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As sete Brasílias possíveis e sonhadas

Sai estudo sobre histórico concurso do plano piloto; livro de fotos de Beto Barata mostra capital debaixo d'água

Camila Molina, O Estado de S. Paulo

16 de outubro de 2010 | 06h00

Há um "relato mitologizante" de que a filha do arquiteto e urbanista Lucio Costa (1902-1998) tenha entregado nos últimos dez minutos do Concurso Nacional do Plano Piloto da Nova Capital do Brasil (realizado entre setembro de 1956 e março de 1957) pranchas de seu pai com "rabiscos toscos feitos a lápis de cor, pequenos desenhos a nanquim e um texto batido a máquina". Mesmo assim, seguindo o fio dessa história, o presidente do júri, sir William Holford, teria se esforçado para entender aquelas garatujas e palavras até exclamar que eram, afinal, "a maior contribuição urbanística do século 20!" Lucio Costa venceu o concurso e juntou-se ao arquiteto Oscar Niemeyer no projeto de concepção de Brasília, a capital federal construída no Centro do Brasil e que agora completa 50 anos.

 

 

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A efeméride do aniversário da cidade, que teve exatos 3 anos e 17 dias de construção até ser oficialmente inaugurada em 21 de abril de 1960, provoca inevitavelmente, neste momento, homenagens e reflexões. Uma das contribuições sobre a história e o projeto da capital federal, marco da arquitetura moderna, é o livro O Concurso de Brasília: Sete Projetos para Uma Capital, que o arquiteto paulista Milton Braga lança hoje, a partir das 11 horas, no Museu da Casa Brasileira. O lançamento começa com debate em que participam o autor e ainda o arquiteto e urbanista Guilherme Wisnik e o fotógrafo Nelson Kon, respectivamente, responsáveis pela edição e apresentação da obra e por ensaio fotográfico sobre a capital feito especialmente para a publicação.

 

O livro, coedição Cosac Naify, Imprensa Oficial do Estado e Museu da Casa Brasileira, foi feito a partir da dissertação de mestrado defendida por Milton Braga, em 1999, na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP. Mais do que contar a história do concurso do Plano Piloto da Capital do Brasil e trazer a público o edital, atas e documentos da iniciativa, a publicação apresenta e analisa as "Brasílias possíveis" por meio dos sete projetos premiados na ocasião. Além da proposta do Plano Piloto criado pelo vencedor Lucio Costa, estão as cidades projetadas pelos escritórios de Boruch Milmann; Rino Levi; M.M.M. Roberto; Henrique E. Mindlin; Giancarlo Palanti; Vilanova Artigas e Milton C. Ghiraldini (Construtécnica). Na época, o concurso recebeu 26 projetos.

 

Imagem de Brasília registrada pelo fotógrafo Nelson Kon. Foto: Divulgação

 

Pioneiro. Segundo Milton Braga, sua pesquisa é considerada a primeira dissertação feita especificamente sobre o Concurso Nacional do Plano Piloto - depois de seu trabalho, vieram outros a completar o estudo do evento (tanto que o próprio Museu da Casa Brasileira apresentou este ano exposição com planos desenhados para Brasília a partir de pesquisa do arquiteto Jeferson Tavares). O marco para o trabalho de Braga foi 1993, quando o arquiteto participou de organização de mostra sobre "Cidades Novas" realizada para a 2.ª Bienal de Arquitetura de São Paulo. "O material apresentado para o concurso está perdido, talvez esteja no porão de alguém", diz.

 

Dos projetos urbanísticos que ele estudou, apenas se tem os desenhos originais da proposta de Lucio Costa. Para analisar os outros seis projetos premiados, o autor teve de se valer de reproduções das pranchas publicadas em revistas da época e cópias de desenhos. As "outras Brasílias", então, estavam "obscurecidas pelo tempo", como afirma Guilherme Wisnik, que teve a ideia de fazer o livro, em seu texto de apresentação. Ficaram escondidas desde 1957, ele ainda escreve, pela falta de arquivos públicos, desorganização de escritórios e famílias de arquitetos e falta de tradição em pesquisa na área.

