As várias verdades de Pirandello

Assim É (Se lhe Parece), que chega às livrarias em nova tradução, mostra como o autor se antecipou a Beckett ao tratar de temas como a dissolução das identidades sociais e a dificuldade de comunicação

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

18 Junho 2011 | 00h00

Ao enviar sua peça Assim É (Se lhe Parece) ao diretor Virgilio Talli, o dramaturgo italiano Luigi Pirandello (1867-1936) definiu-a como uma parábola original e ousada, "tanto em sua concepção como em seu desenvolvimento". Agora editada em nova tradução pela Tordesilhas, a peça - que certamente não deve ser a primeira versão de 1917, mas a modificada por ele e publicada em 1925 - é uma parábola à maneira bíblica, adaptada à experiência existencial de Pirandello. Ele viveu, de fato, uma situação semelhante à retratada em cena, sendo moralmente julgado pela internação de sua mulher numa clínica para portadores de distúrbios mentais. Em ambos os casos, o de Pirandello e os dos personagens da peça - cuja sanidade é colocada em dúvida -, a conclusão de tal parábola conduz o espectador a um beco sem saída, o da impossibilidade de existir uma visão única da realidade. Esse é um tema caro a Pirandello, que o exploraria mais tarde em seu último romance, Um, Ninguém e Cem Mil (1926), lançado aqui em 2001 pela Cosac Naify.

O drama do banqueiro Moscarda no livro é também o dos protagonistas de Assim É (Se lhe Parece), cuja identidade é afetada pela maneira como são socialmente vistos - imagem que não corresponde àquela que o espelho reflete para eles, o que justifica sua presença no palco como um elemento de cena metafórico, usado pelo alter ego do autor, Laudisi, espécie de advogado do diabo na questão que envolve o novo secretário do prefeito de uma cidade provinciana, Ponza, e sua sogra Frola. Idosa, ela teria perdido a filha, segundo o genro, que se casou de novo e vive num outro apartamento com a mulher, que Frola julga ser sua filha, acusando Ponza de a manter trancafiada. Ele se defende, argumentando que a sogra insana confunde sua segunda mulher com a filha morta, provocando a curiosidade dos abelhudos habitantes da província, entre os quais o comissário de polícia, encarregado de esclarecer o caso.

Como todos os homens são obrigados a assumir papéis diversos na vida, acabam perdendo a identidade e a própria essência, parece dizer Pirandello, resumindo a questão no título do seu último romance: sendo um e cem mil, somos ninguém. Seria um impasse beckettiano, não fosse Pirandello precursor do teatro existencialista do irlandês Samuel Beckett (1906-1989). É pela negação que se atinge o ideal ascético e o autoconhecimento, já que é impossível conhecer o outro - portanto, a verdade absoluta. Esse relativismo, que conduz à frustração, produz efeito nefasto nas relações, como prova o dramaturgo em Assim É (Se lhe Parece). Vive-se a ficção do outro e a de si mesmo, uma vez que criamos uma autoimagem quase sempre falsa. Verdade ou não, corre a história de que Einstein, após assistir a uma encenação de Seis Personagens à Procura de Um Autor, teria dito a Pirandello serem ele e o escritor "almas gêmeas" - e, com certeza, o relativismo moral de Pirandello tem muito a ver com a teoria física da relatividade. Se o dramaturgo devia algo à filosofia do século 19, em especial a do poeta e crítico inglês Matthew Arnold (1822-1888), o físico alemão aprendeu com a arte que a verdade e valores morais não são absolutos.

O filósofo Renato Janine Ribeiro, ao apresentar a nova tradução da peça, lembra que a inexistência de uma verdade objetiva talvez seja uma ideia anterior mesmo à filosofia de Matthew Arnold, tendo marcado sobretudo os autores do período barroco, que lidaram com o conceito de maneira pragmática, fazendo da interpenetração teatro-realidade o mote de obras-primas, como as de Calderón de la Barca. O crítico literário Alcir Pécora, no posfácio, observa que vida e palco, efetivamente, se cruzam quando se pensa na mulher de Pirandello, Antonieta Portulano, que, ao manifestar sinais de desequilíbrio psíquico e acusar o marido de incesto com a filha, foi internada e passou os últimos 40 anos de sua vida numa clínica. Em certa medida, a senhora Frola tem algo de sua debilidade. No epílogo, abraçada ao genro e sua suposta segunda mulher, diz apenas que "Eu sou aquela que se crê que eu seja", selando para sempre, segundo Pécora, "o mistério ou o sonho de uma verdade única".

Há ainda na peça uma crítica enérgica ao positivismo do século 19, especialmente nas aparições de Laudisi, que se dirige ao público como um personagem ambíguo, que toma o lugar do autor para criticar a moral burguesa, a busca inútil de uma verdade redentora, de fatos, de documentos, de uma identidade tragicamente perdida. Esse é o tema predominante do teatro de Pirandello. Seja em Assim É (Se lhe Parece) ou Vestir os Nus (1923), em que a protagonista tenta afirmar sua identidade assumindo várias personas, ou até mesmo em Henrique IV (1922), em que um insano se projeta como um rei medieval, o conflito entre o que se é e o que gostaríamos de ser leva à dissolução inevitável da identidade. A crise do homem, que parecia histórica no século 19, torna-se, finalmente, existencial com Pirandello, como afirmou o ensaísta e político italiano Leonardo Sciascia (1921-1989), autor de um ensaio sobre o dramaturgo e sua relação com a Sicília, terra natal de ambos.

Para Sciascia, Pirandello teria feito da Sicília "o grande teatro do mundo", ao usar sua cultura e tradições metamorfoseadas no palco, incluindo aí certo heroísmo religioso que nada tem a ver com a igreja institucionalizada, mas com um cristianismo primitivo, com sua essência evangélica. Sciascia também alude nesse ensaio aos dois pilares do edifício literário de Pirandello - Montaigne e Pascal, destacando o papel da cultura francesa na sua formação. Para o autor de O Dia da Coruja, o século 20 deve, sim, muito a Proust, mas mais ainda a outros três escritores, capazes de traduzir a inquietude, a angústia e o medo do homem contemporâneo: Kafka, Pirandello e Borges.

Aos que insistem em associar Pirandello a uma etnia - no caso a siciliana -, Sciascia comenta que, em 1932, Emilio Cecchi, empenhado em transpor para o cinema sua novela Lontano, insistia que se tratava de uma história sobre o conflito de um marinheiro norueguês encerrado numa ilha habitada por gente estreita. Pirandello, em carta, responde a Cecchi que não se trata do contraste entre duas civilizações, mas, antes, do conflito de um homem que se sente distante dos próprios vizinhos, da mulher e do filho. Não era e nunca foi a intenção de Pirandello a de pintar a Sicília como uma cultura inferior ou bárbara. O mesmo se pode dizer da comunidade de Assim É (Se lhe Parece). Embora igualmente estreita, ela não é muito diferente do resto do mundo que Pirandello conheceu.

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