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As portas do tempo escancaradas em uma parábola sutil

Em Ponto Ômega, Don DeLillo se reinventa como romancista: usa uma instalação baseada em [br]Hitchcock e a filosofia de Teilhard de Chardin para tratar das novas formas de percepção do ser

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

12 de março de 2011 | 00h00

No verão de 2006, o escritor norte-americano Don DeLillo entrou numa sala do Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA) para ver Psicose (1960), o clássico filme de Alfred Hitchcock, com o tempo de exibição totalmente subvertido e sem som. Na versão do artista conceitual escocês Douglas Gordon, autor da instalação 24 Hour Psycho, o thriller era exibido a dois quadros por segundo, sendo necessário um dia inteiro para ver a obra na íntegra. DeLillo ficou fascinado. Voltou três vezes para acompanhar minuciosamente todos os movimentos do psicótico Norman Bates (Anthony Perkins), que esfaqueia a indefesa Marion Crane (Janet Leigh) no chuveiro do decadente motel Bates. E fez da instalação de Gordon o marco zero de seu mais recente livro, Ponto Ômega (tradução de Paulo Henriques Britto), que será lançado em abril pela editora Companhia das Letras. Sobre Hitchcock (1899-1980) e o padre jesuíta Teilhard de Chardin (1881-1955), que inspirou a parte filosófica da obra, e seus embates com o gênero romance e sua própria literatura, DeLillo, 74 anos, falou com exclusividade ao Sabático, numa entrevista concedida por telefone, de Bronxville, Nova York.

Cinéfilo espectador de filmes europeus e japoneses, DeLillo não usa o inglês Hitchcock além da conta nesse curto romance. A projeção ralentada de Psicose é apenas um pretexto para discutir o conceito de Henri Bergson da duração do tempo - uno e interpenetrado -, embora o filósofo que DeLillo tivesse em mente, ao escrever Ponto Ômega, fosse outro francês, o teólogo e paleontólogo Teilhard de Chardin. Segundo o conceito "ponto ômega" cunhado por Chardin, esse seria o estágio final na evolução da consciência - e, ao contrário do que possa sugerir, ele encarava o fim escatológico de modo positivo. Foi relendo o pensador que DeLillo, criado numa família católica do Bronx, ficou cativado pela ideia de que a consciência humana chegou ao ponto de exaustão. Para ele, o que está por vir pode ser tanto um paroxismo como algo sublime.

Recluso. "Li O Fenômeno Humano, de Chardin, quando ainda era estudante e sempre me fascinou sua teoria de que é preciso ver para ser, que é necessário dar um salto para fora de nossa biologia e voltar, se preciso, para a forma inorgânica", diz DeLillo, repetindo as palavras do seu personagem Richard Elster, um acadêmico de 73 anos que serviu de conselheiro ao Pentágono na guerra do Iraque e, supostamente cansado de todos e de tudo, vive isolado no deserto californiano. Sua função, até então, era participar de reuniões sigilosas com militares e traçar planos estratégicos para a distribuição de tropas e a contrainsurreição.

No começo do livro, Elster é um dos visitantes do MoMA que, imóvel junto à parede norte do museu, vê o filme original de Hitchcock projetado em velocidade lenta. Uma dúzia de páginas depois já se encontra recluso no deserto de Sonora ou Mojave (a localização é imprecisa), recebendo a visita do documentarista experimental Jim Finley. Ele está ali interessado em rodar a cinebiografia de Elster (curiosamente, o mesmo sobrenome da personagem de Kim Novak em Um Corpo Que Cai/Vertigo, também de Hitchcock). Finley é um cineasta fracassado. No passado, realizou um média-metragem com os passos do comediante Jerry Lewis acompanhados por bizarros ruídos na trilha sonora. É fascinado por Arca Russa (2002), filme rodado por Aleksandr Sokúrov no museu Hermitage, modelo que adota para a cinebiografia de Elster - um único plano-sequência, sem cortes, como na referida obra do cineasta russo.

Elster finge interesse. Sabe que o filme nunca sairá. Finley não o convence, mas, fascinado pela inteligência do biografado, acaba ficando mais do que deveria em sua casa. Com seu casamento desfeito, sobra ao cineasta tempo para perseguir a filha do acadêmico, enigmática figura que aparece e desaparece como por encanto, a exemplo da mulher de Vertigo, até ter um trágico fim como Janet Leigh no filme de Hitchcock.

