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Sérgio Augusto
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As primeiras letras

Perdemos muito tempo lendo e respondendo a questionários e enquetes. Que só perdem em quantidade e frequência para as listas. Listas de tudo. De uns tempos para cá com uma especificidade: quais os cem (livros, filmes, lugares, restaurantes, comidas, etc.) que precisamos (ler, ver, visitar, degustar, etc.) antes de morrer. Se tantos não se interessassem por guias dessa natureza, as editoras já teriam desistido de investir nas variantes que ainda lhes restam - oxalá minguantes, do contrário as livrarias serão em breve constrangidas a criar um nicho exclusivo para esse subgênero de não ficção, a que, aliás, poderiam dar o nome de Memento Mori.

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

24 de agosto de 2013 | 02h13

Dividindo o espaço físico das livrarias com os demais nichos - Ficção, Não Ficção, Autoajuda, Infantil, Arte, Culinária -, teremos a estante de Memento Mori, a essa altura já com um volume sobre as cem melhores livrarias que você precisa conhecer antes de morrer.

Evito ao máximo fazer listas, indicar prioridades, hierarquizar obras e criadores, por falta de paciência e por duvidar que minha opinião - pior: minha escala de valores - possa ajudar alguém razoavelmente bem informado a morrer mais, vá lá, iluminado. Vez por outra, engrupido pela lábia de um curioso mais persistente, abro as pernas. E se vislumbro uma brecha para brincar com o meu inquiridor, aproveito-a.

Anos atrás, uma estudante de jornalismo queria saber, para um trabalho de fim de curso, quais haviam sido "meus primeiros livros de cabeceira". Perguntei se podia listar apenas dois, um de ficção e outro de não ficção. Sim, podia. A moça, esperta, achou graça das minhas escolhas: Grande Sertão: Veredas e Tractatus Logico-philosophicus, de Ludwig Wittgenstein, e mais ainda da explicação anexada à resposta: "Como eu só tinha na época 4 anos de idade, confesso que os li com certa dificuldade e muito lentamente" .

Depois, respondi a sério, com as falhas naturais da memória. Monteiro Lobato não foi meu primeiro autor de cabeceira. Nem o mais lido. Um dos primeiros ele foi ou deve ter sido. Involuntariamente evitei um clichê. O mais lido, confesso logo, que vergonha!, foi A Moreninha, de Joaquim Manuel de Macedo - por motivos de força maior, que prometo esclarecer adiante. Mas bem antes desse, encantei-me com Os Grandes Benfeitores da Humanidade, escrita e ilustrada por F. Acquarone, e Caninos Brancos, de Jack London (não por acaso traduzido por Monteiro Lobato).

Mais de uma vez já disse e outra vez repito: nenhum outro livro de ficção me marcou tanto quanto Caninos Brancos, que devorei ali por volta dos 10 anos. Quem adora animais e desconfia da raça humana há de me entender. Jack London foi o primeiro e mais influente "filósofo" que o acaso me deu.

Os Grandes Benfeitores da Humanidade ficou na minha memória como algo mágico, como uma madeleine irrecuperável, pois bem cedo sumiu da minha vida como por encanto. Passei décadas procurando em sebos um exemplar - e nada. Dele me lembrava, vagamente: da capa cheia de figuras coloridas, do enredo, digamos assim, de alguns dos benfeitores perfilados pelo autor - e sobretudo da minha insopitável vontade de entrar em suas páginas e fazer-me amigo dos meninos Leda, Ernani e Edison, os protagonistas da excitante viagem pedagógica bolada por Acquarone.

Fazia, no livro, um domingo chuvoso, razão pela qual Leda não podia brincar no jardim de sua casa. Salvou-a do enfado a chegada do primo Ernani e seu amigo Edison. Os três acabavam descobrindo na biblioteca do sr. Vilaça, pai de Leda, o mais maravilhoso playground do mundo, comandado por uma estátua de Clio, a deusa da História, que de súbito adquiria vida e começava a ensinar-lhes quem foram e o que fizeram pela humanidade Gutenberg, Robert Fulton, Santos Dumont, Pasteur, Thomas Edison, o casal Curie, Graham Bell, etc.

Criança adora entrar em livros, fotos, filmes, e eu não fui uma exceção. Algumas não resistem sequer à tentação de entrar em espelhos e buracos de coelho, como a Alice de Lewis Carroll, outra paixão precoce, contemporânea de London, Alexandre Dumas (Os Três Mosqueteiros), Julio Verne (20 Mil Léguas Submarinas), Conan Doyle (Sherlock Holmes), Edgar Rice Burroughs (Tarzan), Robert Louis Stevenson (A Ilha do Tesouro), Henry Rider Haggard (As Minas do Rei Salomão), Rafael Sabatini (Scaramouche, Capitão Blood, Gavião do Mar) e Emilio Salgari (Sandokan, Capitão Tormenta, Corsário Negro, Leão de Damasco).

Há uns dez anos, Cacilda Guerra, uma amiga paulistana, me deu de presente um exemplar de Os Grandes Benfeitores da Humanidade que encontrara algo desmilinguido num sebo do bairro de Santo Amaro; mas que chegou às minhas mãos recauchutado com o merecido desvelo. Ao reler as primeiras linhas descobri o mais recôndito motivo do meu fascínio pelas reinações de Leda, Ernani e Edison: a casa colonial da família Vilaça ficava "no alto de Santa Teresa". Ou seja, Leda era minha vizinha de bairro. Sua viagem pela História acontecera a alguns poucos quilômetros, ou metros, de onde eu morava.

Volto à chorumela do Macedo. Era o único livro que encontrei na fazenda de um tio, em Minas, quando lá passei as férias de verão, na flor dos meus 11 anos. Um adulto razoavelmente instruído em poucas horas dá conta dos 21 capítulos de A Moreninha. Ainda servido por um precário repertório vocabular (volta e meia empacava em certos verbos e palavras, como soer, bulício, carraspana, etc.), levei dois dias para chegar ao fim daquela ciranda amorosa. A segunda leitura foi mais rápida.

Pois é, na falta de outro livro, o reli não sei quantas vezes. Talvez seja o único sujeito no mundo com Ph.D. (involuntário) na história da moreninha Carolina, "travessa como um beija-flor, inocente como uma boneca, faceira como o pavão e curiosa como uma mulher". Não é nada, não é nada, não é nada mesmo.

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