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As seitas no labirinto

Tudo acabou? Você acha mesmo?”, surpreendeu-se B. 

MILTON HATOUM, O Estado de S. Paulo

14 de agosto de 2015 | 02h00

“Tenho quase certeza”, murmurou F., olhando as pessoas sentadas à mesa oval.

“Por causa de um punhado de traidores”, protestou B., socando a mesa.

“Não é preciso gritar. O que os amigos pensam da situação?”

Os amigos, calados, miravam tristemente a janela aberta. Uma palmeira, uma árvore desfolhada, o céu tão azul que parecia um espelho. 

“Eu temia isso”, lamentou F. “Os justos e honestos vão pagar pelos malfeitores.” 

“Construímos uma sociedade menos injusta”, disse B. “Mas honestidade, dignidade... Não eram esses os nossos sonhos, os nossos princípios?”

“Era isso que nos fazia diferentes dos outros”, opinou F. “Agora, os outros somos nós.” 

“Mas nós não somos os outros”, reagiu B., indignado. “Nem eu nem você... Nem todos os que estão reunidos aqui, nem os milhões de seguidores que nos apoiam e acreditam nos nossos princípios e ideais.” 

“Que nos apoiavam e acreditavam...”, corrigiu F., com uma voz mais serena que triste. 

“Para onde vão os nossos seguidores?”, disse B., olhando para a mesa. “E o que os nossos amigos pensam disso? Vocês perderam a voz? Estão mudos, cabisbaixos...” 

P. levantou o braço e pediu a palavra: 

“Nosso grupo deve fazer uma autocrítica e fundar uma nova seita”, ele disse com uma voz grave. 

“Mas isso leva tempo, exige muito trabalho e muitos recursos”, disse B. “Quando fundamos a seita, os recursos vinham do nosso salário e da contribuição generosa dos nossos seguidores. Nossa seita cresceu muito, virou um monstro incontrolável, e deu no que deu. A ambição...” 

“Não foi só a ambição”, interrompeu F. “Foi a doença do poder eterno, e também do roubo... O caráter de alguns líderes e adeptos da seita foi contaminado por essa doença. As outras seitas também agiram assim e estão enrascadas... Se os Gaviões se aliarem com a Seita das Hienas, será o caos.... Os Gaviões estão brigando entre si, as Hienas são mais astutas, apenas encenam uma discórdia... A Grande Hiena Macho que preside o ‘Convescote da Savana’ é um incendiário dos mais perigosos... Se os Gaviões morderem a isca das Hienas, estão perdidos... Mas o que não se faz para conquistar o Reino?”

“O Tribunal das Grandes Altitudes vai processar a Grande Hiena Macho”, disse P., falando pela primeira vez. “Esse presidente do ‘Convescote da Savana’ é um farsante, um chantagista intolerável, um impostor. Tem de ser condenado e...” 

“Você é otimista”, murmurou F. 

“Concordo com P.”, intercedeu B. “Vamos fazer uma autocrítica e fundar uma nova seita. Devemos ser rígidos com os nossos princípios, e intransigentes com os malfeitores...” 

“Você pensa que isso é possível?”, disse F., com um sorriso irônico. “Como controlar a administração de todas as Usinas do Reino? Como governar sem aliados? A seita mais honesta do Território será refém da desfaçatez.” 

A palmeira, a árvore e o céu perdiam o brilho, uma luminosidade embaçada cobria a sala. A grande savana escurecia. 

“Além disso”, prosseguiu F., “no nosso Território muita gente pede emprego... Parentes, amigos, sectários, membros das seitas aliadas, todos querem um cargo... Faz parte da nossa história, sempre foi assim... A Controladoria Geral do Território sabe que há bandalheira na maioria dos 5.570 condados... Seria preciso um número absurdo de operações para investigar e prender os malfeitores do Território. Sem contar que falta seriedade nos Tribunais das Baixas Altitudes. Todo o Território está contaminado... Os grandes e pequenos crimes do passado foram esquecidos... Não queremos vingança, e sim justiça. Sem justiça, quem mais sofre é o povo, os mais humildes. Agora, um bando de Gaviões e Hienas quer o caos... A gente também já fez isso. Foi um erro grave. Quem se aproveita do caos? As Hienas, sempre deslizantes, oportunistas e vorazes.” 

“Quem pode neutralizar as Hienas?”, disse B.

F. pensou um pouco, antes de dizer: 

“Por enquanto, ninguém. As Hienas se alimentam do embate entre os Gaviões e a nossa seita. O mais importante é acalmar os Gaviões mais exaltados. É preciso usar a razão na tormenta... De qualquer modo, nossa seita está desnorteada. A verdade é que todos nós, reunidos aqui, estamos atônitos... Os malfeitores nos arrastaram para o fundo da noite. Ah se tudo isso fosse somente um pesadelo! Mas não. Os olhos pesados da realidade foram abertos. Agora, há pedra por toda parte, e os parteiros da morte saíram do covil...”.

“Então estamos num labirinto?”, perguntou B., angustiado. 

“Com a exceção da Seita do Sol, todas as outras seitas entraram no maior labirinto do Território”, disse F. “O tempo... O tempo e história também fazem parte do ardil. Vai ser difícil e demorado encontrar uma saída desse labirinto.”

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