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As províncias do silêncio

“Traduzir é como as camadas de cada língua formam algo novo, distinto no mútuo contato”

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

01 de novembro de 2020 | 07h00

George Steiner era um erudito que fechou os olhos definitivamente neste ano de 2020. Um dia, ele descreveu que, sem a tradução, nós habitaríamos províncias limítrofes cercadas pelo silêncio. O espanhol Mariano Antolín Rato usou de outra figura instigante: a tradução seria uma das pouquíssimas atividades humanas onde o impossível ocorreria por princípio. Conhecer bem a língua de partida e a de chegada é o passo inicial, talvez o mais fácil do ato de traduzir. O bom conhecedor de duas línguas é alguém treinado. O tradutor vai lidar com as pontes de significado na sua própria língua.

Tomem um exemplo: o soneto 138 de William Shakespeare. Tema? Dois mentirosos que se amam. A mulher jura fidelidade, porém, falta ao princípio enunciado. O homem aceita e se faz passar por mais novo. Ambos se enganam e aceitam o alívio de um afeto germinado sobre o solo da dupla falsidade. Vou pegar o trecho final: “O! love´s best habit is in seeming trust, And age in love loves not to have years told: Therefore I lie with her, and she with me, And in our faults by lies we flattered be.” Agora começam as pontes...

O professor da Unisinos (RS), Elvio Funck, enviou-me a tradução e sugeriu: “Ah! A melhor artimanha do amor está em parecer fiel e velhos apaixonados relutam em revelar a idade. Portanto, ela e eu bem juntos nos deitamos, e, mentindo sobre nossos defeitos, aliviados ficamos.” O experiente tradutor adverte, por exemplo, que a duplicidade de “to lie” (deitar e mentir), há algo aqui como eu me deito com ela porque eu minto para ela e ela mente para mim. Da mesma forma, como é comum a insinuação erótica em Shakespeare, “to flatter” indica bajular (ou enganar) e, igualmente, aliviar, indicando que o eu poético busca o conforto passageiro físico com a amada. 

Ao traduzir, muitos profissionais consultam outras traduções e outras línguas. Isso ajuda a destrinçar cada frase. Elvio Funck indica, no mesmo soneto, outras possibilidades para o trecho final: “Péricles Eugênio: ‘Por isso eu minto, e ela em falso jura, / E sentimos lisonja na impostura’; Graça Moura: ‘Deitamo-nos, mentimos, mente, minto. / Mentir em culpa é-nos lisonja, sinto’; Schlegel et alii: Darum belüg ich sie, belügt sie mich, / Und unsre Lügensünde schmeicheln sich (Por isso eu minto para ela e ela mente para mim, / e nossas mentirinhas pecaminosas nos são lisonjeiras); Malaplate: C’est pourquoi je lui mens; elle ment à moi / Et nous flatte tous deux notre manque de foi (É por isso que eu lhe minto e ela mente para mim / e lisonjeia a nós dois esta falta de sinceridade).” 

Meu amigo Almiro Pisetta fez o desafio de traduzir todos os sonetos em forma poética e outra mais literal. Para o trecho em questão, ele sugere: “No amor fingir é sempre o melhor jeito, e gente apaixonada a idade ignora. Por isso vamos juntos para a cama na lisonja de quem somente ama”. Em outra chave: “E no amor a idade não gosta de ter seus anos contados. Por isso me deito e minto com ela, e ela comigo. E, com nossos defeitos, mentindo e amando nos lisonjeamos”. (The Sonnets of Willliam Shakespeare & Os sonetos de Almiro W.S. Pisetta, Martin Claret pp 330/331).

Em gerações anteriores, as obras de Shakespeare eram conhecidas no Brasil pelo esforço de Oscar Mendes. Na edição da Nova Aguilar, ele sugere para o mesmo trecho: “Em amor o melhor é parecer fiel. E a velhice em amor não quer os anos contados: por isso vou mentindo e ela mentindo a mim. Defeitos a encobrir com as nossas mentiras”. Como você vê, querida leitora e aturdido leitor, conhecer inglês faz você ter uma ideia inicial. Traduzir é uma ponte mais complexa. Seria um sistema viário, um “cebolão” como dizemos aqui em São Paulo. Não se trata mais de superar o silêncio entre a ilha lusófona e a anglófona. As pontes entram na língua de Camões e expandem e exploram o idioma do Bardo. Traduzir é sentir como sua língua funciona, como a outra língua funciona e como as camadas de cada uma formam algo novo, inteiramente distinto no mútuo contato. 

Shakespeare fez mais de 150 sonetos e diversas poesias longas. Agora, imagine um poeta que fez a fama eterna apenas por... um soneto? Félix Arvers (1806-1850) dedicou-o a um amor que não resultou em casamento. Sua musa, provavelmente, era Marie Nodier. O poema é de 1831 e, com ligeiras modificações, foi publicado no livro de Arvers de 1833: Minhas Horas Perdidas. O tema lírico é comum: ele ama, em segredo, a uma mulher que se casou com outro. Um dia, essa amada lerá o soneto sem nome e pensará quem poderia ser a musa que inspirou tal arroubo. O tema é usual, quase um lugar-comum. As palavras são bem arranjadas e a rima inventiva. No túmulo do poeta, está o primeiro verso: Minha alma tem um segredo (Mon âme a son secret).

Poetas em inglês do porte de Henry Longfellow (1807-1882) dedicaram seu esforço ao chamado “soneto perfeito” ou “rei dos sonetos”. Em português, há versões do imperador Pedro II ao poeta Guilherme de Almeida. Surgiram, inclusive, tradutores satíricos. Humberto Mello Nóbrega reuniu quase uma centena na obra “O Soneto de Arvers” (Civilização Brasileira). 

Em resumo, há muitos desafios e pontes complexas. Reli todos os sonetos de Shakespeare durante a quarentena. Leitores contumazes e tradutores são súditos felizes das províncias de silêncio. Boa semana.

É HISTORIADOR E ESCRITOR, AUTOR DE ‘O DILEMA DO PORCO-ESPINHO’, ENTRE OUTROS 

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