As pistas de dança não mentem jamais

Você sabe o que a atriz Luana Piovani, a cantora Alcione e o velocista jamaicano Usain Bolt têm em comum? Ao menos por algumas horas, eles já foram DJs.

CLAUDIA ASSEF, O Estadao de S.Paulo

20 de março de 2010 | 00h00

Brincar de discotecar virou uma febre, algo quase tão corriqueiro quanto dar palpite sobre a escalação da seleção brasileira. Tanto que o ato de botar músicas em festas ganhou até um verbo específico: "atacar de DJ".

É claro que essa moda já deixou muito DJ profissional enfurecido. Afinal, do jeito que a coisa anda, parece mesmo que ser disc-jóquei não requer nenhum treino ou habilidade. Dá a impressão que é só vestir uma roupa bacana, botar umas músicas no iPod e "agitar a galera".

Uma coisa é certa: atacar de DJ envolve muito menos conhecimento técnico do que, por exemplo, fazer um solo de guitarra. Então, praticamente qualquer um, depois de uma aulinha básica sobre o equipamento de som, consegue trocar músicas numa noitada.

É claro que micos vão acontecer, porque ninguém aprende mixagem - que é a transição de uma música para outra - da noite pro dia. Mas que dá para virar DJ de festinha sem muito treino, isso dá. O sonho de ser o centro das atenções por uma noite é totalmente realizável quando se veste a fantasia de DJ.

O mesmo não vale para alguém que queira se passar por músico aventureiro. Imagine o que seria um famoso "atacando" de baterista ou fazendo um solo vocal numa ópera? Simplesmente impossível.

Está explicada, então, a avalanche de celebridades que trocou a manjada presença ilustre (cobrança de cachê para aparecer em eventos) pelo mais moderno DJ set. Afinal, é muito mais cool aparecer na foto com fone nos ouvidos do que dançando com a debutante, não é?

Também virou moda a profissão ser abraçada por ex-participantes do programa Big Brother. Parece que virar DJ preenche o vazio do ex-BBB, que vê no simples fato de vestir um par de fones de ouvido uma chance de ganhar sobrevida como artista. Agora você sabe a diferença entre "atacar de" e "ser" DJ?

O DJ precisa ser um pouco doente da cabeça, no bom sentido. Tem de pensar em música 24 horas por dia, mas não só na música. Quem vive dessa profissão quer saber como vai conseguir tirar o fôlego da multidão naquela noite - e na seguinte também. Uma apresentação meia-boca já é motivo para entrar em depressão. DJ não se permite errar.

E as viagens, então? Ser DJ é encarar aeroportos com bom humor, pensando na festa que o espera. É nunca mais ter um sábado livre para a família. É estar sempre ansioso com a montanha de música nova que está no HD do laptop esperando para ser ouvida. Vista de perto, a profissão tem bem pouco de glamour e muito de dor de cabeça, isso sim.

Quem entra nessa achando que basta comprar um belo fone de ouvido e baixar músicas para dentro do computador normalmente quebra a cara. A vida do DJ é uma angústia constante pela próxima grande música.

Em meio a essa febre de celebridades que aparecem atacando de DJs, o modelo Jesus Luz acabou ganhando (mais) outros 15 minutos de fama. O namorado brasileiro da Madonna gerou muita revolta entre os profissionais dos toca-discos. Muita gente se doeu quando viu uma foto dele se apresentando numa boate do Sul do País, sendo ajudado por um DJ, escondido embaixo dos equipamentos, na cabine de som.

Jesus Luz foi pego para Cristo, virou bode expiatório desse circo que se formou. Se ele vai tocar bem um dia, só o tempo vai dizer. Para mim, toda essa discussão que ele ajudou a levantar em torno da profissão só pode ser positiva. Afinal, não tem aquela máxima que diz que a publicidade de um produto ruim só acelera o seu fracasso?! Ter apenas uma bela carcaça de DJ não salva a pele de ninguém nessa profissão. A pista de dança não mente jamais.

A JORNALISTA CLAUDIA ASSEF, 35, É AUTORA DO LIVRO E BLOG TODO DJ JÁ SAMBOU E EDITORA-EXECUTIVA DO PORTAL VIRGULA

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