As séries históricas do escultor Richard Serra

Norte-americano é considerado o artista vivo mais importante em sua área de atuação

Antonio Gonçalves Filho, Rio - O Estado de S. Paulo

27 de maio de 2014 | 03h00

Considerado o mais importante escultor vivo em atividade no mundo, o norte-americano Richard Serra participa nesta terça, 27, no Rio, de um debate com o crítico Michael Kimmelman, no fórum Arq. Futuro, e abre na quinta-feira, 29, no Instituto Moreira Salles (IMS/RJ), uma exposição com 96 desenhos selecionados pelo próprio artista. Serra, que, aos 75 anos, acaba de instalar no deserto do Qatar sua segunda maior obra pública no Oriente Médio, faz da mostra brasileira uma retrospectiva de dimensões "domésticas", embora ocupe toda a casa onde morou o embaixador Walther Moreira Salles (1912-2001) – o que não é pouco, considerando a área do prédio modernista projetado em 1948 pelo arquiteto Olavo Redig Campos, cujo interior dialoga com os jardins desenhados por Burle Marx. Serra está em boa companhia. Dominando a área externa está uma escultura do brasileiro Amilcar de Castro, que igualmente "conversa" com a obra de Serra (desenhos incluídos).

No café do IMS carioca, ele recebeu o Estado após visita guiada em que mostrou uma nova série sobre a permutação de formas retangulares em preto e branco, ao lado de outras mais antigas, como a histórica Drawing After Circuit, feita com base na escultura Circuit, montada na Documenta de Kassel em 1972. Sobre ela, o artista revela que fez os desenhos para "entender" melhor a vista sequencial da escultura na mostra alemã, constituída de quatro placas que convidavam o espectador a circular da periferia em direção ao centro da peça. "Basicamente, esses desenhos me mostraram como o espaço se contraía, se comprimia."

Sem metáfora. Na série de desenhos mais recente, Courtauld Transparencies, apresentada pela primeira vez no ano passado, na galeria Courtauld de Londres, Serra recorre a um procedimento de sua juventude, quando costumava desenhar sobre o asfalto pressionando o papel e traçando as linhas com conté crayon (pó de grafite comprimido). "Aqui eu cubro duas folhas com crayon derretido e, entre elas, uma folha limpa que captura as marcas de ambas." Detalhe: Serra não faz desenhos preliminares para suas esculturas. Todos elas são obras autônomas, produzidas a posteriori. Serra tampouco usa cores. Nunca usou, garante, apesar da proximidade, na época de estudante, com o alemão Josef Albers (1888-1976), o pintor que mais estudou a interação cromática. "As cores estão carregadas de metáforas e emoções, enquanto o preto, que não reflete, mas absorve a luz, tem um peso, uma gravidade que me interessa de modo particular." (Serra é um cético, marcado pelo signo de Saturno.)

Associado à geração dos artistas minimalistas americanos dos anos 1960, cujo lema era "menos é mais", Serra libertou-se do rótulo, não identificando na escolha do preto e branco uma redução, mas o contrário, como mostra na referida série das formas retangulares permutáveis exposta no IMS, em que divide cada módulo em duas partes iguais. O conceito de positivo e negativo proposto pela interação entre elas sugere uma aproximação com a arte oriental – e ele admite que essa possa ser uma influência inconsciente. "Na verdade, embora resista a fazer um trabalho conceitual, creio que essa série de permutações entre o preto e o branco tenha a ver com a divisão de espaço derivada da arte oriental, uma vez que passei um tempo no Japão."

Em termos pictóricos, essa divisão espacial oriental pode ser identificada na tradição americana em telas de Barnett Newman e Robert Ryman, que Serra considera o pintor mais interessante de sua geração. No entanto, a ideia de uma passagem linear sugerida na sala das permutações é logo quebrada quando o espectador passa pelos corredores da casa e enfrenta os círculos feitos de bastão negro sobre papel Hiromi (série de 1999), que desorientam seu senso de direção. No Qatar, observa Serra, ele teve de abandonar qualquer ideia de criar obras com linhas curvas. "Passei meses estudando o que fazer quando me convidaram para produzir esculturas que seriam instaladas no deserto."

O resultado foi primeiro uma escultura chamada "7", ao lado do Museu de Arte Islâmica em Doha, Qatar, a mais alta já concebida pelo artista e considerada sua obra-prima. "Fiz torres a minha vida inteira, tenho feito isso há mais de 30 anos, mas esse foi um desafio imenso, pois ela, com sete placas de aço, quase 25 metros e instalada na ponta do píer próximo ao museu, teria de confrontar o panorama urbano artificial de Doha." Para a obra heptagonal, ele adotou como referência os minaretes do mundo islâmico, em especial os de Ghazni, no Afeganistão, construídos por Bahran Shah no século 12.

Tempestades. O "minarete" de Serra na capital do Qatar até que foi uma tarefa fácil, se comparado à obra seguinte encomendada pela jovem Sheika al-Mayassa Hamad bin Khalifa al-Thani, irmã do emir de Qatar e diretora do citado museu do parágrafo anterior. Considerada uma das mais poderosas figuras do mundo da arte, Sheika encomendou a Serra a escultura Oriente-Ocidente/Ocidente-Oriente, construída na Alemanha e instalada este ano no deserto de Qatar. "Quebrei a cabeça para conceber estruturas que resistissem às fortes tempestades de areia e pudessem ser vistas no deserto."

Acostumado a interagir com a arquitetura dos museus, como o de Bilbao, projetado pelo amigo Frank Gehry – onde está instalada a escultura The Matter of Time, que compete em escala com o prédio –, Serra teve de construir quatro gigantescas placas (quase totens) destinadas a ser consumidas pelo calor e o ar salgado do deserto. Elas logo ficarão da cor laranja e, depois, de ferrugem, como as esculturas de Amilcar de Castro. Ninguém sabe quanto tempo vão durar. Ainda que seja efêmera sua vida, a presença no deserto sinaliza um marco cultural do Ocidente no Oriente. Em todo caso, mais forte que a presença de Obama no Afeganistão. "Foi puro marketing político", analisa Serra, que se define como homem de esquerda.

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