As trilhas de Euclides revisitadas

O fotógrafo Araquém Alcântara prepara livro que registra mudanças na paisagem de Canudos

Antonio Gonçalves Filho, de O Estado de S. Paulo

25 de outubro de 2009 | 04h39

Araquém Alcântara clicou a deserfiticação do agreste  Foto: Divulgação

 

 

Muitas das grandes ruínas que hoje decoram os desertos e florestas da Terra, diz o jornalista e historiador inglês Ronald Wright, "são monumentos à armadilha do progresso". Olhando a foto acima, de autoria do fotógrafo catarinense Araquém Alcântara, de 57 anos, a frase de Wright torna-se ainda mais assustadora por essa ruína estar bem diante dos nossos olhos, uma lápide da civilização que um dia se chamou nordestina. O sertão não virou mar, mas está em vias de se transformar num imenso deserto em função da dinâmica cultural que tem aproximado cada vez mais a erosão de suas terras à aridez que consome a urbe. Ainda assim, em alguns pontos isolados, a beleza arcaica de um mundo anterior a essa queda pode ser vista, como atestam outras 90 imagens do fotógrafo para o livro de fotografias Sertão Sem Fim, patrocinado pela Qualicorp e que será lançado em dezembro com apoio do Estado.

 

 

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Decidido a registrar as transformações do cenário onde se deu a tragédia de Canudos, contada por Euclides da Cunha no clássico Os Sertões (1902), cujo ponto de partida está numa série de reportagens escrita para o Estado, Araquém, autor do livro de fotografias sobre natureza best-seller no País, Terra Brasil (Ed. DBA/Melhoramentos, 1997, 80 mil exemplares vendidos), peregrinou por oito Estados brasileiros em busca dos vestígios de um mundo perdido no tempo. Ficou impressionado com o que viu, quase tanto como Euclides, que identificou a origem da tragédia sertaneja na questão da terra - da violência do latifúndio ao forçado êxodo a que estão condenados muitos milhares de brasileiros, isolados pela seca, pela ignorância e pela indiferença da civilização urbana, orgulhosa de seu progresso e esquecida de que as cidades do passado sucumbiram justamente por causa dele, não suportando a carga ambiental.

 

No sertão, Araquém descobriu que as vestes são uma espécie de segunda pele contra a natureza hostil que expulsa o homem, protegido no gibão de couro de bode curtido e apertado no colete como um enforcado à beira da apoplexia. Guerreiros cansados, envergam suas armaduras não como antigamente, observa o fotógrafo, "mas como uma forma de dizer que essa ritualística tenta preservar uma tradição condenada". Hoje, os vaqueiros usam motocicletas para conduzir o gado. Vilarejos próximos das cidades estão contaminados por signos de consumo, poluindo platibandas com cartazes publicitários. Sucumbiram, enfim, à uniformização cultural imposta pelo progresso, que exige que todos falem a mesma língua e tenham o mesmo comportamento.

 

"Apesar disso, a religiosidade do sertanejo persiste", observa Araquém. Ele registrou dois penitentes que fazem lembrar a via-crúcis do humilde Zé do Burro em O Pagador de Promessas. Na trama da peça que lhe deu origem e no premiado filme homônimo, Zé do Burro caminha 42 quilômetros com uma cruz nos ombros, do sertão baiano a Salvador, para cumprir uma promessa a Santa Bárbara. Já um dos penitentes de Araquém, Pedro da Cruz, saiu de Caruaru curado de uma trombose. O fotógrafo encontrou-o em Bom Jesus da Lapa, caminhando 10 quilômetros por dia e ajudado por outro peregrino em sua missão de carregar a cruz. Já em Itiúba, na Bahia, conheceu um novo Antônio Conselheiro, Adebaldo de Jesus, que, marcado por uma visão epifânica, saiu pela caatinga pregando o evangelho com um coração eucarístico preso ao peito.

 

 

Os cavaleiros do sertões acossados entre a tradição e a cultura da urbe Foto: Divulgação

 

 

 

Euclides da Cunha diria que o "misticismo feroz e extravagante" desses seres isolados, que se perdem na turba de "neuróticos vulgares", tomou conta de Pedro e Adebaldo. Araquém discorda. Eles não deslizariam para a demência ou seriam replicantes do "falso apóstolo" Conselheiro, que Euclides chamou de paranoico. Adebaldo saiu do sertão, foi para a cidade, trabalhou num restaurante e retornou à terra. Segundo Araquém, nenhum deles se assemelha aos "gnósticos broncos" descritos pelo autor de Os Sertões. Adebaldo é articulado. Contradiz o perfil que Euclides fez do líder da revolta de Canudos, traçado como o de um emissário das alturas "desequilibrado, retrógrado e rebelde".

 

Encarregado de apontar o caminho da salvação para os pecadores, como lhe revelou a visão epifânica, o missionário Adebaldo é um dos personagens escolhidos pelo fotógrafo e autor do prefácio de Sertão Sem Fim, Eder Chiodetto, também curador da retrospectiva de Cartier-Bresson em cartaz em São Paulo, para integrar o livro. Chiodetto explica que a estrutura da obra segue o fluxo narrativo de sua viagem imaginária, cujo conhecimento do sertão é intermediado pelo olhar literário de um leitor de Guimarães Rosa e Euclides da Cunha. "Estabeleci essa narrativa onírica partindo justamente da terra, tomada por pedras rochosas e simetricamente dispostas como numa land art, introduzindo depois a figura do cavaleiro, que passa por vários lugares e experiências para formar sua ideia do sertão."

 

À medida que o livro avança, ele ganha a velocidade de um cavalo em disparada. Araquém observa que essa aceleração corresponde à rápida transformação cultural do sertanejo. "Em Serrita, Pernambuco, fotografei um vaqueiro orgulhoso que chamou os amigos, colocou sua melhor roupa, armou-se de bandeiras e posou como se cumprisse um ritual para não deixar morrer a tradição." Difícil mesmo foi entender a linguagem dos sertanejos isolados em vilarejos como Raso da Catarina, perto de Canudos, um "cipoal de caatingas que se emenda em si mesmo". Ali, a linguagem é a última fronteira de resistência contra a contaminação da urbe. O espírito de Conselheiro ainda ronda por lá.

 

 

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