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As raposas altruístas

Pensar de forma autônoma não me torna uma pessoa boa ou ruim, mas capaz de argumentar

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

19 de maio de 2021 | 03h00

É muito raro um livro da área de humanas ser profundamente otimista. Lembro-me de Abundância (Peter Diamandis e Steven Kotler, Alta Books). O subtítulo não poderia ser mais chamativo: “O futuro é melhor do que você imagina”. O texto traz histórias interessantes sobre o uso de recursos do planeta, inclusive, com narrativa sobre a questão do alumínio inesquecível no jantar do imperador francês. Em meio a tantos catastrofismos, os autores argumentam a favor de um mundo cada vez mais próspero e abundante. 

Outro livro povoado de indicativos esperançosos é Humanidade - Uma História Otimista do Homem (Rutger Bregman, Crítica). O historiador holandês começa contestando um senso comum pessimista: a teoria do verniz. Somos civilizados porque estamos bem. Chegando a guerra, a fome ou a doença, somos selvagens egoístas. O “verniz” civilizacional é fino e pode ser quebrado sempre. A base do truísmo, inspirada em clássico como Thomas Hobbes, é sobre o caráter malévolo da nossa espécie. 

Com exemplos concretos, dos bombardeios de Londres na Segunda Guerra aos experimentos no campo da psicologia, o autor vai atacando a ideia de um homem ruim esperando chance de exercer sua força destrutiva. O mais curioso é o debate sobre o conhecido O Senhor das Moscas, de William Golding. A visão publicada na década de 1950 parece ser um eterno sucesso. Pegue um grupo de ordenados estudantes ingleses. Solte-os, sem autoridade, em uma ilha em situação de risco. Cai a máscara britânica e emerge o selvagem assassino. A obra ficcional deu origem a bons roteiros de cinema para exibir aquilo, afinal, que todos acreditamos: somos terríveis, no fundo, ou logo no raso mesmo. O autor ganhou Prêmio Nobel. 

O livro Humanidade duvida da base real de O Senhor das Moscas. Depois de muita busca, Bregman encontrou um caso concreto: os náufragos de Tonga. Seis garotos de um internato católico saíram da ilha e acabaram naufragando próximos à deserta Ata. Enfrentaram sede, tempestades tropicais e uma perna quebrada. Custaram a conseguir fogo. Organizaram-se e sobreviveram com camaradagem e administrando os poucos recursos do lugar. Viraram amigos para sempre após terem sido resgatados, com excelente saúde, um ano depois. Uma história de sucesso e de trabalho em grupo. Nunca fez o sucesso de O Senhor das Moscas. Por que adoramos ler uma ficção pessimista e rejeitamos estudar uma história real que mostra o fracasso da teoria do verniz? É uma pergunta a que o autor tenta responder. 

Claro que o livro trata das grandes experiências de maldade, incluindo nossos campos de concentração do século 20. Há casos extremos de crueldade deliberada de indivíduos e de grupos. Bregman trata um a um. O caso que mais me interessou foi o de um experimento soviético. Dmitri Belyaev, zoólogo e geneticista, encontrou-se com a estudante Lyudmila Trut. Era na Moscou de 1958. A teoria da evolução era criticada pelo Estado naquela época. Parecia uma invenção ocidental capitalista. O professor tinha uma ideia para testar com a raposa-prateada, um animal nunca domesticado e sempre agressivo. Como uma espécie perfeitamente selvagem poderia originar “cachorrinhos” dóceis?


O experimento começou com os pesquisadores colocando as mãos protegidas por grossas luvas nas gaiolas dos animais. Se a raposa hesitasse um pouco antes de morder, era separada para reprodução. A maioria mordia imediatamente. Em quatro gerações de raposas um pouco mais “dóceis”, surgiram as primeiras ninhadas com filhotes que abanavam o rabo e ficavam felizes com a presença dos tratadores. Avançando gerações, as raposas passaram a ter comportamentos de cachorros domésticos e levavam um caráter juvenil por mais tempo: brincavam mesmo na vida adulta e atendiam por nomes. 

No congresso internacional de geneticistas, em 1978, vinte anos de pesquisas com raposas-prateadas vieram ao conhecimento geral. Mais tarde, as transformações físicas das raposas amistosas foram ficando evidentes. Estudos posteriores, como o de Brian Hare, demonstraram a sobrevivência do mais amigável na espécie humana, quase repetindo as raposas. Brian foi até a fazenda das raposas que já estavam na geração 45. Fez testes e descobriu que as raposas, selecionadas pela amistosidade, tinham desempenho superior no item inteligência ao das mais ferozes. A docilidade estimulara muitas coisas no cérebro das raposas. No estudo de Brian, o mesmo tinha ocorrido com os seres humanos e ajudava a explicar a redução das várias espécies de Homo que existiram. As mais violentas desapareceram, as mais sociáveis prosperaram. Seria, a rigor, um experimento científico sobre a superioridade das pessoas negociadoras sobre as agressivas. 

Meu objetivo hoje? Estimular que você leia e chegue a suas próprias conclusões. Que analise cada argumento e pense sobre nossos vernizes ou constituições anteriores. Seríamos bons ou ruins por natureza? Devemos seguir os argumentos duros de Richard Dawkins (O Gene Egoísta, Companhia das Letras) ou as reflexões de Rutger Bregman. Eu só tenho uma certeza: ler obras variadas, contrapor argumentos e pensar de forma autônoma não me torna uma pessoa boa ou ruim, porém, com certeza, mais capaz de argumentar. Então, para todos os humanos, bons e ruins, segue minha recomendação: leiam para pensar melhor! A esperança está sempre em pensar. 

É HISTORIADOR, ESCRITOR, MEMBRO DA ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS, AUTOR DE ‘O DILEMA DO PORCO-ESPINHO’, ENTRE OUTROS

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