Imagem Leandro Karnal
Colunista
Leandro Karnal
Conteúdo Exclusivo para Assinante

As rugas da memória

Lembranças pertencem a um universo paralelo, que dialoga com fantasia, emoções e ficção

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

12 de julho de 2017 | 02h00

Há textos atemporais. O Hamlet, de Shakespeare, o Livro de Jó, na Bíblia, e a Odisseia, de Homero, são exemplos perfeitos. Há livros mais recentes que, aposto, estarão fazendo companhia a nossos tataranetos. Penso na Lavoura Arcaica, de Raduan Nassar, Paixão Segundo GH, de Clarice Lispector, e A Máquina de Fazer Espanhóis, de Valter Hugo Mãe. A lista é imensamente maior, limito-me a exemplos. 

Há uma categoria diferente de obras: são os livros da minha geração. Alguém me diz que leu Erich Fromm, Hermann Hesse e Gibran Khalil Gibran: intuo que pertença ao meu recorte biográfico. São letras da minha idade. Sei que compartilhamos o impacto da descoberta de Sidarta, por exemplo. Imagino que O Louco tenha feito aquela pessoa pensar como eu. Creio que haverá uma geração que identificará Harry Potter como parte da sua trajetória. A minha devorava todos os livros de Agatha Christie. 

Claro que o mesmo pode ser dito de músicas. O impacto da morte de Elis Regina e de John Lennon são fenômenos da minha juventude. O primeiro disco que comprei na vida, com 10 anos de idade, era a música Gîtâ, de Raul Seixas e Paulo Coelho. Eu achava a letra muito densa. Sim, todos temos nossos esqueletos no armário. 

Filmes que marcaram cada momento. Há uma geração Laranja Mecânica, uma geração Star Wars e, talvez, outra que lembrará de Avatar. No colégio, emocionei-me com a projeção de Irmão Sol, Irmã Lua. Lembro-me do impacto de Romeu e Julieta, de Zeffirelli.

Por fim, há fatos geracionais. Minha mãe descrevia, sempre horrorizada, um incêndio em um circo de Niterói e o caso da avó pisoteada com os netos abraçados. Já ouvi depoimentos sobre o dia do suicídio de Vargas e do assassinato de Kennedy. Eu vi os incêndios do Joelma e do Andraus na televisão e nas fotos da revista Manchete. Vou mais longe: em julho de 1969 assisti, em uma pequena televisão em preto e branco, à chegada do homem à Lua. Cada geração tem as suas torres gêmeas a levantar o pó da memória. 

Livros, filmes, músicas e fatos entram com força quando somos mais jovens. Talvez, por isso, obras até fracas nos parecem maiores porque resgatam a obra em si, emaranhada de sentimentos e memórias. A recuperação é acompanhada de muitas lembranças e mistura uma idealização do que foi aquela experiência com uma invenção de quem eu era naquela ocasião. 

Pais autoritários reais da infância começam a ser recriados como cuidadosos à medida que também viro pai ou que preciso reorientar a memória. Quando mudamos a posição no cabo do chicote, também mudamos nossa posição política. A memória sempre precisa ser realocada.

Será que eu tinha a mais vaga ideia do que significava a chegada de Armstrong ao nosso satélite natural? Eu tinha 6 anos de idade e havia sido alfabetizado há pouco. Meus pais estavam emocionados e a família, reunida. Logo, a solenidade do fato era transmitida mais pela liturgia familiar do que pelo fato em questão. Com o tempo, fui lendo mais e mais sobre viagens espaciais e o que representou o projeto Apolo. Ao relembrar a cena, misturo o acontecimento que soube importante depois, a memória do aconchego familiar, a televisão ainda novidade, o sentimento nostálgico do tempo que se foi, meu envelhecimento, saudades do meu pai. Amálgama de tudo é chamada de memória de uma geração. 

O drama da memória é que ela desalinha a perspectiva dos fatos. O incêndio do circo de Niterói é trágico, mas tem menos importância, em perspectiva, do que o ataque ao World Trade Center. O circo foi uma tragédia pessoal de centenas de pessoas. As torres foram um fato de alcance mundial que afetou o século 21. Para minha mãe, o circo incendiado continuará ardendo com chamas maiores do que os prédios de Nova York. 

Historiadores insistem que memória é construção. Isso não quer dizer que elas sejam falsas, entretanto que não são resgatadas na totalidade e de forma neutra. Resgatamos fragmentos entremeados de uma biografia que continuou. O rio de Heráclito foi inteiramente transformado. Esse é o desafio para o terapeuta ao ouvir as memórias do paciente ou para o historiador profissional ao lidar com documentos. O diálogo da vivência atual com o mundo que passou e a invenção permanente de sentidos novos mostram que memória é, de fato, o quinto estado da matéria. Lembranças não são sólidas, líquidas, gasosas ou plasma. Memórias são... memórias. Elas pertencem a um universo paralelo que dialoga com sinapses e neurônios, também com a fantasia, com emoções e traumas, com ficção plena e com o embate fraturado com o mundo. 

Recordar é viver, mas vivemos antes de recordar e, ao viver, vamos moldando o passado ocorrido com o idealizado. Todo resgate é híbrido e toda recuperação é subjetiva. Isso não quer dizer mentiras, todavia um caráter orgânico da verdade e um processo que está um pouco além da objetividade pretendida por historiadores positivistas. 

O campo da memória é vastíssimo, porém um lado interessante do processo é que somos artífices das memórias e o sujeito que viveu o fato e ouviu a música ainda está aqui usando o mesmo cérebro que estava lá. Sou eu! Recordar é viver e faz parte da minha sanidade. Ótima vida e boas lembranças para todos. Boa semana para todos vocês!

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.