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As simplórias imagens de Amagatsu

Enfileiradas de forma simplória, linhas e formas esvaziadas compõe a coreografia ‘Umusuna’, exibida em São Paulo

Helena Katz - Especial para o Estado, O Estado de S.Paulo

16 de outubro de 2013 | 21h22

Em tempos em que a arte vê-se apertada na moldura que a reúne ao entretenimento, a regulação da sobrevivência não escapa muito disso. Quem acompanha a trajetória do grupo Sankai Juku talvez encontre aí uma das chaves para compreender a longevidade do seu sucesso.

Fundado em 1975 por Ushio Amagatsu, o grupo surgiu e projetou-se na esteira do impacto que o butô causava. De lá para cá, a violência que singularizava aqueles corpos magros, de cabeça raspada e pintados de branco, que faziam da lentidão uma necessidade, foi sendo transformada em marca publicitária. Amagatsu identificou um potencial naquela estranheza e, em vez de dedicar-se à contundência de uma dança que se radicalizava, ficou detido na aparência. Escolheu especializar-se em explorar uma estetização de linhas e formas esvaziadas, e o fez com uma habilidade que transformou em sedução visual os ingredientes que escolheu.

A fórmula que foi aprimorando está clara em Umusuna, Memórias Anteriores à História, que estreou na Bienal de Dança de Lyon no ano passado e foi apresentada no final de setembro em São Paulo. Responsável pela direção e concepção das coreografias da companhia que criou, Amagatsu especializou-se em produzir cenografias impactantes. Nelas, o espaço é delimitado e circunscreve um mundo sempre organizado, no qual nada escapa ao controle.

Chega a ser surpreendente o seu apetite para ‘coisificar’ os componentes que reúne com sensibilidade publicitária. Além da sua função principal de ‘criadoras de clima’, as músicas são usadas como estímulos para uma ‘visualização do sentido’ do que está ocorrendo. Anunciando os inícios e finais das cenas, vão sublinhando que a variação entre a velocidade e a intensidade dos três filetes de areia que caem o tempo todo devem querer dizer algo sobre a passagem do tempo.

Alinhavado com imagens assim simplórias, Umusuna enfileira com igual superficialidade as criaturas que o povoam, fazendo-as sair e voltar para a areia, que deve materializar o mundo que as produz. Assim como aprendemos a identificar os valores que sustentam a “família margarina”, também sabemos identificar o “zen Sankai Juku”. A fabricação de ambos partilha de uma assepsia que retira qualquer traço de tensão.

No que se refere ao zen transformado em produto de consumo, há um detalhe importante: o projeto de iluminação é relevante, pois realiza um processo de higienização que reduz a complexidade típica de toda tradução cultural a uma coleção de efeitos.

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