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Leandro Karnal
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As quatro vítimas do chá

A decadência roeu as bordas, erodiu o centro, eliminou bens, empinou ainda mais os narizes e foi semeando chumbo sobre a pátina dourada. 

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

12 de janeiro de 2020 | 02h00

A família Vasconcellos possuía brasão havia muitas gerações. Todos estavam acostumados ao leão azul em posição de ataque – “leão rampante” – explicava tia Maria Pia, consciente da dignidade e do valor daquele clã. Se as raízes eram fundas, as folhas vinham perdendo viço desde os anos 1960. Chegaram a ter propriedade em Paris, na Île Saint-Louis, sobre uma famosa sorveteria. A mesma tia da heráldica vaidosa lembrava que era justo possuírem apartamento lá, pois tinham o sangue de São Luís IX nas veias. Sangue azul, pouca disposição empresarial, investimentos em declínio, muito estudo de literatura e arte e pouca intuição para bancos foram minando aquele solar avoengo. A decadência roeu as bordas, erodiu o centro, eliminou bens, empinou ainda mais os narizes e foi semeando chumbo sobre a pátina dourada. 

Ao patriarca e a sua esposa e à indefectível e solteira tia Maria Pia restou uma isolada Constantinopla cercada de crise: um apartamento nos Jardins, em São Paulo. De tempos em tempos, algum bem móvel ia embora para cobrir o condomínio. O piano Steinway fora vendido em 2002. O tapete que era o encanto dos convivas desapareceu da parede da sala em 2004. Joias? Os diamantes fluíram em fila como soldados transparentes a abandonar o cerco; os rubis foram acompanhados de lágrimas de sangue de dona Antônia Vasconcellos e, com o broche de esmeraldas que estava na família desde o período colonial, foi-se a última esperança de restaurar as glórias de outrora. “A decadência é um deserto sem oásis”, dizia a velha tia. O senhor Frederico Vasconcellos, último varão de tão nobre linhagem, repetiu algumas vezes a frase de Dante no Inferno: nenhuma dor maior do que recordar-se do tempo feliz na miséria. Depois de algumas citações a esmo do florentino, emudeceu para sempre em 2009. O enterro foi pago em muitas vezes com o custo da baixela de prata. O estilo pomposo fúnebre disfarçou bem o declínio. Quem fosse à solene cripta familiar juraria que um próspero barão baixava ao solo deixando a família com as burras repletas de metal sonante. Nada mais falso que os ouropéis do velório. 

Foi-se tudo. Restaram duas desoladas mulheres: Maria Pia, nonagenária e magra como uma refugiada e a já citada viúva Antônia. A última faxineira bateu a porta ameaçando processos trabalhistas diante da inexistência de salário. O galeão dos Vasconcellos, já sem barras de ouro, atravessava o oceano com deserção de marinheiros e imediatos. 

Do momento de fastígio nada sobrevivera. Exagero. Restava algo além do velho apartamento sem manutenção e com o condomínio atrasado. Era o último bastião de uma memória gloriosa de festas e idas para a Europa: duas xícaras Limoges. Eram de uma alvura irrepreensível, finas como casca de ovo e com filigrana dourada nas bordas. Um par apenas: uma dupla sobrevivente de um imenso jogo de outrora. Tinham sido presente de casamento que a baronesa de Sorocaba, sua bisavó, recebera. Um dia, aquelas peças foram pastilhas de um mosaico de riquezas. Em era avessa a leões rampantes, eram heroínas de uma resistência inútil, o último elo de porcelana que ligava aquelas duas senhoras à vida sonhada. Ao pegarem folhas de cidreira no jardim do prédio e fazerem o chá todas as tardes, a dupla sorvia o líquido comum nas peças extraordinárias e, então, ambas ouviam ecos sinestésicos de um mundo opulento e feliz. Pareciam a personagem de Proust e sua infusão de tílias com bolinhos madeleine e a memória de infância áurea. A hora do chá era a hora da vida recordada ou inventada, de fluxo de memórias aprimoradas sempre, de um mundo sem arestas em contraposição ao presente mesquinho. Naquele momento, a chávena dilatava tudo e o apartamento de cinco quartos de Paris virava um solar extraordinário com lacaios de farda vermelha. As duas mentiam e amavam a ficção do chá. Ao terminarem o instante feliz, Maria Pia e Antônia tinham o impulso de tocar a sineta e chamar a copeira. Lembravam que não havia mais a sineta de prata ou copeira. Ao levar as xícaras com cuidado à pia, a tia segurava como se transportasse o Santo Graal, o cálice sagrado que animava a vida em Camelot. E era.

A crise era eterna, a coesão da porcelana não. Sem o tapete Aubusson, o piso ficara um pouco escorregadio. As mãos trêmulas da tia sofriam com artrite sem plano de saúde. O impensável ocorreu. O desastre: uma tremida e a porcelana familiar se foi ao chão. Não restou uma alça intacta. Uma massa de cacos espargiu-se no chão com uníssono grito cortante das senhoras. Foi-se. Nada mais as unia ao passado. Desaparecera o porvir. Pedaços brancos e dourados atingiram uma área enorme. Era o fim, o verdadeiro crepúsculo dos deuses. 

Não existia motivo para continuar, ambas sabiam. Sem aquelas xícaras, o mundo era uma interminável sequência de dor; nenhum opiáceo disponível. O fio se rompera. As duas xícaras tinham falecido com a esperança das mulheres desoladas. Camelot perdeu seu propósito. A barbárie triunfara.

Após o grito agudo, silêncio sepulcral se instalou. As duas não choraram, apenas contemplavam os estilhaços como as testemunhas de uma batalha inglória e, agora, definitivamente perdida. Ambas, em silêncio, deram-se as mãos. Sabiam o que deveria ser feito. Não havia dúvida; desnecessário discurso. De mãos dadas marcharam solenes, aristocráticas, com dignidade imensa e um farfalhar de saias. Com a altivez de Maria Antonieta naquele fatídico 16 de outubro de 1793, encararam o fim sem terror final. Era imperioso fazê-lo. Sem perspectiva ou dinheiro e, acima de tudo, sem as amadas xícaras, continuar para quê? O fim foi rápido e tão fácil que pode ser que a mais velha tivesse pensado: “Por que não fizemos isso antes?”. De mãos dadas subiram na puída banquetinha da sacada e, em sincronia harmônica, atiraram-se do vigésimo andar. Se fosse possível ter fotografado o momento lancinante, o observador teria visto dois curiosos sorrisos nos rostos das Ismálias felizes como do poema de Alphonsus, ruflando asas de par em par. Enfim, a épica história dos Vasconcellos chegava ao seu desfecho. Aquele dia seria sempre lembrado como o epílogo da família e das duas xícaras Limoges. Quatro entidades desaparecem no funesto pôr do sol. Para quem tem alguma xícara ainda, cuidado, e uma boa semana...

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