As primeiras palmas a gente nunca esquece

As primeiras palmas a gente nunca esquece

''Conhecemos o som de duas mãos batendo palmas. Mas qual é o som de uma mão batendo palma?'' Charada Zen, epígrafe de Nove Histórias, de J.D. Salinger

Roberto Muggiati, O Estado de S.Paulo

03 de abril de 2010 | 00h00

Cheguei a Paris na manhã de 14 de outubro de 1960, uma sexta-feira, no trem de Madri, 20 horas de viagem. Eu tinha 20 anos, é a mais bela idade da vida (Há controvérsias.) Sentado num café da Gare de Lyon, sentia-me como o sujeito do filme Ascensor para o Cadafalso, que passa um fim de semana preso num elevador e depois vai tomar café au lait com croissants e folhear o jornal do dia. Meu olho caiu numa pequena nota nas páginas internas: concerto de jazz esta tarde no Théâtre des Champs-Elysées, com um punhado de americanos exilados e bambas locais. Peguei um táxi até a Cité Universitaire, descobri na Maison du Brésil que ainda não tinha um quarto: colocaram-me para dormir nos bastidores do pequeno teatro (na mesma época, vim a saber depois, os Beatles dormiam atrás da tela de um cinema em Hamburgo.) Em bom francês pensei Je m''en fiche ("não tô nem aí"), larguei as malas ainda fechadas e saí pela vasta cidade em busca do meu destino. O Théâtre des Champs-Elysées havia testemunhado em 1913, entre apupos e aplausos, a grande explosão moderna, com a estreia da Sagração da Primavera, de Stravinsky, pelos Ballets Russes de Nijinsky e Lifar. Em poucas horas eu vivia uma verdadeira overdose de cultura, sem mencionar o fato de estar pisando nas ruas de Paris, aquela obra de arte viva. O lendário teatro não me impressionou, escuro, meio deprê, estava só metade ocupado. Mas a música foi o primeiro jazz de verdade que ouvi, Bud Powell ao piano, Kenny Clarke à bateria e Pierre Michelot ao baixo. Participou também do concerto, em memória do baixista Oscar Pettiford (morto um mês antes em Copenhague), o saxofonista Lucky Thompson. Ao fim de cada peça, batíamos palmas enérgicas, para compensar a metade vazia da sala. Eu não sabia que o concerto foi gravado e que um disco sairia dois anos depois... com as minhas palmas. A glória!

No mês seguinte, fui ver a Concert Jazz Band de Gerry Mulligan, no Olympia. Sala tradicional da chanson francesa, templo da Piaf, o Olympia começava a acolher concertos de jazz. Fui sozinho ao show da tarde e, à noite, na torrinha, com uma namoradinha inglesa, Gillian. O público francês sabe ser chato, quando quer, e naquele dia encarnou no Gerry (ironicamente, Jerry Mulligan é o nome de Gene Kelly no filme Sinfonia em Paris.) Compositor e arranjador, Mulligan volta e meia tocava piano, sob os protestos da plateia, que pedia aos brados "Saxo! Saxo!" Do concerto, outro álbum ao vivo emergiu nas lojas, assim como o da apresentação de Thelonious Monk no mesmo Olympia, em abril de 61, tocando - é claro - April in Paris num belo solo de piano.

Em dois anos de Paris e três de Londres, os concertos de jazz continuaram rolando e, como o replicante de Blade Runner, eu podia dizer "meus olhos viram coisas em que vocês não acreditariam... e todos aqueles momentos se perderão no tempo como lágrimas na chuva". Tristemente, não reconheci minhas palmas em nenhum daqueles álbuns gravados ao vivo. Descobri que, por questões técnicas, as gravadoras preferiam botar nos discos palmas clonadas pelos sonoplastas, reduzidas à equalização padronizada. Foi, de certa forma, a perda da inocência - musical e ontológica. Indo mais fundo, hoje sou capaz até de contestar o próprio processo do jazz gravado. Música do aqui e agora, que se propõe à prática da espontaneidade absoluta através da improvisação, aqueles registros não passariam de peças arqueológicas congeladas no tempo, verdadeiros fósseis sonoros. Mas, à falta de melhor, é o que nos resta para que aqueles momentos não se percam, como lágrimas na chuva.

Roberto Muggiati, jornalista, escritor e saxofonista, autor do livro Improvisando Soluções C

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