Ao contrário dos épicos de Don DeLillo, entre eles Submundo (736 páginas), Ponto Ômega (64 páginas) parece inaugurar uma nova fase na literatura desse notável escritor, cujo peso na literatura americana de hoje pode ser medido pelo fato de ter sido colocado ao lado de Philip Roth, Thomas Pynchon e Corman McCarthy para formar o quarteto dos melhores autores contemporâneos dos EUA, segundo o crítico Harold Bloom. Isso, para não falar da influência exercida sobre os jovens - é inconcebível pensar num ficcionista como Jonathan Franzen, do best-seller Freedom, sem esse antecedente literário. Não há, claro, no novo trabalho tantos personagens como em Submundo (1997) nem reportagens camufladas de ficção sobre a paranoia que persegue a sociedade americana, como em Libra (1988). Focando a vida de Lee Harvey Oswald, Libra não retrata o assassino do presidente John F. Kennedy como um comunista perturbado e algo disléxico; para ele, trata-se de uma vítima da paranoia americana. A CIA teria, como Oswald, uma ideia fixa: a do assassinato do presidente para forçar uma guerra contra Cuba.

Hoje, DeLillo não gosta tanto de falar de política. Recusa-se a aceitar, por exemplo, as comparações feitas por alguns resenhistas americanos que viram semelhanças entre o acadêmico de Ponto Ômega e o ex-secretário de Defesa dos governos Kennedy e Lyndon Johnson, Robert McNamara (1916-2009), objeto de estudo do cineasta Errol Morris no documentário Sob a Névoa da Guerra (The Fog of War, 2003), inspiração oblíqua do cineasta Finley criado por DeLillo. Entre as máximas de McNamara, arquiteto da guerra do Vietnã, duas delas se destacam: a primeira diz que, para fazer o bem, você pode ter que fazer o mal; a segunda revela sua desconfiança na razão, garantindo que ela não vai nos salvar.

Modelos. Elster, argumenta DeLillo, não tem McNamara como espelho, apesar de ser o autor fictício de um ensaio chamado Deportações, criticado pela esquerda americana, e conselheiro do governo com acesso a telegramas confidenciais das autoridades - o tipo do informante que o WikiLeaks gostaria de ter. "Elster é um intelectual desiludido com a natureza tecnocrática das discussões políticas, o que o distancia um bocado de McNamara", diz o escritor. O recluso acadêmico seria, antes, segundo sua definição, um poeta da entropia, um outsider que pensa o mundo como um Teilhard de Chardin pós-moderno e que, a exemplo dos antigos profetas e santos, vai ao deserto em busca da iluminação. "Ele lê poesia, Zukofsky, Pound, Rilke; não é um McNamara." Nem Donald Rumsfeld, acrescentaria, se a referência ao ex-secretário de Defesa de Bush não estivesse na página 34 de Ponto Ômega. Nela, Elster afirma que estamos todos esgotados com essas guerras e que é hora de "fechar tudo", porque o Iraque é um "cochilo", um flerte nuclear dos EUA com a morte.

Numa resposta direta ao documentarista interessado em descobrir os nomes dos culpados pelo conflito iraquiano, este recebe como resposta de Elster a frase principal do livro: "Somos uma multidão, um enxame. Pensamos em grupos, viajamos em exércitos, que levam o gene da autodestruição". A essa conclusão, a de que nossa mentalidade bélica prova que "uma bomba nunca basta", DeLillo faz rimar uma reflexão sobre a filosofia de Chardin, anunciando uma nova era de introversão após tantos estilhaços de guerras lançados sobre o mundo. "Faça essa pergunta a você mesmo: Nós temos que ser humanos para sempre? A consciência se esgotou. Agora é voltar para a matéria inorgânica. É isso que nós queremos. Queremos ser pedras num campo", resume Elster, persona literária com a mesma idade do autor.

DeLillo pensaria de modo semelhante? Gostaria de ser esquecido por seus leitores, virar um recluso como Salinger? Ele ri e responde que não, nunca se imaginou como o autor de O Apanhador no Campo de Centeio, "até mesmo porque, ao se isolar, você vira alvo preferencial da mídia", observa o escritor, que não usa correio eletrônico, ainda escreve na sua antiga Olympia e mora a 15 milhas da badalada Manhattan, no subúrbio de Bronxville. Ele e sua mulher, a paisagista Barbara Bennett, com quem é casado desde 1975, são dois dos 6.543 privilegiados habitantes desse paraíso de parques públicos (280 mil metros quadrados de áreas verdes). Por que, então, escrever sobre um acadêmico que busca no deserto uma resposta para sua crise existencial?

