As Suplicantes inicia a temporada de 'Ésquilo'

"Para que tudo permaneça igual, é necessário que tudo mude." Essa era a crença do protagonista de "O Leopardo", na cena que Visconti tornou célebre no cinema. Com o tempo, a frase ganhou ares de axioma. Mas é possível que seu oposto também faça sentido. Não temer deixar tudo igual para que alguma coisa, por fim, se transforme.

MARIA EUGÊNIA DE MENEZES, Agência Estado

08 de junho de 2012 | 14h40

Em "Peep Classic Ésquilo", projeto que a cia. Club Noir estreia nesta sexta-feira, as marcas do teatro do diretor Roberto Alvim seguem intocadas. Como em suas montagens recentes, as ações se passam sob luz rarefeita. A movimentação dos atores é contida, quase inexistente. As atenções estão voltadas para as palavras: suas formas de elocução, a capacidade que possuem de instaurar climas e estados mentais. É dentro desse cenário de aparente constância, sem o afã da novidade, que o encenador tenta avançar.

Sob a capa da estética minimalista, despontam novas inquietações. Criada em 2006, a Club Noir surgiu com o propósito de investigar dramaturgias contemporâneas. Desta vez, o grupo voltou mais de 2000 anos no tempo. Foi buscar na origem da tragédia o prelúdio de uma arte anterior à civilização que conhecemos hoje. "Ésquilo é o único autor pré-socrático de que temos notícia. Sua obra não tem um caráter civilizatório e a visão de Aristóteles, da tragédia como meio de catarse, não faz sentido aqui", crê o diretor.

A montagem de "As Suplicantes" abre uma programação que compreende toda a obra dramática do escritor grego. Até dezembro, serão encenados outros cinco textos: "Os Persas", "Sete Contra Tebas", "Prometeu", "Oresteia 1" e "Oresteia 2".

São histórias que lidam com temáticas distintas. Podem dar conta de ambições individuais, como acontece em "As Suplicantes" e em "Prometeu". Ou adquirir contornos épicos, caso de "Os Persas", que se debruça sobre a guerra e o destino do povo grego. "Mas o importante não são propriamente as narrativas e sim o campo de forças mobilizado pelos atores em cena", diz Alvim.

Eis a justificativa para a utilização de um único cenário, que se mantém inalterado nas seis peças. O estilo do encenador, discípulo do francês Claude Régy, atinge certo paroxismo. Em cena, existe uma única lâmpada, constantemente acesa. Não há trilha ou efeitos sonoros. A cada título, mudam os intérpretes. Mas não importa qual seja a configuração do elenco, todos estarão dispostos em uma forma geométrica, cuja inspiração vem da tela de Kazimir Malevich, "Quadrado Negro Sobre Fundo Branco".

Também norteia a leitura do Club Noir a filiação de Ésquilo ao pensamento de Heráclito, filósofo que defendia que tudo está em constante estado de mutação. Nas tragédias montadas por Alvim, merece relevo a ideia de instabilidade. "Não é à toa que se volta ao Ésquilo justamente agora", lembra o diretor. Se a contemporaneidade pôs sob suspeita a onipotência do homem e ressaltou sua fragilidade, a obra esquiliana não faz diferente. "Caem as ilusões de controle sobre a vida, as coisas e até sobre si mesmo", considera Alvim.

Curioso que Ésquilo seja hoje reabilitado pelos mesmos motivos que solaparam a sua tragédia. Eurípides condenou esse seu antecessor pela dose de inconsciência que pautava a construção de sua ficção. Mas quem atualmente renegaria o autor por trazer à tona o lado escuro de cada um, o não apolíneo, o descontínuo? O mundo instável nos deu novos olhos para ler sua tragédia. Ésquilo permaneceu o mesmo, mas conseguiu tornar-se outro.

Peep Classic Ésquilo

Club Noir (R. Augusta, 331).

Tel. (011) 3255-8448.

6ª e sáb., 21 h; dom., 20 h.

R$ 20 /R$ 10

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