As polêmicas do seqüestro de Silvio Santos

Faz tempo que este País não vivia tão grandes emoções. Improvável e por isso mesmo espetacular, os brasileiros assistiram, em dois longos capítulos, a criminalidade batendo à porta de Silvio Santos, uma das figuras mais populares e queridas da TV.Parodiando os textos declamados na cobertura dos noticiários, o seqüestro de Patrícia Abravanel, seguido pelo do seu pai pelo mesmo homem, parecia coisa de Hollywood, de roteiro de cinema.Isso fez o Brasil parar diante da TV. Nas duas oportunidades, quando a estudante concedeu uma espécie de entrevista coletiva da sacada de sua casa depois de sair do cativeiro e, durante toda a manhã de quinta-feira, quando o seqüestrador fez refém o empresário e apresentador Silvio Santos, metade dos aparelhos de TV existentes na região metropolitana de São Paulo estava ligada. Um recorde para o horário.A natureza do show exibido pela TV (pelo rádio e sites) deixou o brasileiro de todas as faixas sociais perplexo e suscitou polêmica reais e falsas. A primeira e mais grave tratou do comportamento da imprensa diante dos seqüestros. A maioria do veículos, a pedido da família Abravanel e da polícia, não noticiou o seqüestro da estudante até o seu desfecho. A Globo e alguns jornais transformaram o fato em manchetes. Em sua defesa, um porta-voz da rede líder no Ibope levantou uma ?ética própria?, que nortearia as tomadas de decisão no Jornalismo da Globo.Argumento complicado especialmente quando a vida de alguém corre perigo. Essa discussão, se não fosse atropelada pelo segundo ato (o seqüestro do próprio SS), poderia ser uma das mais produtivas porque expôs de maneira incontestável a enorme falta que faz um código de conduta para a TV que, em última instância, é uma concessão pública. Ou seja, se não existem regras claras ? baseadas no que diz a Constituição, de preferência ? o que vigora é a ?ética? que convém a cada um, passível de interpretações variadas.No inesperado desdobramento do caso ? a reação do seqüestrador que matou dois policiais, desceu paredes como um super-herói e submeteu Silvio Santos dentro de sua própria casa ?, a imprensa comportou-se de modo homogêneo, explorando todas as possibilidades do fato. Saiu-se melhor a Record, que há tempos especializa-se no jornalismo policial. Enquanto a Globo enchia lingüiça rememorando os acontecimentos anteriores, a Record trazia informações inéditas ao público. Colocou repórteres para acompanhar a movimentação no Morumbi e na periferia, onde parentes do seqüestrador foram arrebanhados para ajudar a resolver o impasse.Resolvido o caso, surgiram a falsas polêmicas. Apresentadores inflamados colocaram sob suspeita a coragem pessoal do governador Alckmin, que acabou resolvendo a rendição do criminoso. ?Se o seqüestro fosse em uma favela, ele iria até lá??, perguntaram Bóris Casoy (Record) e José Paulo de Andrade (Band). À tarde, Márcia Goldschmidt exibia na Band imagens da mãe de Fernando e desconfiava da ?calma? da mulher e da falta de pobreza na casa em que mora.

Agencia Estado,

01 de setembro de 2001 | 00h00

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.