DANIEL TEIXEIRA/AE
DANIEL TEIXEIRA/AE

As tilápias do rock'n'roll

Bem ao lado dos palcos que jogam no ar 700 mil watts de potência a cada show tem um pesqueiro. Pobres peixes...

Paulo Sampaio, O Estado de S.Paulo

12 de outubro de 2010 | 00h00

O proprietário da Fazenda Maeda garante que os peixes dos cinco tanques que ele mantém no local não ficam estressados com a vibração provocada pela quebradeira de grupos como Black Drawing Chalks e Linkin Park. "Eles até gostam, pensam que é comida", diz André Maeda, o sortudo.

 

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Passar a tarde perambulando pelo pesqueiro, que fica entre o palco dos shows e o camping, é uma experiência revolucionária. Percebe-se que o festival mexeu com o conceito de pescaria enquanto atividade relaxante. "As pessoas dizem que é preciso silêncio para pescar, mas não tem nada a ver", continua Maeda. "Os peixes aparecem de qualquer jeito."

Ao redor dos tanques, o público do festival não dá atenção nem aos peixes nem aos pescadores. "Ei, Rede Globo! Redeee Glooobooo!", grita o enfermeiro Márcio Coimbra, de 31 anos, enquanto vira de costas e abaixa a calça para o fotógrafo do Estado. "Olha o bundalêlêê!" O solitário desbunde de Coimbra não encontra muito eco, mas ele prossegue. "Aí, galeraaaa! Este é o melhor festival de rock do Brasil! Viva o Kurt Cobain!", diz o enfermeiro, que veio de Carambola (MG) e veste apenas um short multicolorido com a figura de Bob Marley.

Vinte dos 265 alqueires da fazenda são ocupados pelo pesqueiro, que abriga 70 toneladas de peixes submersos em 30 mil m² de espelhos d"água. Sem prestar muita atenção em Coimbra, um grupo de universitários que está logo ao lado não para de rir. De quê? De nada. O que esperam ver no festival? "Muita mulher pelada, véio", diz o estudante de engenharia mecânica Bernardo Donnard, de 25 anos. Raquel Rocha, de 22, que faz engenharia ambiental, reclama do preço da cerveja e diz que "este show só é sustentável para o dono". "Cinco reais por uma latinha é palhaçada!" Ela dividiu um marmitex de R$ 12 (com arroz, feijão, carne e abobrinha) com a amiga também estudante de engenheira ambiental Luiza Pessoa, de 21. "A gente detesta desperdício", diz Luiza.

Será que alguém ali associa o SWU ao festival americano Woodstock, de 1969? "Ahuahauhaa", reage o estudante de direito Vitor Biccas, de 23 anos. "Lá eles também cobravam R$ 15 de café da manhã?" Em relação aos sete minutos que a produção ambientalista estipulou de água para o banho, todos aplaudiram a iniciativa. "É tempo mais do que suficiente, e a temperatura da água é ótima", dizem.

Mais mochileiros. No final da tarde, aumenta o trânsito de mochileiros entre os tanques de peixes e o camping. Muitos passam bufando. "Acabamos de esperar quatro horas na fila da triagem. Não foi por falta de estrutura, foi de inteligência. Eles criaram uma fila para trocar o ingresso da internet, outro para pegar a pulseira. Pra que duas?", pergunta Marcela Tavares, de 35 anos, que veio com quatro amigos do Rio. A assessoria do SWU informa que o atraso na abertura dos portões no sábado, de apenas uma hora, "foi devido ao cuidado com a segurança do público".

Na sala de imprensa - que não é propriamente um pesqueiro, mas reverbera -, o som alto e abafado que vem dos fundos do palco parece atingir em cheio as terminações nervosas do tecido epitelial. Mas a maratona musical não é uma experiência nova para os peixinhos de Maeda. A fazenda já hospedou a festa rave XXXperience (outra pancadaria) e micaretas como a Carnafacul. "Eles estão acostumados", garante Maeda.

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