Emidio Luisi/Divulgação
Emidio Luisi/Divulgação

As quatro décadas do Stagium

Mostra inclui 45 vídeos exibidos em 50 telas de dimensões variadas

MAIARA CAMARGO, O Estado de S.Paulo

09 de novembro de 2011 | 03h09

O primeiro encontro, no Municipal do Rio, resultou numa antipatia mútua. Décio Otero, mineiro, partiu para a Europa, a convite do coreógrafo Serge Golovine. Marika Gidali, húngara radicada em São Paulo, ficou na cidade, elaborando coreografias para teatro, com Ademar Guerra. Décio e Marika só voltaram a se ver 15 anos depois, em 1971. Dessa vez foi amor à primeira vista, com casamento, dentro e fora do palco. No mesmo ano, fundaram o Ballet Stagium. Nas palavras da crítica Helena Katz, divisor de águas da história da dança nacional do século 20.

Feita por Emidio Luisi, uma foto de Décio e Marika, de 1976, no espetáculo Quebradas do Mundaréu, adaptação da companhia para Navalha da Carne, texto de Plínio Marcos proibido pela censura, se encarrega de dar boas-vindas aos visitantes da Ocupação Ballet Stagium, que abre ao público amanhã, no Itaú Cultural. Em cerca de 100 m², a mostra, 11.ª edição do projeto, sintetiza a história dos 40 anos do grupo, destacando seu revolucionário trabalho, suas andanças pelo País e a concepção de um jeitinho brasileiro de dançar.

O olhar de Edgar Duprat, filho de Marika, é o ponto de partida da Ocupação. Ainda garoto, ganhou de Décio, seu padrasto, uma super 8. Por diversão, passou a filmar tudo que acontecia na companhia, em que dançou por 15 anos e hoje, aos 50, atua como produtor. "Na Europa, o Décio viu que era comum registrar coreografias. A princípio, a câmera servia para evitar que nossos balés fossem esquecidos", diz ele, que assina, com Pedro Markun e Carlos Gardin, a curadoria da mostra.

Duprat fez mais. Filmou peças, apresentações em praças públicas, viagens, aulas e momentos de criação. Com o convite do Itaú, entrou no estúdio para digitalizar as mais de 1.200 horas de imagens, que originaram 45 vídeos, que serão exibidos em 50 telas de dimensões variadas.

Trajetória bandeirante. Montado de forma mais orgânica, sem preocupação com explicações e datas, o circuito da mostra começa numa espelhada sala de aula de dança, com suas tradicionais barras de ferro. Em meio às silhuetas de Marika e Décio, monitores mostram cenas de criação do Stagium. Na sequência, trechos de Convite à Dança, programa da TV Cultura, que marcou seus passos iniciais.

Fundada durante a ditadura militar, a trupe assumiu logo sua característica itinerante. "Não dava para ficar só em São Paulo. Então, seguimos o conselho do Paulo Autran e fomos para a estrada", lembra Marika. A faceta viajante é representada por um ônibus cênico cheio de imagens.

Duas importantes viagens também têm espaço de destaque: as apresentações em cidades ribeirinhas do Rio São Francisco, em 1974, e a passagem do Ballet pelo Alto Xingu, em 1977. "Foi ali que chegamos às questões que nos movem: Por que dançar? Onde dançar? Para quem dançar?", lembra Marika. Resposta? "Não há, elas estão em processo até hoje."

O Brasil afetou o Stagium, que aprendeu 'brasileiro' e deixou o jeito europeu de dançar. Em troca, o grupo desenvolveu programas sociais para crianças e professores, que seguem até hoje. Em vídeos, é possível conferir, por exemplo, apresentações na Febem (atual Fundação Casa).

Com 40 anos de parceria com o marido e 74 anos de idade, Marika garante que eles não pensam em parar. "Aposentadoria é uma palavra que não existe no nosso dicionário", justifica.

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