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Grupo Tapa/Divulgação
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As relações perigosas

Eduardo Tolentino dirige Grupo Tapa em Credores, clássico de Strindberg sobre os conflitos do amor conjugal

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S.Paulo

07 de março de 2011 | 00h00

"O mundo que trazemos em nós é só o que conseguimos ver." A frase, dita pelo dramaturgo brasileiro Jorge Andrade, em meados dos anos 1960, servia para explicar seu processo de criação artística. Mas pode ser convocada para resumir com perfeição a maneira como August Strindberg, nome máximo do teatro sueco, debruçou-se sobre as próprias dores para compor sua obra.

Na peça Credores, que o diretor Eduardo Tolentino e o grupo Tapa encenam a partir de hoje no Viga Espaço Cênico, o autor parece mover-se com tanta propriedade pelo terreno do fracasso amoroso que é difícil não supor que esteja sempre a tangenciar suas vivências e experiências pessoais, que não recorra constantemente à memória para erguer sua ficção.

Esquizofrênico, Strindberg sentiu-se sempre perseguido, apartado do mundo, tomado por um profundo sentimento de solidão. Testemunha da virada do século 19 para o 20, teve a vida marcada por três casamentos desfeitos. E por uma incontornável sensação de estranhamento diante da nova mulher - emancipada - que surgia à época.

Recolhido em um balneário, um casal vê-se forçado a examinar os vícios que regem sua relação. Em Credores, a chegada de um homem desconhecido serve como estopim para conflitos até então latentes. É o discurso virulento de Gustavo (Sergio Mastropasqua) que leva o marido Adolfo (José Roberto Jardim) a tomar consciência do jogo de poder em que está enredado. Acossado dentro de casa por uma mulher que o manipula constantemente, moldado como se fosse ele mesmo uma simples pedra a ser esculpida.

Não raro invoca-se Credores como exemplo do caráter misógino da literatura de Strindberg. O texto mostra, afinal, uma personagem feminina atravessada por contradições. Interpretada nessa versão por Chris Couto, Tekla é uma mulher capaz de afirmar o próprio desejo, de subverter a condição de dominação a que já fora submetida um dia e impô-la ao marido.

Para o diretor, essa propalada misoginia do autor não é mais do que uma enorme sensação de perplexidade diante dessa nova mulher que estava se fazendo. "Havia, ali, uma mudança de perspectiva. Era um momento em que esses papéis se realinhavam", comenta. "Esses três personagens nos levam a uma vertigem, a um mergulho vertical no que são, de fato, as relações."

No lugar do palco italiano, Tolentino opta, nessa montagem, por concentrar a ação no centro de uma arena. Diante de uma plateia dupla, os atores perdem a proteção da caixa cênica e passam a se movimentar como se observados constantemente. A encenação só reforça a sensação de claustrofobia ditada pelo próprio texto, certa aura pré-sartriana que antecipa o inferno descrito pelo filósofo francês na peça Entre Quatro Paredes. Ao espectador cabe vislumbrar esses seres condenados ao absurdo da existência, encarcerados em um mundo do qual não conseguem escapar.

QUEM É

AUGUST STRINDBERG

DRAMATURGO E ESCRITOR SUECO

Nascido no século 19, Johan August Strindberg é escritor aclamado, especialmente pelo caráter inovador de suas obras teatrais. Escreveu textos clássicos. como Senhorita Júlia. Precursor do naturalismo em seu país, costuma ser motivo de controvérsia por seu caráter misógino.

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