 

Em seu trabalho, Milton Braga não se detém nas polêmicas que envolveram o concurso que, na época, foi acusado de ter edital que favorecia Lucio Costa. Mas hoje, numa análise para o Estado, Braga afirma que o Plano Piloto vencedor é realmente o "mais acertado". "Lucio Costa criou uma cidade que pode manter sua essência e se atualizar", afirma. Ao mesmo tempo, o autor ainda destaca os projetos dos irmãos Roberto, que seria o de uma "construção muito original", com unidades circulares e de "defesa da vida em pequena escala", e de Rino Levi e equipe, uma proposta de "cidade muito verticalizada", porém, "definitiva".

 

 

Fotografias da capital debaixo d'água

 

No projeto Brasília Submersa, o fotógrafo Beto Barata apresenta um outro olhar sobre a capital federal - a vida da cidade debaixo d’água, no Lago Paranoá. Luiz Alberto Cortes Silva, conhecido como Beto Barata, vive e trabalha em Brasília e quis desbravar um desafio profissional em sua vida, o de fazer fotografias subaquáticas. O resultado direto é um livro, que o fotógrafo acaba de lançar, e uma exposição que apresenta atualmente no Anexo do Museu Nacional da República, na Esplanada dos Ministérios.

 

"Sou bastante realizado como profissional, mas não estava satisfeito com o tipo de fotografia que estava fazendo", diz Barata, de 41 anos e desde 2001 na Agência Estado - em sua carreira, ainda, teve passagens pelos jornal Correio Braziliense, pela publicação The Brazilians e na agência Eclipse Photo (ambas nos EUA) e pela sucursal de Brasília da Folha de S.Paulo. A partir de aulas de mergulho na capital federal, onde nasceu e vive, ele fez fotografias, durante um ano, desde agosto de 2009, por quatro cantos do Lago Paranoá - Raia Norte, Raia Sul, barragem e Vila Amaury. "Não fiz o lago inteiro, mas foram cerca de cem mergulhos, geralmente, entre as 10 da manhã e 3 da tarde, aproveitando o período do meio-dia, quando o sol está a pino e se tem luz melhor debaixo d’água", conta.

 

Arqueólogo. Dessa experiência, Beto Barata não consegue nem contabilizar quantas imagens clicou em suas viagens pelo Paranoá. Encontrou muitos peixes, mas não foram eles o motivo principal que procurava para suas fotografias. "Em alguns momentos, me sentia como um verdadeiro explorador da Grécia antiga porque encontrava vestígios de moradias, de construções, pratos, xícaras e até vasos sanitários", conta o fotógrafo. Esse "trabalho de arqueólogo" aconteceu, principalmente, na Vila Amaury e na área da barragem, em que se podem ver madeiras e restos da construção da capital federal, inaugurada há 50 anos.

 

Das tantas fotografias que Beto Barata realizou em seus mergulhos, foi difícil fazer a seleção para exibir ao público. No livro Brasília Submersa estão 106 imagens e na exposição homônima, em cartaz no Museu Nacional da República até 5 de novembro, 51 fotos. A empreitada, patrocinada pelo Fundo de Apoio à Cultura (FAC) e realizado pela Photo Agência e pelo museu que faz a mostra, se completa ainda com o blog projetobrasiliasubmersa.blogspot.com.

 

Brasília Submersa, em livro, tem, além das fotografias de Beto Barata, apresentação do poeta e jornalista Luís Turiba, textos da jornalista Clara Arreguy e projeto gráfico de João Campello. Já a mostra foi feita com curadoria de Eraldo Peres (a partir de pré-edição fotográfica de Marri Nogueira) e cenografia de Luciana Nunes Heringer. A publicação pode ser adquirida tanto no Museu da República quanto por meio do blog.

 

Debate

Museu da Casa Brasileira. Avenida Brigadeiro Faria Lima, 2.705,

telefone 3032-3727. Sábado, 16, às 11h (lançamento às 12h30).

 

O Concurso de Brasília: Sete Projetos Para Uma Capital

Autor: Milton Braga. Editora: Cosac Naify (288 páginas e 230 ilustrações). Preço: R$ 79,00

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