Cosac Naify/Divulgação
Cosac Naify/Divulgação

As sardas que viraram sarna

No seu livro Morango Sardento, ela fala sobre bullyingque sofreu quando tinha 7 anos

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

10 de outubro de 2010 | 00h00

Quem viu a linda atriz norte-americana Julianne Moore em filmes como Fim de Caso, Magnólia e, mais recentemente, em Direito de Amar, não imaginaria que ela foi segregada na escola primária por ser sardenta e ruiva. Frágil, magrinha e avessa a atividades físicas, a garotinha de 7 anos sentia-se como o menino dos cabelos verdes do clássico filme de Losey, uma marciana num mundo de terráqueos, ganhando um apelido deplorável dos coleguinhas, Freckleface Strawberry, algo como "cara de morango sardento".

Foi apenas aos 47 anos, isto é, há três anos, que Julianne resolveu ajustar as contas com o passado, escrevendo pela primeira vez sobre o bullying - como é chamado agora o ato de violência física ou psicológica na escola - de que foi vítima. E não o fez em forma de livro de autoajuda, mas como um bem-humorado livro infantil, Morango Sardento. Com ilustrações da desenhista vietnamita LeUyen Pham, que mora em São Francisco, o livro, lançado pela Cosac Naify, já tem até sequência, Freckleface Strawberry and the Dodgeball Bully, que deve chegar às livrarias brasileiras em 2011 como Morango Sardento e o Valentão do Recreio.

Julianne Moore, apesar dos papéis que representa no cinema - atriz pornô em Boogie Nights (Prazer Sem Limites, 1997), mãe incestuosa em Pecados Inocentes (Savage Grace, 2008), alcoólatra em Direito de Amar (A Single Man, 2009) -, é uma dona de casa comportada, que prepara o jantar dos dois filhos quando não está filmando e leva a dupla de diabinhos Caleb (12 anos) e Liv Helen (8 anos) até o estúdio de filmagem sempre que pode - e ela, quase sempre, escolhe papéis em filmes rodados nas férias escolares de verão para que isso aconteça.

Foi também pensando no DNA e nas sardas dos filhos que ela resolveu escrever Morango Sardento. Afinal, na escola, o assédio moral dos coleguinhas não se limitava ao apelido Morango Sardento. Julianne muitas vezes voltava para casa chorando após ouvir um "Você é suja" ou "Dá para cheirar essas pintas imundas?" Assim, quando Caleb completou 7 anos e a atriz percebeu mudanças no comportamento do filho - também por causa do bullying escolar -, ela decidiu que contar a história seria o meio terapêutico mais eficaz contra o trauma do garoto. Afinal, não há nada que crianças desejem mais do que parecer normais, fazer parte da turma. E é justamente o que quer a heroína de Julianne Moore, além de eliminar as benditas sardas que a separam dos coleguinhas.

Como o apelido Morango Sardento estava ligado à marca de um suco químico instantâneo que fazia muito sucesso entre os anos 1960 e 1970, o Funny Face, a protagonista de sua história tenta vários "tratamentos" para eliminar as sardas. Nenhum dá certo. O resultado é usar um desses capuzes com os quais os assaltantes roubam bancos. Só então os colegas de escola percebem sua ausência e a garotinha, enfim, descobre como é amada. Sobre ela e seu livro, a atriz, em sua entrevista exclusiva concedida ao Caderno 2, conta a razão de ter escrito Morango Sardento, traduzido para o português pela atriz Fernanda Torres com quarta capa assinada pela colega Débora Bloch, também sardenta, bela e ruiva como Julianne.

Seu livro Morango Sardento discorre sobre a aceitação da diferença e da afirmação da identidade. Por ser seu pai militar, você viveu várias experiências em lugares como Alasca, Paris, Alemanha e países sul-americanos. Considerando as demonstrações de intolerância na escola e fora dela, você acha que a sociedade norte-americana tem mais dificuldades para aceitar a diversidade?

Não, realmente não acho. Somos um país de imigrantes, de pessoas oriundas de várias partes do mundo. Não há jeito de "parecer americano" numa situação dessas.

Morango Sardento tem uma sequência, que deve ser publicada aqui no próximo ano. O que a levou a continuar a história da menina assediada pelos colegas por ser ruiva e cheia de sardas? Sua meta era evitar que seu filho não sofresse o que você sofreu por causa delas?

O livro, de fato, é continuação do primeiro e fala das coisas que aconteceram em minha infância. Tinha horror aos esportes e às atividades físicas, mas adorava histórias de terror e jogos de imaginação. Queria demonstrar que todo mundo tem medo de alguma coisa e que enfrentar seus medos pode ensinar a lidar melhor com eles.

Há dois anos você apareceu num filme chamado Pecados Inocentes, no qual representava o papel da mãe de um garoto perturbado e incestuoso - cheio de sardas, só para lembrar -, e fez pelo menos dois outros filmes em que a homossexualidade era o tema principal, Longe do Paraíso e Direito de Amar. A escolha desses papéis tem algo a ver com uma tentativa de enfatizar o tema do preconceito, seja contra sardentos ou gays?

Eu realmente acredito que somos todos mais semelhantes do que diferentes, a despeito de nossa aparência, nossa opção sexual ou nacionalidade.

Quando saiu a sequência de Morango Sardento, leitores americanos observaram que o epílogo do livro era um tanto inverossímil porque o garoto tirano Windy Pants Patrick, que agride a pequena Morango Sardento num jogo de queimada, acaba ficando amigo da vítima. Em tempos de bullying pela internet e na escola, em que não há tolerância com o diferente, o que você acha da moral de sua história?

De modo geral, as crianças que agridem foram também maltratadas ou têm medo mortal de alguma coisa. Obviamente, não são crianças felizes. É muito importante, então, entender a razão desse assédio, da agressão, para que possamos compreendê-los.

O que o jogo de queimada representou para você e o que ele representa para seu filho Caleb e sua filha Liv?

Apesar de tudo, é um jogo que muitas crianças realmente adoram, incluindo meus filhos. Não posso dizer o mesmo, porque era muito pequena aos 7 anos e nada atlética. Escrevi o livro do ponto de vista de uma criança e, portanto, tive de escolher um jogo que fosse familiar ao mundo infantil.

Você trabalhou como embaixadora do programa US Save the Children e foi ativista durante a campanha presidencial americana em 2004. Como analisa o governo de Barack Obama e o papel de celebridades engajadas como sua colega Susan Sarandon? É mais difícil ou mais fácil convencer um eleitor a votar no candidato certo quando se é uma celebridade?

Um benefício que a celebridade proporciona é que ela dá voz e visibilidade a causas justas. Eu me importo muito com o problema da pobreza e da educação nos EUA e creio que ser famosa como atriz trouxe maior visibilidade a programas como o US Save the Children.

Você trabalhou na adaptação de Ensaio Sobre a Cegueira para o cinema, dirigida por Fernando Meireles. Sei que Saramago tinha especial afeto por você. Qual o papel que a literatura do escritor português teve em sua vida?

Foi um privilégio trabalhar nessa obra-prima da ficção. Diria até que o maior prazer de minha carreira como atriz tem sido o de trabalhar em filmes baseados em livros que adorei ler.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.