta se vê estimulado a avançar com proveito e prazer a vida sentimental e amorosa que, a latejar no obscuro do desejo, deve ser a sua, é a sua, legitimamente. Poemas do exílio podem não ser poemas do lá. No país onde o poeta nasce e onde deveria viver até a morte, lá, ele não pode levar a cabo a vida que julga plena para si. Lá, não está sua pátria; lá, sua pátria não é.

Valho-me dessas considerações para formular o convite à leitura dos poemas de Camilo Pessanha (Coimbra, 1867-Macau, 1926) reunidos em Clepsidra (1920). Ninguém como o coimbrão Pessanha levou até as últimas consequências o conhecido lema tomado às Discussões Tusculanas, de Cícero: "Ubi bene ibi patria" (na tradução de Paulo Rónai: Onde me sinto bem, lá é a minha pátria). Louvemos a Ateliê Editorial por nos entregar a primeira edição brasileira de Clepsidra. O livro recebeu apresentação criteriosa e notas indispensáveis do professor e poeta Paulo Franchetti.

A minguada e notável produção poética de Camilo Pessanha nasce, se alimenta e sobrevive das revelações que lhe propicia "a luz de um país perdido". Pessanha viaja à antípoda Macau para desfrutar a vida e a poesia dos seus sonhos. Dele disse Fernando Pessoa: "descobriu-nos a verdade de que para ser poeta não é mister trazer o coração nas mãos, senão que basta trazer nelas os simples sonhos dele". A vida profissional em Macau é a mesma que teria levado em Portugal. Continua a ser o que pode ser: um pequeno funcionário a viver às expensas do Estado. Mas na prática da poesia, interessa-lhe dar vida à vida dos sonhos seus. Repete-se a si em tamanho que transgride e ultrapassa os limites existenciais e poéticos propiciados pelo cotidiano português. O biógrafo Antônio Dias Miguel observa que a vida alucinada no exílio serviu-lhe para que aprofundasse, pela repetição em diferença, traços abusivos já existentes no comportamento europeu. Em aguda percepção, Dias Miguel esclarece-nos que o uso do ópio "corresponde não a um vício adquirido[EM MACAU], mas à sublimação, ou melhor, à transparência de outros que já em Portugal o caracterizavam, como o hábito de beber e o completar-se através de uma vida nova toda artificial".

Sob a luz do país perdido, a "lânguida e inerme" alma do poeta se recheia e transparece completamente. Ela passa a "deslizar sem ruído" e a "no chão sumir-se, como faz um verme". O ópio suplementa o álcool, propiciando a plena realização "de uma vida nova toda artificial". Sobre esse tópico e a contrapartida no cotidiano como "spleen", há que buscar seu artífice na poesia ocidental, Charles Baudelaire. Em tradução de Ivan Junqueira, leiamos versos de As Flores do Mal: "O ópio dilata o que contornos não tem mais, / Aprofunda o ilimitado, / Alonga o tempo, escava a volúpia e o pecado, / E de prazeres sensuais / Enche a alma para além do que conter-lhe é dado".

A poesia de Pessanha toma ao pé da letra a pergunta sugerida em Baudelaire: Como encher a alma para além do que lhe é dado conter? Nos desvarios existenciais e poéticos, ir além significa permanecer aquém no plano do dia a dia. Não é, pois, estapafúrdio registrar que os chineses de Macau, segundo informação de Danilo Barreiros, tinham o poeta drogado a caminhar pelas ruas na conta de "pune-tic-iane-mean" (literalmente: homem da meia-vida). Igualavam-no ao albatroz, ave migradora moldada também em meias-vidas e figura tipicamente baudelairiana. Ao zanzar descompassado pelo convés do navio, o albatroz desperta o escárnio dos marinheiros por as longas asas brancas e celestiais camuflarem pernas trôpegas e patas grosseiras.

A não ser por alguns poucos poemas, de que é destaque o díptico San Gabriel, Pessanha é o menos imperial dos poetas portugueses viajantes. Refiro-me a gigantes como Camões, Fernando Pessoa e Jorge de Sena. Destaca-se como contemporâneo do sinólogo Ernest Fenollosa, autor de The Chinese Written Character as a Medium for Poetry (1918). Admirado por Ezra Pound, Augusto e Haroldo de Campos, Fenollosa funda a relação entre ideograma chinês e linguagem poética moderna. A respeito de tradução de poema chinês, Pessanha escreve: "A melhor elegância manda, na poesia chinesa, suprimir quase completamente as palavras designativas das relações lógicas, imprimindo assim mais vivamente, é certo, na imaginação de quem lê as ideias concretas adotadas pelo autor como símbolos poéticos". A observação crítica de Pessanha fundamenta sua inovadora composição em parataxe. Poderia ter fundamentado o paideuma poundiano e o Plano Piloto para Poesia Concreta. Triste Macau!

Lamentavelmente, as traduções de poesia chinesa assinadas por Pessanha se perderam no tempo e no espaço. Ao fim do século 20, o poeta moçambicano Rui Knopfli retoma a experiência. Em 1980 publica O Livro Melancólico de Tao Li. Rui nos informa que Tao Li é o mesmo T"ao Lei, a que Ezra Pound se refere. Seu perfil ilumina o de Pessanha: "Tao Li é poeta menor do final da dinastia Tang e que, tendo gozado de certo favor na corte, por mulherengo e quizilento, acabou por ser banido e desterrado, terminando seus dias no exílio". Escolho três versos dele: "Atardo-me a olhar meu companheiro único, / o fogo, mas seu verão fictício / não se espelha no meu inverno". O fogo, verão fictício a não se espelhar no inverno do poeta. Puro Camilo Pessanha.

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