As sutilezas candangas do Sexy Fi

Grupo brasiliense apresenta disco peripatético, influenciado pela cidade, no projeto Prata da Casa do Sesc Pompeia

ROBERTO NASCIMENTO , O Estado de S.Paulo

16 de julho de 2013 | 02h11

A influência de uma cidade nas letras de um disco não é frequente nos tempos de músicos que habitam a internet tanto quanto suas próprias cenas. Mas no caso do Sexy Fi, grupo candango cujo processo criativo é um exemplo clássico da fragmentação pós-virtual de polos musicais, Brasília deixa sua marca. Ouça Roriz 2010, um deboche musical do bronzeado ex-governador da cidade, ou Plano: Pilotis, o retrato de um relacionamento afetado pelo transporte público do Distrito Federal (disponíveis no www.soundcloud.com/sexyfi) - dois casos em que a banda, que mostra seu disco de estreia hoje, no Sesc Pompeia, transforma o cotidiano do planalto central em pós-rock suave e sedutor.

A relação dos músicos com a cidade, alguns dos quais já se conheciam da banda indie Nancy, a prévia encarnação do Sexy Fi, é multifacetada. Camila Zamith, vocalista, morou em Brasília, onde formou o Sexy Fi, mas mudou-se para São Paulo e continuou tocando o projeto virtualmente. "Para mim a cidade chega a ser claustrofóbica, mas os outros músicos gostam. Não há poluição, não há indústria, há uma falta de opção e um isolamento natural da forma como a cidade foi projetada que incentivam a criação de um trabalho", conta. Dilma, Niemeyer e Lúcio Costa têm lugar nas letras de Nunca te Vi de Boa, lançado no ano passado, mas a essência do Sexy Fi é tão atrelada a Brasília quanto ao intercâmbio virtual que dá origem às músicas.

Durante a criação do disco, Camila já morava em São Paulo e compôs com o guitarrista João Paulo Praxis via e-mail. Trechos de melodias tomaram corpo, ganharam letras e arranjos até a cantora passar dias esporádicos em Brasília para concretizar as músicas com Praxis, Ivan Bicudo (guitarra e teclados, Diogo Saraiva (baixo) e Márlon Tugdual (bateria).

Além disso, por obra da sorte, o guitarrista mandou um e-mail e conseguiu contratar John McEntire, baterista do lendário grupo de rock experimental Tortoise para produzir o disco. A gravação foi feita em Chicago sem a cantora, que ficou no Brasil por causa de problemas pessoais e mais tarde colocou as vozes. Embora os músicos tenham dito que McEntire pouco interferiu no som da banda, dá para ouvir a sua mão na produção do disco.

O resultado é uma leitura quase bossa nova de pós-rock (a vertente mais experimental do gênero) com influências de jazz e world music, que chamou a atenção de publicações internacionais como a Time e a NPR. Sexy Fi também foi chamada para participar do colossal festival de bandas independentes South By Southwest, em Austin, Texas, neste ano, mas não pôde ir por causa da gravação de um videoclipe. Para Camila, que já esteve no SXSW com Nancy, seria uma boa experiência, mas também é fácil gastar dinheiro com a viagem e voltar sem nenhum contato. O foco, por enquanto, está nos palcos brasileiros, onde a banda se reúne para fazer shows como o desta noite no projeto Prata da Casa, que destaca grupos talentosos, ainda no primeiro disco.

Enquanto não estão juntos, os músicos trabalham em empregos jornalísticos - Camila faz a comunicação de um instituto cultural -, um lembrete da realidade de diversas bandas indie em 2013, que, apesar das condições da indústria, continuam produzindo. Em Nunca te Vi de Boa, esses dilemas profissionais encontram espaço na letra: "30 anos e ainda moro com meus pais", pontua Camila na faixa Pequeno Dicionário das Ruas.

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