"No deserto ele encontra uma espécie de contrapartida física, pois Elster pensa a expansão humana em termos geográficos", justifica, recorrendo mais uma vez a Chardin. Como geopaleontólogo, o jesuíta mostrava bastante consideração pelos fósseis ao falar da evolução humana, distanciando-se da doutrina da Igreja e enfrentando a ira de seus superiores. Haveria, segundo Chardin, uma força agindo do interior da matéria a orientar a evolução para seu ponto de convergência - o "ponto ômega" que dá título ao livro de DeLillo. Há algo que faz combinar o homem com o meio ambiente, como um panteísmo cósmico, a crença numa relação de evolução entre o Criador e o universo, acredita o escritor, que usou a instalação de Douglas Gordon sobre Psicose como uma metáfora das portas da percepção para uma outra dimensão. Ao constatar como o horror escancarado do filme é consumido pelo tempo em 24 Hour Psycho, o homem que observa a instalação do MoMA se dá conta de que o longa de Hitchcock já não existe, que ele criou outro vocabulário para entender cada uma das cenas isoladamente. Também nisso DeLillo é inovador, buscando uma correspondência entre a escrita e a linguagem visual.

Cinema. DeLillo é autor de um único roteiro para as telas, o de Game 6 (2005), obscuro filme dirigido por Michael Hoffman sobre um dramaturgo (Michael Keaton) obcecado pelo time de beisebol Boston Red Sox. O escritor defende que o cinema tem contribuído - e muito - para o advento de uma literatura mais sintética, menos descritiva e autorreferencial que a do romance do século 20. "Em meu trabalho há uma correspondência estreita entre a literatura e a linguagem cinematográfica, embora não saiba explicar como o poder da imagem encontra sua tradução no código literário." Diante da instalação de Gordon sobre o filme de Hitchcock, no MoMA, DeLillo "parece estar diante de uma meditação filosófica em movimento, desafiadora, pedindo para ser transcrita". Foi assim que surgiu o espectador parado na galeria do MoMA, tentando entender os cortes abruptos de Psicose e a nova percepção que o tempo dilatado do filme possibilita.

O escritor poderia citar ainda outro livro seu que surgiu com a imagem de um homem só, trancado num carro no trânsito caótico de Nova York, o jovem bilionário Eric Packer de Cosmópolis, empenhado em cortar o cabelo e fazer sexo numa Manhattan de luxo. Packer, um extemporâneo Ulisses em sua odisseia urbana de um dia, atraiu a atenção do cineasta canadense David Cronenberg, que começa em maio a filmar o romance com Robert Pattinson (o vampiro de Crepúsculo) e Juliette Binoche no elenco. DeLillo se mostra entusiasmado com o projeto. "Cronenberg está bem acima da média dos diretores americanos", diz sobre o diretor que arriscou uma teoria sobre a mutação antropológica no perturbador Crash, filme sobre pessoas fixadas em acidentes de automóvel e mutilados.

Também em Ponto Ômega o escritor fala de seres fraturados, convencido de que a evolução espiritual do homem segue as mesmas leis do desenvolvimento material e que nada pode ser entendido sem a história, embora o protagonista do seu livro diga que a vida verdadeira "não pode ser reduzida a palavras ditas ou escritas, por ninguém, nunca". É uma forma de dizer que cada um tem seu caminho em defesa da singularidade e contra a massificação ditada pela nova ordem cibernética. "A linguagem do computador é um tanto uniformizadora", reflete. "Preocupo-me, além de tudo, por essa dependência tecnológica."

DeLillo parece igualmente angustiado com as tramoias políticas dos especuladores de Wall Street, que davam as cartas no tempo de Bush - ainda hoje ocupando importantes cargos no governo de Obama. Eles são os grandes responsáveis pela crise de 2008, denunciadas no documentário Trabalho Interno (Inside Job), de Charles Ferguson, ganhador do Oscar. Don DeLillo, que já escreveu sobre os efeitos do terrorismo (Homem em Queda, 2007), fala na entrevista pela última vez de política para dizer que abdicou do assunto em seus livros, especialmente na parábola oblíqua que é Ponto Ômega. "Penso que estou mais meditativo do que nunca e não sei se voltarei a escrever como antes."

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