As raízes de Tereza Salgueiro

A cantora que deu voz ao Madredeus volta ao Brasil para uma turnê em que evoca a paisagem portuguesa com canções

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

30 de outubro de 2010 | 00h00

Conhecida como a voz do grupo português Madredeus, Tereza Salgueiro há três anos segue carreira solo e já experimentou nesse período duetos com grandes nomes da MPB - entre eles Caetano Veloso-, uma histórica colaboração com o compositor polonês Zbigniew Preisner, autor das trilhas de Kieslowski e, mais recentemente, uma parceria curta, mas profícua, com o Lusitânia Ensemble, com o qual gravou no ano passado o belo CD Matriz (inédito no Brasil). Com 25 anos de carreira, ela muda novamente e vem mostrar no País sua nova fase, acompanhada de um quarteto de formação inusual (acordeão, guitarra, contrabaixo e bateria). Ela canta em São Paulo nos dias 27 e 28 de novembro, no Teatro Alfa, e no dia 1º. de dezembro, no Teatro Oi Casagrande, no Rio. De Lisboa, onde mora, Teresa concedeu uma entrevista ao Caderno 2/Música, em que falou com entusiasmo das mudanças em sua trajetória profissional desde que foi ouvida, em 1986, cantando numa mesa de uma taverna do lisboeta Bairro Alto e convidada pelo violinista Pedro Ayres Magalhães para integrar o Madredeus.

O grupo durou 22 anos e gravou 12 discos que renovaram o panorama musical português sem desprezar a rica tradição melódica da cultura lusitana. A voz doce de soprano de Tereza Salgueiro marcou profundamente esses registros, a ponto de atravessar a fronteira e conquistar fãs ardorosos até do leste europeu, como Zbigniew Preisner, que dedicou a ela um ciclo de canções gravadas entre 2006 e 2007 em Varsóvia e Londres (Silence, Night & Dreams, lançado lá fora pela EMI e inédito no Brasil). Preisner, além de compositor de Kieslowski, compôs a trilha de Brincando nos Campos do Senhor para Hector Babenco, antes de conquistar Hollywood com suas sinfonias corais.

Depois dessa experiência com a música polonesa - sacra, considerando as alusões bíblicas nas nove canções de Silence, Night & Dreams - Tereza embarcou numa viagem secular, retomando a tradição histórica que formou a identidade portuguesa em Matriz que, como o próprio nome indica, remonta à toada tristíssima que vem dos tempos em que D. Sebastião foi derrotado em Alcácer-Quibir. Com um quinteto liderado pelo violinista Jorge Varrecoso Gonçalves, também arranjador de Matriz, Teresa concretizou um antigo projeto de mapear a música portuguesa da Idade Média à atualidade.

"Queria cantar as canções que conheço desde criança, construir um repertório que pudesse oferecer um mosaico do que é a poética portuguesa desde as cantigas de amigo até o século que estamos", diz Teresa. Ruy Vieira Nery, professor da Universidade de Évora, observa no texto de apresentação do CD que a busca dessa matriz musical portuguesa é uma tarefa um tanto espinhosa, considerando que, ao longo dos séculos, a tradição melódica lusitana integrou-se às correntes estéticas transnacionais. Até por isso, esse desafio pareceu estimulante para a cantora que, incansável, foi buscar nos arquivos históricos cantigas de amigo do século 13 e cantos de romeiros da tradição oral.

Para a turnê brasileira de Voltarei à Minha Terra, Teresa Salgueiro escolheu um repertório recente, temas conhecidos e alguns fados que evocam a paisagem de Portugal, acompanhada ao acordeão por Carisa Marcelino. Os outros três músicos do quarteto são André Santos (guitarra), Oscar Torres (contrabaixo) e Rui Lobato (percussão).

Por ser um septeto, o Lusitânia Ensemble tornava as turnês internacionais um pouco caras, o que justifica a troca por uma nova formação musical. "Também tinha vontade de encontrar outra linguagem, buscar outra sonoridade", justifica a cantora, que já se apresentou com o quarteto em Lisboa, Belgrado e Fortaleza. "Isso não significa que a experiência com o Madredeus esteja ultrapassada, o grupo fez parte de metade da minha vida e é indissociável de minha personalidade artística".

Com grupo, ela também participou de um filme do alemão Wim Wenders em 1995, O Céu de Lisboa (Lisbon Story), sobre um sonoplasta que vai procurar um amigo na capital portuguesa e se encanta com a cidade - e Teresa, naturalmente. Ela foi novamente atriz num curta dirigido por Edgar Pera, Rio Turvo, que se passa numa base militar e é inspirado num conto dos anos 1930 escrito pelo autor português Branquinho da Fonseca (1905-1974). "É um filme sobre solidão e tensão sexual, em que uma velha cozinheira e sua filha são as única mulheres entre esses militares", resume a cantora. É também uma sátira política, no melhor estilo do criador da biblioteca itinerante em Portugal.

"A política pode ser um jogo perigoso, mas também é necessária para a construção de nossa identidade", resume Teresa, que não acredita numa reversão histórica que conduza a Europa a um novo fascismo. "Acho improvável que isso venha a acontecer, porque há hoje muita informação no mundo".

TEREZA SALGUEIRO

Teatro Alfa. Dias 27 e 28 de novembro. Rua Bento Branco de Andrade Filho, 722. Santo Amaro. Tel. 5693-4000. Ingressos à venda na bilheteria do Teatro.

Os preços variam de R$ 80 a R$ 180 até dia 10. Depois dessa data vão de R$ 100 a R$ 200.

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