As ruínas de um passado na ficção de Nagai Kafu

Histórias da Outra Margem, do japonês Nagai Kafu (1878-1951), romance publicado com primor pela editora Estação Liberdade, é um achado extraordinário. Mistura de crônica e de diário, de citação e de memórias, é um livro potencialmente confuso que o temperamento literário japonês - contemplativo, econômico, elíptico - transforma em um baile suave de tramas e subtramas em que ora percorre a narrativa do próprio protagonista Tasadu Oe, escritor que busca refúgio no amor de uma prostituta para seu mal disfarçado senso de desmoronamento, mas também abraça o manuscrito abandonado de Oe, chamado de O Desaparecimento, em que Jumpei Taneda, um cinquentão bem estabelecido e responsável, decide simplesmente desaparecer da vida de sua família, subtraindo-se entre gueixas e bebidas e teatros nos bairros marginais de Tóquio. Um capítulo atravanca o outro, silencia o outro, trazendo uma respiração descontínua ao universo de Histórias da Outra Margem. É como se o passado, o sentimento nostálgico, fosse um fardo que condenasse qualquer movimento brusco de avanço apenas ao seu ensaio.

VINICIUS JATOBÁ *,

18 de maio de 2013 | 02h10

Esse conflito entre avançar e recuar é cultural: gestos e hábitos e silêncios entendidos como milenares, que pareciam indestrutíveis, são substituídos pela modernização acelerada do Japão nas primeiras décadas do século passado. Natsume Soseki (1867-1916), o pai da literatura moderna japonesa - e cujo divertidíssimo Eu Sou Um Gato está editado pela mesma casa editorial de Kafu -, incorpora em sua obra esse dilema: narrar o Japão de seu tempo, em brusca mudança, defendendo seus valores fundacionais, mas realizando esse movimento por meio de gêneros - romance, conto - francamente ocidentais, estrangeiros, invasores. É por esse motivo que ler Junichiro Tanizaki (1886-1965), Ryunosuke Akutagawa (1892-1927) e Yasunari Kawabata (1899-1972), todos filhos literários de Soseki, tem um frescor tão contemporâneo ao leitor de hoje: seus livros são desconfortáveis exercícios narrativos diante dos gêneros que praticam, e já surgem desconstruindo seus pilares. Mesmo as narrativas históricas que escreveram - o célebre conto Rashomom, de Akutagawa, e romances como Kyoto, de Kawabata, e A Vida Secreta do Senhor de Musashi, de Tanizaki -, possuem uma atitude narrativa despojada e jogam com o falso conflito entre realidade e ficção com opulência discreta.

O grande drama cultural, no entanto, é o terremoto de 1923, que reduziu Tóquio a escombros e cinzas. O que acontecia com velocidade no imaginário, na forma com que a sociedade vivia e se enxergava, encontrou nas ruínas um marco fundacional de modernização intrusivo: monumentos milenares devastados foram trocados por prédios modernos, bairros boêmios incendiados deram lugar a espaços residenciais, ruas e avenidas foram substituídas. A obra de Kafu está plantada nesse solo fértil: tanto em Histórias da Outra Margem quanto em Crônica da Estação das Chuvas, os narradores vivem na lacuna de terem tanto do que lhes importava, os valores, a cidade, extirpados do horizonte cultural em tão pouco tempo. Por isso a fascinação pelo marginal em Kafu: há na margem, no grupo excluído pela Tóquio moderna, uma qualidade de museu onde o narrador nostálgico pode reviver, e reativar, seus sentimentos tão abraçados a esses gestos algemados ao passado.

O que é brilhante nessa obra é a sutileza como o narrador opera isso, seja em suas andanças pelo bairro pobre e marginal, onde protagoniza sua trama de amor, como também ao recuperar um manuscrito de um romance escrito antes do Grande Terremoto, e que agora, retomado, se torna tanto visitação amorosa a um passado recente arruinado, quanto também um laboratório emocional em que seus dilemas do momento presente são esmiuçados, encenados, repensados. Tasadu Oe, o protagonista, ao continuar a escrita da narrativa O Desaparecimento, vai projetando no texto os acontecimentos do próprio mergulho nos bairros decadentes, criando diante do leitor um sofisticado jogo de reflexos e espectros no qual, conforme avança o belíssimo livro, as fronteiras entre passado e presente, e realidade e ficção, se tornam gestos suaves da outra margem da imaginação que nos observa.

* VINICIUS JATOBÁ É FICCIONISTA

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