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As tardes lá de casa

Em uma faixa espremida do bagunçado paraíso dos brinquedos, uma mesa tentava ser o posto de trabalho de um pai que sabia precisar trabalhar

Ruth Manus, O Estado de S. Paulo

28 de agosto de 2016 | 02h00

Lá em casa as tardes eram longas, mesmo que a sedenta saída da escola fosse só às 17h. Eram longas como o quintal que se arrastava do portão verde até o quartinho. E dali, o longo quintal se transformava numa letra L, percorrendo a área de serviço e um cômodo zoneado pelos brinquedos de três irmãos, cujas idades oscilavam entre os 6 e os 14. Em uma faixa espremida do bagunçado paraíso dos brinquedos, uma mesa tentava ser o posto de trabalho de um pai que sabia precisar trabalhar mesmo fora do trabalho.

E era ali, em frente à janelinha que tentava arejar o gabinete improvisado do juiz que tanto se afligia com a morosidade do judiciário, que o L se transformava em U. Esta última lateral da letra harmonizava as janelas dos quartos com pequenas jardineiras bem cuidadas.

Depois de subir no banco de madeira para pegar a lata de farinha láctea e preparar o mingau grosso, que tinha o gosto bom de estar em casa, corria descalça para aquele quintal. Arremessava bolas para a casa dos vizinhos. Coloria ladrilhos pretos com giz branco. Puxava a mangueira para fingir que regava as plantas, enquanto molhava os pés, sentindo um prazer que se repetiu poucas vezes na vida. Atravessava os lençóis úmidos dobrados que repousavam no varal. Ouvia, encantada, meu irmão tocar sua guitarra. Olhava, encantada, minha irmã com a bola de vôlei. Queria ser como eles. Nunca fui. 

A noite parecia demorar para cair. E quando caía, os pés pretos de quintal e de infância, saltitavam até entrar no chuveiro. Precisava dar um chutinho na parte de baixo da porta do box, para não escorrer água para fora. A toalha ainda tinha capuz. O pijama era da loja do bairro, com vogais coloridas espalhadas. Os chinelos eu nunca colocava antes de ouvir minha mãe dizer que não acreditava que eu tinha acabado de sair do banho e já estava sujando os pés outra vez. Eu adorava que ela dissesse aquilo. Ainda adoro.

Depois do chamado da minha mãe, cumpria alguma tarefa na cozinha com meus irmãos. Espremer as laranjas do suco. Descascar os ovos de codorna. Amassar com o garfo as bordas dos pastéis. Meu pai colocava a mesa na cozinha. Os pratos ficavam em um armário bem longe dos talheres.

Sentávamos os cinco. A mesa era de pedra. Não havia cadeiras, mas os bancos do meu avô, dois de assento quadrado, três de assento redondo. Suco de laranja ainda não fazia mal à minha gastrite. Ainda não havia gastrite. Ainda eram 19h30. 

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